segunda-feira, 27 de fevereiro de 2017

Aquarela


No enredo da canção "Aquarela" (1983), a personagem colore o mundo que imagina. Com o lápis, elege o céu num encontro com o mar e completa a cena: "Pinto um barco a vela branco navegando". A gaivota é um pingo azul no papel.

(Mônica Costa, Publifolha 15-11-2014)



AQUARELA

Numa folha qualquer eu desenho um sol amarelo
E com cinco ou seis retas é fácil fazer um castelo
Corro o lápis em torno da mão e me dou uma luva
E se faço chover com dois riscos tenho um guarda-chuva
Se um pinguinho de tinta cai num pedacinho azul do papel
Num instante imagino uma linda gaivota a voar no céu

Vai voando, contornando
A imensa curva norte-sul
Vou com ela viajando
Havaí, Pequim ou Istambul
Pinto um barco a vela branco navegando
É tanto céu e mar num beijo azul
Entre as nuvens vem surgindo
Um lindo avião rosa e grená
Tudo em volta colorindo
Com suas luzes a piscar
Basta imaginar e ele está partindo
Sereno indo
E se a gente quiser
Ele vai pousar

Numa folha qualquer eu desenho um navio de partida
Com alguns bons amigos, bebendo de bem com a vida
De uma América a outra consigo passar num segundo
Giro um simples compasso e num círculo eu faço o mundo
Um menino caminha e caminhando chega num muro
E ali logo em frente a esperar pela gente o futuro está

E o futuro é uma astronave
Que tentamos pilotar
Não tem tempo nem piedade
Nem tem hora de chegar
Sem pedir licença muda nossa vida
E depois convida a rir ou chorar
Nessa estrada não nos cabe
Conhecer ou ver o que virá
O fim dela ninguém sabe
Bem ao certo onde vai dar
Vamos todos numa linda passarela
De uma aquarela que um dia enfim
Descolorirá

Numa folha qualquer eu desenho um sol amarelo
(Que descolorirá)
E com cinco ou seis retas é fácil fazer um castelo
(Que descolorirá)
Giro um simples compasso e num círculo eu faço o mundo
(Que descolorirá)
Vinicius de Moraes, Toquinho, Guido Morra, Maurizio Fabrizio



De acordo com o texto acima, responda as questões de 01 a 03:

01. No verso, "Corro o lápis em torno da mão e me dou uma luva", a expressão em destaque sugere:
A) o desenho da mão.
B) a confecção da luva.
C) o colorido da mão.
D) a pintura dos dedos.
E) o contorno do pincel
02. A aquarela de que fala na música está:
A) no desenho e na vida real.
B) no desenho e na imaginação.
C) na pintura, apenas.
D) na vida real e na imaginação
E) no desenho do lápis.

03. No poema a expressão "beijo azul" sugere o encontro:
A) da vela do barco com o céu.
B) do avião com o céu.
C) do barco com o mar.
D) do céu com o mar.
E) do céu com a terra

Fonte: http://www.vivacomunidade.org.br/wp-content/uploads/2013/05/GABARITO-Prova-sele%C3%A7%C3%A3o-ACS-MANH%C3%83.pdf, 2013

RESENHA DA MÚSICA AQUARELA (TOQUINHO)

A melodia da música “Aquarela” é uma fusão de uma antiga canção de Toquinho e Vinícius de Moraes, de 1974, chamada “Uma Rosa em Minha Mão”. Em 1982, Toquinho e o italiano Maurizio Fabrizio compuseram uma nova melodia para música “Aquarela”. A letra original é em italiano, de Guido Morra. Foi um enorme sucesso na Itália, na voz do próprio Toquinho. A canção intitulava se Acquarello. Só posteriormente foi gravada em português, com uma letra adaptada da original italiana.
“Numa folha qualquer / eu desenho um sol amarelo / E com cinco ou seis retas / é fácil fazer um castelo / Corro o lápis em torno da mão / e me dou uma luva / E se faço chover com dois riscos / tenho um guarda chuva”, inicia se tratando do meio infantil, a criatividade ao se expressar, e a representação do mundo o qual rodeia a criança.
A segunda estrofe relata, principalmente, a simplicidade, a criatividade e a imaginação de uma criança: “Se um pinguinho de tinta cai num / pedacinho azul do papel / num instante imagino uma linda / gaivota a voar no céu”.
Em “Numa folha qualquer eu desenho / um navio de partida / com alguns bons amigos bebendo / de bem com a vida”, o termo “navio de partida”, faz analogia, ao barco que desenhamos, que esta navegando, conduzindo, as lembranças e atitudes da vida, e, “com alguns bons amigos bebendo de bem com a vida”, representa a saída da infância.
Em “De uma América a outra consigo / passar num segundo / Giro um simples compasso e num / círculo eu faço o mundo”, há referência à fase da adolescência, há problemas, que na mesma perspectiva, parecem simples e fácil de solucionar.
“E o futuro é uma astronave que / tentamos pilotar / Não tem tempo nem piedade / nem tem hora de chegar”, nesses versos, possivelmente se percebe traços da vida adulta. Há o planejamento do futuro, e ações referentes ao mesmo, suas consequências, porém são imprevisíveis. “Nessa estrada não nos cabe / conhecer ou ver o que virá / O fim dela ninguém sabe bem ao / certo onde vai dar”, demonstrando o futuro incerto.
Em “Vamos todos numa linda passarela / de uma aquarela que um da enfim / Descolorirá”, em uma linda passarela, na vida, com os sonhos, vontades e personalidade, enfim descolorirá, acabará. Pode se entender a brevidade da vida, que um dia tudo que se vivencia, se luta, terá um fim.
E, para concluir o poema com a mesma ideia analisada: “Numa folha qualquer eu desenho / um sol amarelo (que descolorirá) / e com cinco ou seis retas é fácil / fazer um castelo (que descolorirá) / Giro um simples compasso e num / círculo eu faço o mundo (e descolorirá)”, nesses versos, à analise subjetiva da vida, no inicio, o modo infantil de observar e interpretar aperfeiçoa, o que um dia, extraordinariamente essencial, não surgirá efeito, acabará, representado de modo geral, as várias etapas da vida.
A letra dessa canção consegue nos fazer refletir sobre a vida e o término de tudo, ou seja, retrata sobre a nossa própria passagem pela Terra, que um dia descolorirá que tudo o que se construiu tudo o que se criou um dia terminará é a lei da vida. Fica uma reflexão: É nossa obrigação aproveitarmos o hoje, sermos felizes agora, pois um dia tudo não passará de lembranças e de saudades.

Rio Grande do Norte, Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia. Professora: Elaine. Upload para https://www.academia.edu/10175736/Resenha_Aquarela_Toquinho?auto=download, por Dayana Maria.


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Observe a música “Aquarela” composta por Toquinho para responder às questões de 01 a 15.

AQUARELA

1 Numa folha qualquer eu desenho um sol amarelo
2 E com cinco ou seis retas é fácil fazer um castelo.
3 Corro o lápis em torno da mão e me dou uma luva,
4 E se faço chover, com dois riscos tenho um guarda-chuva.
5 Se um pinguinho de tinta cai num pedacinho azul do papel,

6 Num instante imagino uma linda gaivota a voar no céu.
7 Vai voando, contornando a imensa curva Norte e Sul,
8 Vou com ela, viajando, Havai, Pequim ou Istambul.
9 Pinto um barco a vela branco, navegando, é tanto céu e mar num beijo azul.

10 Entre as nuvens vem surgindo um lindo avião rosa e grená.
11 Tudo em volta colorindo, com suas luzes a piscar.
12 Basta imaginar e ele está partindo, sereno, indo,
13 E se a gente quiser ele vai pousar.

14 Numa folha qualquer eu desenho um navio de partida
15 Com alguns bons amigos bebendo de bem com a vida.
16 De uma América a outra consigo passar num segundo,
17 Giro um simples compasso e num círculo eu faço o mundo.

18 Um menino caminha e caminhando chega no muro
19 E ali logo em frente, a esperar pela gente, o futuro está.
20 E o futuro é uma astronave que tentamos pilotar,
21 Não tem tempo nem piedade, nem tem hora de chegar.
22 Sem pedir licença muda nossa vida, depois convida a rir ou chorar.

23 Nessa estrada não nos cabe conhecer ou ver o que virá.
24 O fim dela ninguém sabe bem ao certo onde vai dar.
25 Vamos todos numa linda passarela
26 De uma aquarela que um dia, enfim, descolorirá.

 *
01. Nos primeiros quatro versos, quais são os itens que o autor fala em desenhar?
a) Um sol, um castelo, uma luva e um guarda-chuva.
b) Um sol amarelo, seis retas, uma luva e chuva.
c) Uma folha qualquer, cinco retas, um lápis e um guarda chuva.
d) Um sol, um castelo, um lápis e um guarda-chuva

02. Ainda sobre os primeiros quatro versos, pode-se afirmar que:
a) o autor desenha um sol qualquer numa folha amarela.
b) fazer um castelo é fácil.
c) o autor corre usando luva.
d) com dois riscos o autor faz chover.

03. De acordo com o quinto verso, o que cai num pedacinho de papel?
a) Um pinguinho de tinta azul.
b) Um pedacinho do céu.
c) Um pinguinho de tinta.
d) Um pedacinho azul de tinta.

04. No sétimo verso, “Vai voando, contornando a imensa curva Norte e Sul”, qual o sujeito dos verbos voando e contornando?
a) Eu.
b) Céu.
c) Instante.
d) Gaivota.

05. No oitavo verso, “Vou com ela, viajando, Havai, Pequim ou Istambul”, quem é ela?
a) Gaivota.
b) Linda.
c) Tinta.
d) Curva Norte e Sul.

06. Segundo o décimo verso, o que surge entre as nuvens?
a) Um avião e um grená
b) Um avião rosa e grená.
c) Um avião rosa e um grená.
d) Um avião e um rosa grená.

07. O décimo primeiro verso, “Tudo em volta colorindo, com suas luzes a piscar”, faz referência a quê?
a) Às nuvens.
b) Ao grená.
c) Ao avião.
d) Ao céu.

08. No décimo segundo verso, “Basta imaginar e ele está partindo, sereno, indo”, quem é ele?
a) O barco.
b) O grená.
c) O céu.
d) O avião.

09. Nos versos 14 e 15, o que desenha o autor?
a) Um navio de partida e alguns bons amigos
b) Um navio qualquer com alguns amigos.
c) Um navio qualquer numa folha com alguns amigos.
d) Uma folha qualquer com alguns amigos.

10. Por que, no verso 16, o autor diz “De uma América a outra consigo passar num segundo”?
a) Porque o autor possui uma máquina de teletransporte.
b) Porque no desenho no papel, para ir de uma América a outra, a distancia é muito pequena.
c) Porque o autor conhece um atalho.
d) Porque o autor já viajou muito por este trajeto.

11. No verso 17, “Giro um simples compasso...”, a palavra sublinhada é:
a) Um substantivo.
b) Um verbo.
c) Um adjetivo.
d) Um artigo.

12. No verso 18, “Um menino caminha e caminhando chega no muro”, as palavras sublinhadas são todas:
a) Artigos.
b) Adjetivos.
c) Substantivos.
d) Verbos.

13. No verso 21, “Não tem tempo nem piedade, nem tem hora de chegar”, as palavras sublinhadas são todas:
a) Substantivos.
b) Adjetivos.
c) Verbos.
d) Artigos.

14. No verso 22, “Sem pedir licença muda nossa vida, depois convida a rir ou chorar”, quem é o sujeito dos verbos sublinhados:
a) Piedade.
b) Futuro.
c) Hora.
d) Menino.

15. Quantas estrofes tem a canção?
a) 26.
b) 16.
c) 06.
d) 36.



domingo, 26 de fevereiro de 2017

Sérgio Godinho




2.º ANDAR DIREITO

Ele vinte anos, e ela dezoito
e há cinco dias sem trocarem palavra
lembrando as zangas que um só beijo curava
e esta história começa no instante
em que o homem empurra a porta pesada
e entra no quarto onde a mulher está deitada
a dormir de um sono ligeiro

E no quarto, às cegas,
o escuro abraça-o como que a um companheiro
que se conhece pelo tocar e pelo cheiro
e é o ruído que o chão faz que lhe traz
o gosto ao quarto depois de uma ruptura
faz-lhe sentir que entre os dois algo ainda dura
dos dias em que um beijo bastava

E agora, da cama
vem uma voz que diz sussurrando: És tu?
e a luz acende-se sobre um braço nu
e a mulher pergunta: a que vens agora?
é que não sei se reparaste na hora
deixa dormir quem quer dormir, vai-te embora
amanhã tenho de ir trabalhar.

Não fales, que o bebé ainda acorda
não grites, que o vizinho ainda acorda
e não me olhes, que o amor ainda acorda
deixa-o dormir o nosso amor, um bocadinho mais
deixa-o dormir, que viveu dias tão brutais

E o homem, de pé
Parece um rapazinho a ver se compreende
e grita e diz que ele também não se vende
que quer a paz mas de outra maneira
e nem que essa noite fosse a derradeira
veio afirmar quer ela queira ou não queira
que os dois ainda têm muito a aprender

Se temos...! Diz ela
mas o problema não é só de aprender
é saber a partir daí que fazer
e o homem diz: que queres que responda?
Não estamos no mesmo comprimento de onda...
Tu a mandares-me esse sorriso à Gioconda
e eu com ar de filme americano

Somos tão novos, diz o homem
e agora é a vez de a mulher se impacientar
essa frase já começa a tresandar
é que não é só uma questão de idade
o amor não é o bilhete de identidade
é eu ou tu, seja quem for, ter vontade
de mudar e deixar mudar

Não fales, que o bebé ainda acorda
não grites, que o vizinho ainda acorda
e não me olhes, que o amor ainda acorda
deixa-o dormir o nosso amor, um bocadinho mais
deixa-o dormir, que viveu dias tão brutais

E assim se ouviu
pela noite fora os dois amantes falar
e o que não vi só tive de imaginar
é preciso explicar que sou o vizinho
e à noite vivo neste quarto sozinho
corpo cansado e cabeça em desalinho
e o prédio inteiro nos meus ouvidos

Veio a manhã e diziam
telefona ao teu patrão, diz que hoje não vais
que viveste uns dias assim tão brutais
e que precisas de convalescença
sei lá, inventa qualquer coisa, uma doença
mete um atestado ou pede licença
sem prazo nem vencimento, se preciso for
(espero que não seja preciso, porque não
sei como é que eles vão viver sem os
dois salários...)

Vá fala que o bebé está acordado
e vizinho deve estar já acordado
e o amor, pronto, também está acordado
mas tem cuidado, trata-o bem
muito bem, de mansinho
que ainda agora vai pisar outro caminho.

Sérgio Godinho (Letra e música), álbum Pano-cru, 1978.

Notas:
1. A parte entre parêntesis é uma locução feita pelo Hugo Lourenço.
2. Pode ler-se como um conto. Há dois personagens e um narrador que lá para o fim da história se há de assumir como personagem também. Em 2700 caracteres Sérgio Godinho conta a história corriqueira de um casal na fronteira entra a guerra e a paixão, de um amor jovem a tentar sobreviver a rotinas antigas. (João Pedro Oliveira, https://www.timeout.pt/lisboa/pt/musica/5-cancoes-de-sergio-godinho-que-merecem-ser-lidas, 2017-02-23).




FOTOS DO FOGO

Chega-te a mim
mais perto da lareira
vou-te contar
a história verdadeira

A guerra deu na TV
foi na retrospectiva
corpo dormente em carne viva
revi p’ra mim o cheiro aceso
dos sítios tão remotos
e do corpo ileso
vou-te mostrar as fotos
olha o meu corpo ileso

Olha esta foto, eu aqui
era novo e inocente
«às suas ordens, meu tenente!»
E assim me vi no breu do mato
altivo e folgazão
ou para ser mais exacto
saudoso de outro chão
não se vê no retrato

Chega-te a mim […]

Nesta outra foto, é manhã
olha o nosso sorriso
noite acabou sem ser preciso
sair dos sonhos de outras camas
para empunhar o cospe-fogo e o lança-chamas

estás são e salvo e logo
«viver é bom», proclamas

Eu nesta, não fiquei bem
estou a olhar para o lado
tinham-me dito: eh soldado!
É dia de incendiar aldeias
baralha e volta a dar
o que tiveres de ideias
e tudo o que arder, queimar!
no fogo assim te estreias
Chega-te a mim […]

Nesta outra foto, não vou
dar descanso aos teus olhos
não se distinguem os detalhes
mas nota o meu olhar, cintila
atrás da cor do sangue
vou seguindo em fila
e atrás da cor do sangue
soldado não vacila

O meu baptismo de fogo
não se vê nestas fotos
tudo tremeu e os terramotos
costumam desfocar as formas
matamos, chacinamos
violamos, oh, mas
será que não violamos
as ordens e as normas?

Refrão
Chega-te a mim […]

Álbum das fotos fechado
volto a ser quem não era
como a memória, a primavera
rebenta em flores impensadas
num livro as amassamos
logo após cortadas
já foi há muitos anos
e ainda as mãos geladas

Chega-te a mim
mais perto da lareira
vou-te contar
a história verdadeira
quando a recordo
sei que quase logo acordo
a morte dorme parada
nessa morada

Godinho, Sérgio (2007), 55 canções: partituras, letras, cifras, Lisboa: Assírio & Alvim, p. 113. In: Sérgio Godinho (1993), Tinta Permanente. EMI-Valentim de Carvalho.

Nota:
“Chega-te a mim/ mais perto da lareira/ vou-te contar/ a história verdadeira.” É o princípio do texto e há-de ser o seu refrão, repetido ao fim de cada episódio que vai sendo contado. Um homem, supõe-se que ex-soldado no Ultramar, revolve uma caixa de fotografias e memórias de guerra e conta, supõe-se que a um filho, a história verdadeira dos horrores que viu, viveu e cometeu. Uma short story em 1800 caracteres, cinematográfica como muitos dos melhores textos de Godinho. (João Pedro Oliveira, https://www.timeout.pt/lisboa/pt/musica/5-cancoes-de-sergio-godinho-que-merecem-ser-lidas, 2017-02-23).




EMBOSCADAS

Foste como quem me armasse uma emboscada
ao sentir-me desatento
dando aquilo em que me dei
foste como quem me urdisse uma cilada
vi-me com tão pouca coisa
depois do que tanto amei

Rasguei o teu sorriso
quatro vezes foi preciso
por não precisares de mim
e depois, quando dormias
fiz de conta que fugias
e que eu não ficava assim
nesta dor em que me vejo
do nos ver quase no fim

Foste como quem lançasse as armadilhas
que se lançam aos amantes
quando amar foi coisa em vão
foste como quem vestisse as mascarilhas
dos embustes que se tramam
ao cair da escuridão

Resgatei o teu carinho
quatro vezes fiz o ninho
num beiral do teu jardim
e depois, já em cuidado
vi no teu espelho do passado
a tua imagem de mim
e esta dor em que me vejo
de nos ver quase no fim

Foste como quem cumprisse uma vingança
que guardavas às escuras
esperando a sua vez
foste como quem me desse uma bonança
fraquejando à tempestade
de tão frágil que se fez

Resgatei o teu ciúme
quatro vezes deitei lume
ao teu corpo de marfim
e depois, como uma espada
pousei na terra queimada
o meu ramo de alecrim
e esta dor em que me vejo
de nos ver perto do fim.
Sérgio Godinho (Letra e música), Na Vida Real, 1986

Nota:
É um poema apenas, armadilhado de verbos no conjuntivo em que Godinho descobre uma musicalidade inesperada. Armasse, urdisse, lançasse, vestisse, cumprisse, desse. São 1100 caracteres que lustram um dos seus contributos maiores para a língua portuguesa: o de nos pôr a cantar palavras bicudas nas quais nunca suspeitáramos que a música pudesse habitar. Ouve-se no álbum Na Vida Real, de 1986, no mesmo alinhamento de “A Lisboa que Amanhece” ou “Pode Alguém Ser Quem Não É”. (João Pedro Oliveira, https://www.timeout.pt/lisboa/pt/musica/5-cancoes-de-sergio-godinho-que-merecem-ser-lidas, 2017-02-23).





PRIMEIRO DIA

A principio é simples, anda-se sozinho
Passa-se nas ruas bem devagarinho
Está-se bem no silêncio e no borborinho
Bebe-se as certezas num copo de vinho
E vem-nos à memória uma frase batida
Hoje é o primeiro dia do resto da tua vida
Hoje é o primeiro dia do resto da tua vida

Pouco a pouco o passo faz-se vagabundo
Dá-se a volta ao medo, dá-se a volta ao mundo
Diz-se do passado, que está moribundo
Bebe-se o alento num copo sem fundo
E vem-nos à memória uma frase batida
Hoje é o primeiro dia do resto da tua vida
Hoje é o primeiro dia do resto da tua vida

E é então que amigos nos oferecem leito
Entra-se cansado e sai-se refeito
Luta-se por tudo o que se leva a peito
Bebe-se, come-se e alguém nos diz: Bom proveito!
E vem-nos à memória uma frase batida
Hoje é o primeiro dia do resto da tua vida
Hoje é o primeiro dia do resto da tua vida

Depois vêm cansaços e o corpo fraqueja
Olha-se para dentro e já pouco sobeja
Pede-se o descanso, por curto que seja
Apagam-se dúvidas num mar de cerveja
E vem-nos à memória uma frase batida
Hoje é o primeiro dia do resto da tua vida
Hoje é o primeiro dia do resto da tua vida

Hoje é o primeiro dia do resto da tua vida
Enfim duma escolha faz-se um desafio
Enfrenta-se a vida de fio a pavio
Navega-se sem mar, sem vela ou navio
Bebe-se a coragem até dum copo vazio
E vem-nos à memória uma frase batida
Hoje é o primeiro dia do resto da tua vida
Hoje é o primeiro dia do resto da tua vida

E entretanto o tempo fez cinza da brasa
E outra maré cheia virá da maré vazia
Nasce um novo dia e no braço outra asa
Brinda-se aos amores com o vinho da casa
E vem-nos à memória uma frase batida
Hoje é o primeiro dia do resto da tua vida
Hoje é o primeiro dia do resto da tua vida
Sérgio Godinho, Pano-cru, 1978





COM UM BRILHOZINHO NOS OLHOS

Com um brilhozinho nos olhos
e a saia rodada
escancaraste a porta do bar
trazias o cabelo aos ombros
passeando de cá para lá
como as ondas do mar.
Conheço tão bem esses olhos
e nunca me enganam,
o que é que aconteceu, diz lá
é que hoje fiz um amigo
e coisa mais preciosa 
no mundo não há.

Com um brilhozinho nos olhos
metemos o carro
muito à frente, muito à frente dos bois
ou seja, fizemos promessas
trocamos retratos
trocamos projectos os dois
trocamos de roupa, trocamos de corpo,
trocamos de beijos, tão bom, é tão bom
e com um brilhozinho nos olhos
tocamos guitarra 
p'lo menos a julgar pelo som

E que é que foi que ele disse?
E que é que foi que ele disse?
Hoje soube-me a pouco. [x4]
passa aí mais um bocadinho
que estou quase a ficar louco
Hoje soube-me a tanto [x4]
portanto,
Hoje soube-me a pouco

Com um brilhozinho nos olhos
corremos os estores
pusemos a rádio no "on"
acendemos a já costumeira
velinha de igreja
pusemos no "off" o telefone
e olha, não dá p'ra contar
mas sei que tu sabes
daquilo que sabes que eu sei
e com um brilhozinho nos olhos
ficamos parados 
depois do que não te contei

Com um brilhozinho nos olhos
dissemos, sei lá
o que nos passou pela tola [o que nos passou pelo goto]
do estilo és o "number one"
dou-te vinte valores
és um treze no totobola [és o seis do meu totoloto]
e às duas por três
bebemos um copo
fizemos o quatro e pintámos o sete
e com um brilhozinho nos olhos
ficamos imóveis
a dar uma de "tête a tête"

E que é que foi que ele disse?
...

E com um brilhozinho nos olhos
tentamos saber
para lá do que muito se amou
quem éramos nós
quem queríamos ser
e quais as esperanças
que a vida roubou
e olhei-o de longe
e mirei-o de perto
que quem não vê caras
não vê corações
com um brilhozinho nos olhos
guardei um amigo
que é coisa que vale milhões.

E que é que foi que ele disse?
...
Sérgio Godinho, Canto da boca, 1981

Nota:
Uma aventura de paixão que faz nascer uma amizade contada em três mil caracteres corridos. É dos melhores exemplares de um exercício literário em que Godinho é mestre: revelar a poesia que se esconde nas frases feitas e em outros lugares comuns da língua. (João Pedro Oliveira, https://www.timeout.pt/lisboa/pt/musica/5-cancoes-de-sergio-godinho-que-merecem-ser-lidas, 2017-02-23).



terça-feira, 21 de fevereiro de 2017

Fernando Pessoa lido por Teresa Rita Lopes


Teresa Rita Lopes: ‘O Fernando Pessoa anda por aí todo deturpado’


Estuda a obra de Fernando Pessoa há meio século e já deu a volta aos 27 mil documentos do espólio por mais de uma vez. Teresa Rita Lopes, que acaba de publicar Livro(s) do Desassossego, fala sobre a sua relação com o poeta e sobre ‘o vandalismo’ da edição crítica.


Porque achou que era preciso mais uma edição do Livro do desassossego, quando já existem tantas?
A última foi uma edição crítica do Jerónimo Pizarro. Quando ele veio para Portugal, no início de 2000, foi meu aluno e do Fernando Cabral Martins, de maneira que acho que lhe pegámos esse interesse pelo Pessoa. Não ficou no meu grupo por razões que não vêm ao caso, e foi trabalhar para o grupo do atual orientador da edição crítica, que se chama Ivo Castro. Sabe disso, não sabe?
Não.
Quando fez 50 anos da morte do Pessoa, em 1985, o António Alçada Batista, que foi um grande obreiro da cultura, constituiu uma comissão para os festejos. E essa comissão decidiu que íamos fazer uma edição crítica do Pessoa, porque até aí cada um fazia as edições a seu bel-prazer. O Alçada Batista convidou-me, mas eu disse: ‘Não entro para esse convento’.
Porquê?
Porque não sou filóloga e aborrecem-me aquelas edições críticas, que são muito chatas, com muitas notas de rodapé. Gosto de fazer edições muito mais depuradas e que deem prazer ler. E foi então designado esse senhor, Ivo Castro, que é filólogo e professor na Universidade de Letras. Só que o homem é medievalista, de Pessoa não percebe patavina, e escreveu um livro em que diz que para se fazer uma edição crítica de Pessoa é preciso não perceber nada de Pessoa.
Para ter distanciamento?
Para ter uma objetividade científica. O que é um perfeito disparate, porque esse método só poderia ser aplicado a textos publicados em vida pelo autor. Antes do Ivo Castro, foi designada para fazer isso uma senhora italiana especialista em Literatura Portuguesa chamada Luciana Stegagno Picchio. E ela dizia-me: ‘Ó Terresa, vamos fazer isso’ [com sotaque italiano]. ‘Mas vamos fazer isso como?’. ‘Meto no computor’ [risos]. Nessa altura eu já tinha estado no espólio e sabia que aquilo é tremendamente difícil.
De decifrar?
Em 1990 publiquei dois calhamaços chamados Pessoa por Conhecer. É que toda a gente fala do Pessoa como se o conhecesse. Estava à procura desse livro para lhe mostrar. Então leia lá este manuscrito do Álvaro de Campos.
‘A alma humana é porca como…’
[Ri-se] Leia por cima que é mais fácil.
‘Um cu’.
O Pessoa faz isto: quando escolhe mesmo, risca o que está na linha corrida. Mas a maior parte das vezes não risca, e põe uma variante em cima, ao lado ou entre parêntesis. As edições críticas tratam da mesma forma a emenda e a variante. Aqui não faz diferença porque o que estava na linha corrida era ‘como um ânus’ e assim até fica mais forte. Agora leia o resto.
‘E a vantagem dos…’.
É o que está a pensar.
‘A vantagem dos cara****”?!
É isso mesmo. Uma das coisas que divertiu muito as pessoas é que na primeira edição crítica eles leram ‘canalhas’ porque acharam que o Pessoa não podia ter escrito um palavrão. Mas neste caso é mais pela curiosidade. No Alberto Caeiro é mais evidente. Eles assassinaram o Alberto Caeiro, com esse processo de confundir a variante com a emenda. Fazem as escolhas que o Pessoa não fez.
Assassinaram? Mas o que lá está não deixa de ser Pessoa…
Quando fazem uma edição crítica e dão notícia das variantes, tudo bem. Agora as edições que o Ivo Castro coordenou para o Expresso já não dão notícia da variante, portanto o texto fica perfeitamente definitivo, e é aquilo que os meninos vão levar para a escola e que os tradutores vão usar.  O Pessoa ainda anda por aí todo deturpado e deformado e é por isso que estou com um espírito de missão de o salvar do vandalismo da edição crítica.
Porque começou a fazer edições do Pessoa se dizia que não queria entrar para esse convento?
Em 1990, o David Mourão Ferreira, que eu estimava muito, chamou-me: ‘Teresa Rita, tem de fazer a crítica a este livro, ao Álvaro de Campos’. E eu disse-lhe: ‘Nem pense, tinha de ir a todos os originais e demorava dois anos.’ Só que ele era um homem inteligentíssimo e percebeu como havia de me convencer. ‘Se a Teresa Rita não fizer ninguém faz, e tem a obrigação cívica de o fazer’. Perante isso, rendi-me. Levei dois anos. Nessa altura era mais difícil porque tínhamos de ir para a Biblioteca Nacional, manusear aqueles papelinhos todos. E saiu uma edição minha do Álvaro de Campos, contestando a do Ivo Castro.
Pode falar-me sobre a sua experiência de lidar com os originais?
Antes de morrer, o Pessoa começou a arrumar os seus livros. Fez maços e esses maços estão hoje na Biblioteca Nacional como foram achados em casa dele. Quando foram arrolados na BN eles respeitaram isso. Agora o nosso trabalho de investigadores está muito facilitado. Já não precisamos de ir consultar os originais na Biblioteca Nacional porque muitos de nós temos um disco externo.
Com tudo digitalizado?
Sim, a senhora da BN deu isso aos investigadores. Depois os investigadores passaram aos seus discípulos – foi o meu caso. Hoje em dia todos os que trabalham em Pessoa têm isso. Às vezes é mesmo necessário ver o original, mas no computador a gente pode ampliar, de maneira que eu, de cada vez que faço um livro destes, volto sempre a ver os originais. Já dei a volta aos 27 mil e tal documentos mais de uma vez – estou muito distraída a ver aquilo. Ainda ontem tive o prazer de descobrir dois novos poemas do Ricardo Reis que estão metidos no meio de outras coisas. Às vezes ele escrevia até no rol da roupa suja, aproveitava todos os papelinhos, e nós temos que ver cada papelinho como um detetive, à lupa.
A caligrafia muda consoante o heterónimo que está a escrever?
É verdade que sim, porque ele faz questão de se despersonalizar. Isto tem qualquer coisa de espírita.
Como se o médium encarnasse o espírito da pessoa?
Ele fazia escrita mediúnica, escrita automática, a ver se os espíritos se manifestavam através dele. Veja aqui, isto é a assinatura dum espírito. Ele fez este poema e depois o espírito disse-lhe: ‘No good’ – não presta. Ele estava sempre nesse limiar entre acreditar e brincar com isso. Olhe este aqui: ele faz este poema e no fim assina ‘Vardur [um dos espíritos] + Pessoa’. E depois o Vardur diz-lhe assim: ‘This poem is yours, my boy’.
Além do espiritismo e da astrologia, Pessoa interessava-se por outras áreas?
Ele era um extraordinário estudioso. Deve ter havido poucas pessoas tão cultas neste país como ele. Porque ele vivia para essa ânsia de saber. Lia, lia, lia – já desde miúdo que era assim – comprava todos os livros que conseguia, depois vendia-os para comprar outros. Interessava-se por tudo. Escreveu sobre sociologia. Sobre as ciências da psique – meu Deus, o que ele escreveu! As pessoas pensam que ele era só um poeta, mas não. Mais de metade dos textos do espólio continuam inéditos. Ainda há muitos livros de Pessoa que deverão ser feitos.
Porquê o interesse pela psicologia?
A avó paterna dele morreu louca e ele assistia aos acessos de loucura da avó em pequenino. Toda a vida ele se preocupa com o que chama ‘génio e loucura’. O Pizarro até reuniu esses textos – ele é um grande trabalhador, não digo mal do meu aluno. Só tenho pena que tenha seguido o método da edição crítica.
Pode falar-me da sua relação com o Pessoa, como o descobriu?
A minha relação com esse rapaz… Descobri o Pessoa aí pelos meus 13 anos no Liceu de Faro. Ia à Biblioteca do liceu e depois tinha um caderninho onde escrevia os poemas de que gostava. O Álvaro de Campos é que me caiu no goto.
Mais tarde vai para França. A relação com Pessoa mantém-se?
Em Novembro de 63 a PIDE não sabia que eu tinha mudado de casa e foi-me prender à antiga casa. Entretanto fui avisada e raspei-me no dia seguinte no Sud Expresso. Em Paris nessa altura não se sabia quem era o Pessoa. O meu diretor de tese, um homem muito célebre na altura, quando eu lhe falei do Pessoa, disse: ‘Eu não conheço’. Hoje não há nenhum estudioso ou mesmo pessoa culta em França que se atreva a dizer que não sabe quem é o Pessoa.
Ainda assim podia estudar bem Pessoa a partir de Paris?
Comecei a vir a Portugal em 1969, depois de o Salazar cair da cadeira. E a primeira coisa que eu fiz foi ir para o baú, em 69. E de 69 a 75 mexi no espólio diretamente.
Recorda-se da primeira vez que foi ao baú?
Para consultar o que estava na casa da irmã tinha de ter uma autorização e fui ao ministério para a pedir. O senhor que lá estava não ma deu e eu estava a ver aquilo muito mal parado. O Veiga Simão, quando soube do que se tratava, mandou-me chamar e disse que sim. Comprei uma máquina de fotocópias muito complicada e comecei a ir para a casa da irmã, que me recebia muito bem.
Era a única pessoa lá?
Na altura aquilo estava a ser arrolado por umas senhoras da BN que nem sei donde vinham, mas tiveram um excelente papel, porque numeraram aquilo tudo. Aqui há tempos fiz para o SOL um texto sobre a segunda arca do Pessoa. Na altura descobriu-se que a família tinha ficado com dois mil e tal documentos que não vendeu à BN e que estava a vender em leilões. Isso é grave porque refazer a obra do Pessoa não é como refazer um puzzle. É refazer vários puzzles. Quando faltam peças é uma chatice.
É quase como uma escavação arqueológica?
Refazer a obra do Pessoa exige de nós gosto e o talento para a arqueologia, porque é reunir as pedras dispersas daqui e dali. As senhoras da BN davam-me os envelopes, e eu ficava ao pé delas a ver aquilo tudo, a fotocopiar e a assistir às conversas. O Pessoa, prevendo que ia morrer, deixou aquilo arrumado. Só que a irmã era uma senhora muito simpática e deixava toda a gente mexericar naquilo. Quando as arroladoras lá chegaram, aquilo já estava tudo misturado. Elas pegavam num papel, uma lia alto e a outra dizia assim: ‘O homem era mesmo maluco’.
A irmã partilhou memórias consigo?
A irmã disse-me uma coisa de que já desconfiava: que o Pessoa era extremamente pudico da sua obra e da sua vida particular. Falava pouco de si. A irmã dizia-me: ‘Ai, nós não fazíamos a mínima ideia de que o Fernando viesse a ser tão importante’. [risos] Eles não davam nada por ele.
Pessoa trabalhou até morrer?
Sim. O que vem na certidão de óbito é que morreu com uma cólica hepática. Agora estão a fazer diagnósticos depois de morto – em que eu não acredito muito – um médico até escreveu um livro sobre isso.
Temos dados suficientes para reconstituir um dia na vida dele?
Mais ou menos. Ele viveu toda a vida com apertos de dinheiro, apesar de ter recebido cinco contos de réis do prémio da Mensagem. Tinha de ganhar o pão com o suor do rosto. Simplesmente exigia não ter horários fixos. Era a sua liberdade. Como era muito conceituado pelos patrões – escrevia cartas comerciais em francês e inglês – além do mais tinha feito um curso comercial no último ano em que esteve em Durban, 1904.
Era um bom funcionário?
Os patrões prezavam-no imenso, davam-lhe muito valor. Mas ele queria ganhar à peça, não ganhava ao mês nem à semana, para ter a liberdade de ir lá quando lhe apetecia. Passava pelos escritórios – tinha mais do que um – para fazer as cartas que deixavam para ele. Mas tinha crises do que ele chamava neurastenia – uma vez escreveu a um amigo: ‘Tive uma crise de neurastenia que me atou o cérebro’ – havia períodos em que não podia trabalhar. Ele foi um homem muito infeliz, de certa maneira.
Mas também deve ter tido momentos de grande exaltação criativa e satisfação.
A gente percebe pelos manuscritos que ele escrevia num frenesi, numa exaltação. A sua mão não acompanhava a vertigem do seu pensamento. Devia ser aquilo que chamam um ciclotímico [alguém que alterna períodos de euforia com períodos de depressão].
Como é que consegue isto nas horas livres? Roubava ao sono?
Ele normalmente ia à tarde. Provavelmente escrevia à noite. E tinha insónias. Por isso é que não durou muito tempo. Além do mais curtia as suas bebedeiras.
Em casa?
Em casa. Aliás ninguém o via bêbedo. Conheciam-no por isso. Às vezes levantava-se do escritório e ia beber um bagaço durante as horas de trabalho. Mas isso deixava-o imperturbável.
José Cabrita Saraiva, jornal SOL, 2016-02-17




Livro(s) do Desassossego
SINOPSE
É o livro da vida de Fernando Pessoa, finalmente editado como o autor queria, respeitando todos os semi-heterónimos que fazem parte dele, devidamente assinados - Vicente Guedes, Barão de Teive e Bernardo Soares. Vale explicar que a expressão "semi-heterónimo"é do próprio Pessoa, que considerava como heterónimos apenas três: Alberto Caeiro, Álvaro de Campos e Ricardo Reis. Ainda assim, são vozes muito próprias, que partem de biografias inventadas como personagens de teatro. Não estarem misturados ou até preteridos como em publicações passadas é a grande novidade dessa edição, preparada por uma das mais respeitadas especialistas na obra de Fernando Pessoa, Teresa Rita Lopes. Por isso a sugestão do plural do nome: Livro(s) do Desassossego. Assim como o autor foi vários, o livro também é. A primeira parte é O livro de Vicente Guedes. Os textos nessa época ainda são muito influenciados pela corrente literária simbolista. A segunda parte, O livro do Barão de Teive, já assume um tom mais seco, de um personagem que definiu por si o fim da própria vida. A terceira parte, O livro de Bernardo Soares, é notoriamente parte do que conhecemos como Modernismo. Todos têm introduções que iluminam suas leituras, escritas por Teresa Rita Lopes, em linguagem descomplicada, ainda que contendo profundo conhecimento de causa. Ler essa obra é como espiar as décadas de dedicação aos textos, tanto da parte de Fernando Pessoa quanto dos pesquisadores de seu espólio. Teresa Rita Lopes conta que frequentemente a caligrafia do poeta é indecifrável. Somente a convivência com as leituras por anos e anos de seus poemas, muitos deles escritos à mão, ou mesmo datilografados e corrigidos à mão, é que torna possível a publicação.

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