sábado, 30 de janeiro de 2016

NOITE NA REPARTIÇÃO




O OFICIAL ADMINISTRATIVO:
Papel,
respiro-te na noite de meu quarto,
no sabão que passas a meu corpo, na água te bebo.
Até quando, sim, até quando.
te provarei por única ambrosia?
Eu te amo e tu me destróis,
abraço-te e me rasgas, beijo-te, amo-te, detesto-te, presciso de ti, papel, papel, papel!
Ingrato, lês em mim sem me decifrares.
O corpo de meu filho estava amortalhado em
papel,
em papel dormiam as roupas e brinquedos, em papel os doces
do casamento.Em grandes pastas os rios, os caminhos
se deixam viajar, e a diligência roda
num chão fofo, azul e branco de papel escrito.
Basta!
Quero carne, frutas, vida acessa,
quero rolar em fêmeas, ir ao mercado, ao Araguaia, ao amor.
Quero pegar em mão de gente, ver corpo de gente
falar língua de gente, obliviar os códigos,
quero matar o DASP, quero incinerar os arquivos de amianto.
Sou só um homem, ou pelo menos quero ser um deles!

O PAPEL:
Tu te queixas...
Distrais-te na queixa e na mágoa que exalas
é perfume que te unge, flor que te acarinha.
Dissolves-te na queixa, e tornando incenso, halo, paz
te sentes bem feliz enquanto eu sem consolo
espero tua brutalidade
sem a qual não vivo nem sou.
Teu escravo, isto sim, tua coisa calada,
teu servo branco, tapete onde passeias e compões.
Tu me fazes sofrer, bicho implacável mais que a onça
o é para o galho que pisa.
Por que não sou sem ti? Por que não existo, como as árvores, por conta própria?
Sou apenas papel, e teu misterioso poder
me oprime e suja.
E te revoltas...
Quisera dizer-te nomes feios independente de tua mão.
Que as palavras brotassem em mim, formigas no tronco,
moscas no ar; viessem para fora em caracteres ésperos,
crescessem, casas e exércitos, e te esmagassem.
Homenzinho porco, vilão amarelo e cardíaco!

(Avança para o burocrata, que se protege atrás da porta.)

A PORTA:
De tanto abrir e fechar perdi a vergonha.
Estou exausta, cética, arruinada.
Discussões não adiantam, porta é porta.
Perdi também a fé, e por economia
irão, quem sabe, me tranformar em janela
de onde a virgem
enfrenta a noite
e suspira.
Seu aí de dentifrício americano cortará o céu
e me salvará.
Talvez me tornem ainda gaveta de segredos,
bolsa, calça de mulher, carteira de identidade,
simples alecrim, alga ou pedra.
Sim: é melhor pedra.
Dói nos outros, em si não.
Uma pedra no coração.

A ARANHA:
Chega!
Espero que não me queiras nascer um simples vaga-lume.
Fica quieta, me deixa subir
e fazer no teto um lustre, uma rosa.
Sou aranha-tatanha, preciso viver.
A vida é dura, os corvos não esperam,
ouço os sinos da noite, vejo os funerais,
me sinto viúva, regresso à Ingalterra, 
a aranha é o mais triste dos seres vivos.

O OFICIAL ADMINISTRATIVO:
Depois de mim, é óbvio.
Sou o número um - o triste dos tristíssimos.
A outros o privilégio
de embriagar-se. Non possumus.

A GARRAFA DE UÍSQUE:
Não pode?

O GARRAFÃO DE CACHAÇA:
Não pode por quê?

O COQUETEL:
Experimenta. Sou doce. Sou seco.

TODOS OS ÁLCOOIS:
-Me prova! me prova!
É a festa do rei!
É de graça! de graça!
Me bebe! me bebe!

O OFICIAL ADMINISTRATIVO:
Mas não sei beber. Nunca aprendi.

O PAPEL:
Ele não sabe que o artigo 14
faculta pileques de gim e conhaque;
mal sabe ele que o artigo 18
autoriza porres até de absinto;
como ignora que o artigo 40
manda beber fogo, querosene, fel;
que por motivo de força maior
cobre derretido se pode sorver;
se pode chegar ébrio na repartição,
se pode insultar o ícone na parede,
encher de vermute o tinteiro pálido,
ensopar em genebra velhos decretos
nos casos tais e em certas condições...
Ele não sabe.

A TRAÇA:
Que burro.

OS ÁLCOOIS:
Sua alma sua palma
seu tédio seu epicédio
sua fraqueza sua condenação.
Somos o cristal, o mito, a estrela,
em nós o mundo recomeça,
as contradições beijam-se a boca,
o espesso conduz ao sutil.
Somos a essência, logos, o poema.
Brandy anisette kümmel nuvens-azuis
cascata de palavras...

A ARANHA:
Não me interessa.

O OFICIAL ADMINISTRATIVO:
Para beber é preciso amar.
Sinto-me tarde para aprender

O PAPEL:
Ele não sabe que a paixão amor
segundo reza o artigo 90...

A TRAÇA:
É uma zebra.

O TELEFONE:
Amor?
Através de mim os corpos se amam,
alguns se falam em silêncio
outros chamam e não agüentam
o peso e o amargor da voz
Inventaram-me para negócios,
casos de doença e talvez de guerra.
Mas fui derivando para o amor.
Como sofro! Todas as dores
escorrem pelo bocal,
deixam apenas saliva...
Cuspo de amor fingindo lágrimas.

A TRAÇA:
Namorar na hora do expediente!

O OFICIAL ADMINISTRATIVO:
Não resolve. Nada resolve.
O mesmo revólver resolverá?
Amor e morte são certidões,
fichas...

A TRAÇA:
Despachos interlocutórios.

A ARANHA:
Lavrados na minha teia.

A VASSOURA ELÉTRICA:
Senhores depultados, desculpem. Sinto que é hora de varrer.

(Põe-se a varrer furiosamente, a porta cai com um gemido, as garrafas partem-se, escorrem líquidos de oitenta cores. O oficial administrativo tira os processos da mesa da direita, jogando fora o de cima e colocando os demais na mesa da esquerda. Em seguida, retira-os desta última e volta a depositá-los na mesas da direita, sempre atirando fora o último volume que estiver por cima. E assim infinitamente. Do garrafão de cachaça desprende-se uma pomba, e paira no meio da sala, banhada em luz macia.) 

A POMBA:
Papel, homem, bichos, coisas, calai-vos.
Trago uma palavra quase de amor, palavra de perdão.
Quero que vos junteis e compreendais a vida.
Por que sofrerás sempre, homem, pelo papel que adoras?
A carta, o ofício, o telegrama têm suas secretas consolações.
Confissões difíceis pedem folha branca.
Não grites, não suspires, não te mates: escreve.
Escreve romances, relatórios, cartas de suicídio, exposições de motivos,
mas escreve. Não te rendas ao teu inimigo. Escreve memórias, faturas.
E por que desprezas o homem, papel, se ele te fecunda com dedos sujos mas dolorosos?
Pensa na doçura das palavras. pensa na dureza das palavras.
Pensa no mundo das palavras. Que febre te comunicam. Que riqueza.
Mancha de tinta ou gordura, em todo caso mancha de vida.
Passar os dedos no rosto branco... não, na superfície branca.
Certos papéis são sensíveis, certos livros me possuem.
Mas só o homem te compreende. Acostuma-te, beija-o
Porta decaída, ergue-te, serve aos que passam.
Teu destino é o arco, são as bençãos e consolações para todos.
Pequena aranha pessimista, sei que também tens direito ao idílio.
Vassoura, traça, regressai ao vosso comportamento essencial.
Telefone, já és poesia.
Preto e patético, fica entre as coisas.
Que cada coisa seja uma coisa bela.

O PAPEL, A VASSOURA, OS PROCESSOS, A PORTA, OS CACOS DE GARRAFA, surpresos:
Uma coisa bela?...

A POMBA, no auge do entusiasmo, tornando-se de branca, rosada:
UMA COISA BELA! UMA COISA JUSTA!

A TRAÇA:
Precisarei adaptar-me...
Só roerei belas caligráfias.

CORO EM TORNO DO OFICIAL ADMINISTRATIVO:
Uma coisa bela. Uma coisa justa.

O oficial administrativo soergue o busto, suas vestes cinzentas tombam, aparece de branco, luminoso, ganha subitamente a condição humana:

Uma coisa bela?!...

Carlos Drummond de Andrade, A Rosa do Povo


sexta-feira, 29 de janeiro de 2016

Psicanálise: um século de atraso

Por Mario Bunge
Publicado no Cien Ideas
A psicanálise nasceu à luz do ano 1900, com a publicação de A Interpretação dos Sonhos, de Sigmund Freud. Ernest Jones, seu fiel discípulo e principal biógrafo inglês, nos conta que este livro, que Freud sempre considerou sua obra-prima, foi reeditada oito vezes em sua vida. Ele afirma que “não houve nenhuma mudança fundamental, nem havia qualquer necessidade para fazê-la”.
Tal imutabilidade é suficiente para levantar a suspeita de qualquer mente crítica. Por que não foi necessário modificar nada essencial em uma doutrina psicológica no decurso de três décadas? Será que é porque não houve investigação psicanalítica dos sonhos? Ou porque o primeiro laboratório de estudos científicos dos sonhos foi fundado apenas em 1963, na Universidade de Stanford, e sem a participação de psicanalistas? E se assim for, será que a psicanálise não seria mais literatura fantástica do que ciência?
Este não é o lugar adequado para fazer uma investigação detalhada da teoria e nem da terapia freudiana: esta tarefa já foi feita por dezenas de psicólogos e psiquiatras científicos, àqueles que não pregam em templos psicanalíticos que são certas faculdades de psicologia latino-americanas. Vou resumir apenas uma dúzia de resultados das análises de alguns dos mitos mais populares inventados por Freud. Aqui estão eles:
1. Inferioridade intelectual e moral da mulher, inveja do pênis, complexo de castração, orgasmo vaginal e normalidade do masoquismo feminino.
Puros contos. Não há dados clínicos e nem experimentais que os apoiam. A única coisa que há são efeitos psicológicos da discriminação contra a mulher na sociedade atual.
Mas isto está desaparecendo a medida que, contrariamente ao notório machismo de Freud, reconhecemos a paridade dos sexos.
2. Todo sonho possui conteúdo sexual, já manifestado e latente.
Incomprovável, já que, se em um sonho não aparecer nada sexual, o analista “interpretará” algo no sonho como um símbolo sexual. Mas outro analista o “interpretará” de maneira diferente. Igual aos velhos almanaques dos sonhos, os psicanalistas não apresentam evidências de suas interpretações; mas, ao contrário deles, os psicanalistas não propõem regras explícitas que sirvam, por exemplo, para jogar em apostas.
3. Complexo de Édipo e de Electra, e repressão dos mesmos.
Não há dados confiáveis, nem clínicos e antropológicos, que indiquem a existência de tais complexos. Enquanto que a hipótese de repressão apenas serve para proteger a hipótese anterior: quanto mais enfaticamente negar ódio ao meu pai, mais forte estarei confirmando o ódio. Isto é como dizer que o campo gravitacional é muito mais intenso quanto menos acelera os corpos em queda.
4. Todas as neuroses são causadas por frustrações sexuais, ou por episódios infantis relacionados com o sexo (p. ex., abuso sexual e ameaça de castração).
Pura fantasia. A frustração sexual causa stress, não neuroses (que, aliás, não foram bem definidas por Freud). Não foi provado que os abusos sexuais sofridos durante a infância deixam marcas mais profundas do que privações, espancamentos, humilhações ou orfandades. Tampouco é plausível que todo esquecimento resulte da censura por parte do fantasmagórico superego. Se esquece o que não se reforça. O que se provou é que a chamada técnica de “recuperação” (implantação) de memórias reprimidas foi um negócio lucrativo. Em qualquer caso, os transtornos psicológicos têm múltiplas fontes, e, portanto, múltiplos tratamentos possíveis. Algumas delas (p. ex., micção noturna e fobias) são tratadas com êxito a partir da terapia comportamental. Outras (p. ex., depressão e esquizofrenia) respondem às drogas. E outras mais (p. ex., violência patológica) podem necessitar de intervenção cirúrgica (na tireoide ou amídala cerebral).
5. A violência (guerra, greve, et cetera) é a válvula de escape para a repressão do instinto sexual.
Exceto em casos patológicos, tratáveis com neurocirurgia, a violência tem raízes sociais e culturais: pobreza, expansão econômica, fanatismo político ou religioso, et cetera. Por ter causas sociais, a violência coletiva tem remédios sociais. Por exemplo, a delinquência diminui com a ocupação.
6. Sexualidade infantil.
Mito. De fato, a sexualidade reside no cérebro, não em órgãos genitais. Sem o hipotálamo e os hormônios que este sintetiza (oxitocina e vasopressina) não haveria nenhum desejo ou prazer sexual. E o cérebro infantil não tem a maturidade fisiológica necessária para sentir prazer sexual. Para entender a sexualidade é necessário realizar investigações psiconeuroendocrinológicas e antropológicas, ao invés de fantasiar-se incontrolavelmente.
7. O tipo de personalidade é efeito do modo de aprendizagem do controle do esfíncter.
Falso. A investigação tem mostrado a inexistência desta correlação: as personalidades “oral” e “anal” são produtos das fantasias descontroladas de Freud. Existem muitos tipos de personalidade, e todas são produtos do genoma, do ambiente e do próprio esforço. Além disso, longe de ser inalterável, a personalidade pode ser transformada radicalmente por doenças cerebrais, acidentes vasculares cerebrais, drogas e reaprendizagem.
8. Os atos falhos (lapsos de linguagem) revelam desejos reprimidos.
Apenas em alguns casos, e que são poucos. A maioria das transposições de palavras são erros inocentes. Para provocá-las deliberadamente se armam de trava-línguas.
Além disso, alguns indivíduos são mais propensos do que outros a cometê-los.
9. O superego reprime todos os desejos e recordações vergonhosas que se armazenam no inconsciente. O analista descobre com o método de livre associação.
Os experimentos mais notáveis sobre o tema, incluindo da famosa pesquisadora Elizabeth Loftus (que não é psicanalista), não demonstraram a existência de repressão. E a experiência clínica mostra que não existe livre associação, uma vez que o analista transmite ao seu cliente as suas próprias hipóteses e expectativas. A medida que se aprende o jargão freudiano, o cliente “confirma” o que analista espera dele.
10. O ser humano é basicamente irracional: está dominado por seu inconsciente.
O inconsciente freudiano, como o diabo cartesiano, jogaria arbitrariamente com nossas vidas e por trás de nossa consciência. Esta visão pessimista da humanidade não se baseia e nem pode se basear em dados empíricos. O que não significa que alguns processos mentais escapam, de fato, da consciência. Mas Sócrates já argumentara sobre algumas das coisas que não estamos conscientes. E o tratado O Inconsciente, de Eduard von Hartmann, apareceu quando Freud tinha quatorze anos, e foi um best-seller em alemão e francês durante uma geração. (Eu o herdei de meu tio Carlos Octavio, que por sua vez pode ter herdado de seu pai.) Em qualquer caso, se é verdade que muitas vezes temos impulsos irracionais, também é verdade que, às vezes, conseguimos controlá-los. Por isso, construímos mecanismos de educação e controle social. E para isso, existem aqueles que fazem a verdadeira ciência ou técnica: para ascender do irracional para o racional.
Em resumo, as fantasias psicanalíticas são de duas classes: as incomprováveis e as comprováveis. As primeiras não são científicas. E as segundas são de duas classes: as que foram testadas e as que não foram investigadas cientificamente. Todas as fantasias do primeiro grupo foram falseadas. E, evidentemente, as do segundo grupo continuam no limbo.
O que resta de um século de psicanálise? Nada além de fantasia descontrolada. Os psicanalistas não fazem experimentos e nem usam estatísticas de seus tratamentos. Além disso, ignoram por princípio as descobertas da psicobiologia e da psiquiatria biológica. Sua psicologia é de cadeira e sofá, porque são prisioneiros do mito primitivo da alma imaterial que não pode ser captada por meios materiais, tais como a ressonância magnética funcional e outros métodos de visualização de processos mentais.
A psicanálise é a teoria das que não têm teorias científicas mentais ou culturais. E é um curandeirismo irresponsável que explora a credulidade. Como disse Sir Peter Medawar, Prêmio Nobel de Medicina, a psicanálise é “um estupendo embuste intelectual”. Nenhum outro embuste do século passado conseguiu deixar essa marca na cultura popular.
O êxito comercial da psicanálise se explica porque (a) não requer conhecimentos prévios; (b) não exige rigor conceitual ou empírico; (c) pretende explicar tudo com um punhado de princípios: desde neuroses a rebeldia adolescente à religião e guerra; (d) é um substituto da religião; (e) preenche lacunas deixadas até recentemente pela psicologia científica, em particular a sexualidade, as emoções e os sonhos; (f) se orgulha de curas inexistentes; e (g) segundo o próprio Freud, os psicanalistas fazem o favor as seus clientes em cobrar a consulta: não fazem trabalho social.
Mas o êxito comercial e a penetração da cultura de massas não são os mesmos do triunfo científico. Cem anos de fantasias psicanalíticas não produziram resultados equivalentes a uma semana de pesquisas no laboratório de neurociência cognitiva.
Além disso, hoje contamos com a psiconeuroendocrinoimunofarmacologia. Abreviemos para PNEIF. Esta sigla designa-se à ciência aplicada que busca fármacos que prometem reparar os transtornos do sistema neuroendocrinoinmune que se sentem como transtornos mentais, tais como a dor e o pânico, a confusão e a amnésia, a alucinação e a depressão.
O caso da PNEIF é um dos poucos onde se conhece a data exata do nascimento de uma ciência: 1955. Naquele ano, foi descoberto o primeiro fármaco neuroléptico para o tratamento de uma doença mental: a depressão. Antes se conheciam apenas estimulantes, tais como a cafeína, a benzedrina e a cocaína; analgésicos, tais como o ópio; e drogas que, como o álcool e o tabaco, a princípio estimulam e, em seguida, inibem.
A ciência básica correspondente é a psiconeuroendocrinoimunologia, ou PNEI, uma fusão de quatro disciplinas que antes estavam apenas relacionadas. Não foi só no curso das últimas décadas que alertaram que as fronteiras entre distintas ciências do cérebro são em grande parte artificiais, porque cada uma delas estuda uma parte ou aspecto de um único supersistema.
Por exemplo, foi descoberto que o órgão da emoção (o sistema límbico) detém, por vezes, e outras dificulta, as atividades do órgão de conhecimento (o córtex cerebral). Sem motivação, não há aprendizagem; por sua vez, o motivo pode ser emocional, tal como o desejo de agradar ou incomodar alguém. E se a emoção for muito forte, como é o caso do pânico, o raciocínio falha.
Tudo isso tem sido conhecido desde que os seres humanos começar a se interessar por seus processos mentais. O que não sabiam antes é que estes processos são muito bem localizados no cérebro. Por exemplo, um ser humano que tem uma grave lesão no córtex pré-frontal (atrás dos olhos) tem o julgamento moral comprometido. Este é o caso, felizmente muito raro, dos psicopatas.
A PNEIF está na moda porque está abordando e resolvendo uma pilha de enigmas da vida mental, e porque seu uso médico promete curar ou pelo menos aliviar a angústia dos doentes mentais e acabar com o psicoembuste e a psicocurandeiria.
Por exemplo, com uma pílula diária fomos capazes de controlar um esquizofrênico que, por sua vez, deixou sem trabalho tanto bruxo que afirmava que este era é um caso de possessão demoníaca, assim como o psicoterapeuta que assegura que o transtorno é o resultado de um episódio na infância, e que acredita tratar de seu paciente com meras palavras.
A PNEIF é a versão mais recente, rigorosa e eficaz da medicina psicossomática. A psicanálise está tão atrás como o curandeirismo, exceto como superstição popular e como um negócio rentável.
Para comprovar o que eu disse basta perguntar a um farmacêutico que pílulas são prescritas com algum êxito para tratar angústias, obsessões, depressões, esquizofrenias e outros transtornos mentais. E quem quiser saber que fundamento tem tais receitas, deverá consultar as revistas científicas que lidam com a mente e seus distúrbios, assim como as semanais científicas gerais Nature e Science.
Estas publicações estão cheias de novos resultados sobre a psique. Nenhuma delas aceita embustes psicanalíticos. Os psicanalistas usam apenas revistas psicanalíticas: constituem uma seita marginal em relação à comunidade científica. Sua alquimia não transmuta a ignorância em conhecimento, mas transforma mito em ouro.
A popularidade da psicanálise entre os escritores pós-modernos é, em parte, porque não exige conhecimento científico. E, em parte, também porque os pós-modernos, como os filósofos hermenêuticos e os praticantes das “ciências” ocultas, suspeitam que tudo é símbolo de alguma outra coisa. No entanto, até Freud admitiu que, às vezes, um charuto é um charuto.
http://www.universoracionalista.org/psicanalise-um-seculo-de-atraso/
2015-09-22

domingo, 24 de janeiro de 2016

CE N'EST PAS MOI QUI CHANTE











Ce n'est pas moi qui chante
C'est les fleurs que j'ai vues
Ce n'est pas moi qui rit
C'est le vin que j'ai bu
Ce n'est pas moi qui pleure
C'est mon amour perdu

Jacques Prévert, Paroles, 1946
Música: Serge Reggiani
















Poèmes et chansons de Jacques Prévert. Desenho de Serge Bloch, 2015