quinta-feira, 15 de dezembro de 2016

GROTTA #1

José Maria de Aguiar Carreiro. Revista GROTTA n.º 1. Publiçor/Letras Lavadas Edições, 2016

Chaminé de “mãos postas” e cimo de uma empena de casa de habitação, ilha da Graciosa, séc. 20
http://www.inventario.iacultura.pt/graciosa/santacruz-fichas/41_43_43.html

TRINCAR A TERRA

Não me são estranhos estes lugares
as empenas brancas
as chaminés de mãos postas
e uma gaivota bem junto aos olhos.
Não me é estranho este basalto
o arranjo dos minerais
o paladar da terra
um mundo inteiro volvendo às mãos
as minhas mãos assassinas.

Caeiro, remove a miopia do meu olhar
diz em tua voz a vontade das maçãs golpeando os olhos
diz esse alerta sobre a fruteira
o pão verde
o homem hábil
diz
olha a água e a carne na tua cabeça
o pano cru roendo
o empedrado da rua.

Acorda-me, David Copperfield.

José Maria de Aguiar Carreiro
Revista GROTTA n.º 1. Publiçor/Letras Lavadas Edições, 2016






PIROTECNIA

O mundo é nosso, dizes. E eu acredito
um pouco. Acredito que é possível acreditar.
Nesse mundo pilotaria aeronaves, por certo,
desdenharia reinados em sua barbárie ancestral,
faria muita exaltação nas gáveas e nos balões.
Compra-me um lápis, meu amigo, compra-me
um lápis chilreante que eu cantarei de melro.
O mundo corre assim, dizes, rindo brejeiramente,
abrindo o piloro com uísque e rum com Coca-Cola.
Corre assim, pois é. O mundo é uma bosta.
O que eu vejo. Um enorme prato empoeirado,
um rolamento. Oh meu bem, nossos olhos rebimbam
e fazem rataplã. Retroam em torno da voz.
Alteram-se nos tempos as baladas como gritos próprios de animal.
Vou sentar-me um dia inteiro a ver televisão,
a comer bolos. Engordar. Angustiar-me.
Que fizeste, senhor, que te não entenda
tenho os alimentos a estragar-se no frigorífico
tenho os espíritos um pouco inquietos
não sei sequer se tenho algum sentimento visceral. Um ódio.

José Maria de Aguiar Carreiro
Revista GROTTA n.º 1. Publiçor/Letras Lavadas Edições, 2016


Michelangelo:

NADA

A mulher do ferreiro aguarda um sinal
demorado nas antecâmaras da morte.
Quem visita e quem é visitado?
Ecos, perceções vagas reificam a estação
enquanto o corpo, desgarrado,
mudável carne entregada,
vai cortando os laços com que se demora.

Qualquer compreensão antes descrita ter-se-á apagado,
não mais diremos: agora é, agora está em substância.
Que a última luz com o ser no vago cosmos
parece ter-se dispersado. Ou fechado.
O agora é nosso, não dele, que sentimos o corpo
caído em nossas mãos. E questionamos
se sentirá o ferreiro ainda o que o prendia a nós
se estará em contínua atividade, como uma chama
ou se saberá do mais que há para além do espaço por onde vagueia.
Então concluímos que nada há a que chamar eu.

A mulher do ferreiro mexe-se no seu desconforto.
Que o marido não está, embora ela o pressinta.
Ela mexe-se imaginando os dias idos.
A mulher do ferreiro joga a vida com a morte,
tacteia, louca, partes do marido,
quando ressonâncias se misturam com alucinações,
bocados dele com partes desintegradas de si,
mulher e esposa dedicada. Louca.
Por fim concluirá: nada há a que chamar meu.

José Maria de Aguiar Carreiro
Revista GROTTA n.º 1. Publiçor/Letras Lavadas Edições, 2016




Grota remete para as ribeiras e as entranhas das ilhas açorianas, onde se funda este gesto. “É a fonte, o início, o começo de algo líquido, mas intempestivo – que tudo arrasta vertentes abaixo”. As palavras, certeiras, são do vulcanólogo Victor-Hugo Forjaz. As grotas são como que misteriosas artérias, de beleza e perigos. Nomeá-las é falar dos Açores. Foi por isso que demos este nome à revista.

Grotta n.º 1, Ponta Delgada, Publiçor/Letras Lavadas Edições, novembro de 2016. Direção de Nuno Costa Santos, coordenação editorial de Diogo Ourique, design gráfico de Jaime Serra.


O reconhecido vulcanólogo Victor Hugo Forjaz assina o texto de apresentação da revista de criação literária «grotta», dirigida por Nuno Costa Santos e propriedade de Publiçor/Letras Lavadas Edições. E tudo bate certo! 
 Afinal, a missão de um vulcanólogo também é dar nome às coisas, olhar o geo-mundo e as suas manifestações e colar-lhes o nome que as singulariza e identifica perante nós (no campo social, uma actividade aproximada talvez consista em «chamar os bois pelo nome», embora com nuances que não cabe aqui deslindar). Além disso, a literatura parte da linguagem e é de palavras que se ocupa Victor Hugo Forjaz, «vulcanólogo no exílio», como se auto-designa. Mais precisamente, da palavra grota, nome atribuído a ribeira, quando esta, a partir de determinada altitude, se transforma num «rego longo, fundo ou muito fundo, abrupto, tenebroso (…) longo e perigoso de saltar.» – nome dado pelos povoadores que, neste campo, também foram rotuladores, por necessidade de organizar o mundo para que eram atirados. 
Ostentando uma grafia arcaizante que reenvia simultaneamente a um tempo originário e à língua italiana, grotta parece assinalar desde logo a sua vinculação a um espaço físico, mas sobretudo cultural (veja-se a inscrição subtitular «arquipélago de escritores»), sem se conter exclusivamente nele, abrindo caminho para outras geografias, concretizadas, neste caso, pelo dossiê de poesia irlandesa. A diversidade é, de qualquer modo, uma das marcas deste número 1, tanto a nível de colaboradores, como de géneros e discursos. 
Um breve exercício de memória, e apenas referente a revistas de criação literária nos Açores, levar-nos-á a «transeatlântico» (Companhia das Ilhas, direcção também de Nuno Costa Santos) e, mais atrás ainda, a «Magma» (dirigida por Carlos Alberto Machado a partir do Pico) e a «Neo» (uma iniciativa de John Starkey, enquadrada no antigo Departamento de Línguas e Literaturas Modernas da Universidade dos Açores). Ou seja, há aqui uma persistência em criar espaços de expressão literária abertos a gerações diversas e a abordagens heterogéneas, e em que diferentes culturas e proveniências linguísticas encontraram local de acolhimento no meio do Atlântico norte. E o levantamento não inclui o suplementarismo literário que desde os anos 90 recuperou a dinâmica de décadas anteriores, superando-a mesmo nalguns aspectos, muito por esforço e obra de Vamberto Freitas. 
Por mera coincidência temporal, encontrava-me ainda a ler este número de «grotta», quando me chegou o mais recente livro de ensaios de João Barrento, «A Chama e as Cinzas». O último capítulo ocupa-se precisamente da situação da literatura «em tempos de indigência» (uma expressão que remonta a Hölderlin), a sua in-significação, a sua diluição na configuração global do mundo, num quadro cujas causas hão-de encontrar-se, segundo o autor, numa «existência sem memória» e ainda na «predominância dos paradigmas economicistas, pragmáticos e vivenciais.», que afastaram do mundo social e cultural «o simbólico e a letra»; ora, um caminho para combater este estado de coisas passa «pela insistência e persistência na manutenção de espaços, nichos institucionais ou não institucionais». Neste sentido, «grotta» resulta de mais um gesto de teimosia e constitui, à sua maneira, um nicho de valorização da palavra e da sua natureza simbólica, um espaço de manutenção da memória e da sua projecção num tempo que sendo o nosso pode ser também o futuro. Nicho ou ilha, para melhor contextualizarmos a metáfora. Mas as ilhas movem-se, também elas. E nem sempre se deixam ir na corrente.
Urbano Bettencourt, suplemento Artes & Letras, Açoriano Oriental, 2016-12-25.


    

segunda-feira, 12 de dezembro de 2016

El Bosco


O Jardim das Delícias Terrenas, tríptico de Hieronymus Bosch
   Vídeo do grupo musical Bosco em homenagem ao pintor Hieronymus Bosch. O poema de Rafael Alberti "El Bosco" sobre os detalhes de "O Jardim das Delícias" que inspiraram o poeta. Duas obras primas de dois grandes artistas, frente a frente (09/09/2016):





A ti, fingida realidad del sueño.
A ti, materia plástica palpable.
A ti, mano, pintor de la Pintura
Rafael Alberti




El Diablo hocicudo,
ojipelambrudo,
cornicapricudo,
perniculimbrudo
y rabudo,
zorrea,
pajarea,
mosquiconejea,
humea,
ventea,
peditrompetea
por un embudo.

Amar y danzar,
beber y saltar,
cantar y reír,
oler y tocar,
comer, fornicar,
dormir y dormir,
llorar y llorar.
Mandroque, mandroque,
diablo palitroque,

¡Pío, pío, pío!
Cabalgo y me río,
me monto en un gallo
y en un puercoespín,
en burro, en caballo,
en camello, en oso,
en rana, en raposo
y en un cornetín.
Verijo, verijo,
diablo garavijo.

¡Amor hortelano,
desnudo, oh verano!
Jardín del Amor.
En un pie el manzano
y en cuatro la flor.
(Y sus amadores,
céfiros y flores
y aves por el ano.)
Virojo, pirojo,
diablo trampantojo.

El diablo liebre,
tiebre,
notiebre,
sepilipitiebre,
y su comitiva
chiva,
estiva,
sipilipitriva,
cala,
empala,
desala,
traspala,
apuñala
con su lavativa.

Barrigas, narices,
lagartos, lombrices,
delfines volantes,
orejas rodantes,
ojos boquiabiertos,
escobas perdidas,
barcas aturdidas,
vómitos, heridas,
muertos.
Predica, predica,
diablo pilindrica.

Saltan escaleras,
corren tapaderas,
revientan calderas.
En los orinales
letales, mortales,
los más infernales
pingajos, zancajos,
tristes espantajos
finales.
Guadaña, guadaña,
diablo telaraña.

El beleño,
el sueño,
el impuro,
oscuro,
seguro
botín,
el llanto,
el espanto
y el diente
crujiente
sin
fin.
Pintor en desvelo:
tu paleta vuela al cielo,
y en un cuerno,
tu pincel baja al infierno.

Rafael Alberti Merello (1902-1999)


   
Guillermo de Torre llama 'onomapinturas' (1970, 732) a estos recursos neologísticos graciosos y grotescos, es decir, onomatopeyas que no tienen por objeto imitar sonidos de la naturaleza sino evocar particularidades pictóricas, traduciendo adecuadamente la forma de volver pictórica la poesía.
No sólo en los neologismos destaca la combinación de dos motivos pictóricos dispares e insólitos (perniculimbrudo, peditrompetea, mosquiconejea) que representan verbalmente las caricaturescas combinaciones que pululan en los cuadros de El Bosco, es también el ritmo precipitado y sin aliento de los versos el que acierta a reflejar la atmósfera ajetreada y confusa tan típica de los cuadros del pintor flamenco. Experimentamos realmente una “transpoetización” en el sentido de que el poeta es capaz de verter en signos fonéticos, semánticos y métricos lo que el pintor realizó con sus invenciones de formas y colores. Además nos hace sentir el desasosiego y el ambiente de angustia y amenaza que caracteriza muchos cuadros de El Bosco, impregnados, sin embargo, siempre de un deje de ironía y caricatura.

"La líricopintura. Sobre las interferencias entre lírica y pintura", Kurt Spang, Impossibilia Nº3, págs. 233-245 (abril 2012)






Poderá também gostar de colecionar figuras de Hieronymus Bosch:

‘Tree Man’ By Hieronymus Bosch From ‘Garden of Earthly Delights’

Devil On Night Chair ‘by Hieronymus Bosch from ‘Garden of Earthly Delights’

‘Blue Flutist’ by Hieronymus Bosch

‘Bird With Letter’ from ‘Temptation of St Anthony’ by Hieronymus Bosch

‘Monster’ from ‘Temptation of St Anthony’ by Hieronymus Bosch

‘Freak with Beard’ by Hieronymus Bosch

‘Choir’s Devil’ from ‘John at Patmos’ by Hieronymus Bosch

Bird Monster with Castle Body’ by Hieronymus Bosch

‘Fish With Tower’ from ‘Temptation of St Anthony’ by Hieronymus Bosch

‘Fat Belly with Dagger’ by Hieronymus Bosch

‘Helmeted Bird Monster’ by Hieronymus Bosch from ‘Garden of Earthly Delights’

Bird in Blue Egg
http://dangerousminds.net/comments/collectable_hieronymus_bosch_figurines

domingo, 11 de dezembro de 2016

Invisível / Visível - Camilo Pessanha, por Vhils


"Invisível/Visível", por Vhils. Mural sobre Camilo Pessanha, no Jardim do Consulado de Portugal em Macau, 2016-12-09.

Além de homenagear a obra do poeta português que viveu mais de 30 anos em Macau, a peça visa também fazer uma reflexão sobre a presença de Portugal nesta parte do mundo e o próprio contributo de Pessanha enquanto poeta, escritor e até juiz. Mas também sobre a natureza única deste longo relacionamento entre Portugal e a China e aquilo que continua a fazer deste território um lugar tão especial.

Besides paying tribute to the oeuvre of the Portuguese poet who lived over 30 years in Macau, the piece also aims to reflect on Portugal's presence in this corner of the world and Pessanha's own contribution as poet, writer and even as judge, but also on the unique nature of this long relationship between Portugal and China and what remains so special about this territory.
Vhils, Facebook, 2016-12-11




O artista Alexandre Farto, mais conhecido como Vhils, inaugurou esta sexta-feira, 09-12-2016, um mural com uma imagem do poeta Camilo Pessanha, no jardim do Consulado de Portugal em Macau, cidade onde o poeta viveu e morreu.
“Conheço parte da obra dele e foi uma pessoa relevante para a história de Macau, mas a ideia aqui não é fazer julgamentos de história, nem de nada. O nome da peça é ‘Invisível, Visível’ e a ideia destas obras, que fazem sempre uma ligação com a história local, é tornar essa história que muitas vezes está invisível, visível, sem julgamentos. É basicamente expor a história e gerar a discussão em relação à pessoa e à obra”, disse Vhils à agência Lusa.
O artista disse que “o trabalho de pesquisa”, para fazer um mural em Macau, “foi intenso e levou algum tempo”, mas a conclusão foi que, “com a obra e a relevância que ele [Pessanha] tinha para a história de Macau, era a pessoa certa”, agradecendo o apoio da Casa de Portugal e do Consulado-geral de Portugal em Macau, neste projeto.
Vhils explicou que, para fazer o mural, “a imagem é trabalhada, é feito um desenho, é feita uma divisão de cores desse desenho e, depois, são pintados na parede esses diferentes tons e, dependendo do tom e da própria parede, dos diferentes tons que vai tendo, cada tom vai a uma profundidade mais funda e a outra mais superficial, e é jogar com estas camadas que o muro tem que, no final, revelam e fazem um rosto”. “É quase uma escultura no final, mas a partir de uma imagem”, afirmou.
No mês passado, Vhils fez um mural com José Saramago, em Madrid, e disse agora à agência Lusa que “é possível” que surjam outros trabalhos seus com escritores portugueses: “Depende dos projetos e depende muito das situações. Este é um projeto específico que tenho estado a trabalhar, que tem muito a ver com a literatura, também com a relevância de alguns poetas e escritores portugueses, mas sim, é possível”.
O mural de Macau resultou de uma parceria entre a Casa de Portugal em Macau e o Consulado-geral de Portugal, em Macau e Hong Kong.
Na inauguração, a presidente da Casa de Portugal, Amélia António, disse que este é “um marco no trabalho de divulgação da cultura portuguesa e dos artistas portugueses” da Casa de Portugal em Macau, que este ano comemora 15 anos, e manifestou especial satisfação por poder, neste aniversário, “entregar à cidade, aos residentes, aos turistas” uma obra de Vhils, que “tem tudo a ver” com Macau.
O cônsul-geral, Vítor Sereno, destacou que esta é a primeira obra em Macau e, numa representação diplomática portuguesa de Vhils, “um dos nomes mais aclamados do panorama da arte urbana mundial”.
“Devemos e podemos ficar felizes sabendo que a República Popular da China é presentemente um dos grandes investidores em Portugal em termos económicos, mas não nos podemos esquecer de outras valências como é o caso da cultura, em que a diplomacia tem um papel fundamental a desempenhar (…), e de outras vertentes que nos permitem construir as chamadas pontes reais de afeto”, afirmou.
“Através do génio de Vhils e da imortalidade de Pessanha, estamos a celebrar Portugal a dez mil quilómetros de distância e a cimentar os laços seculares portugueses com os nossos amigos da Região Administrativa Especial de Macau e da República Popular da China”, acrescentou.
Na inauguração estiveram também dois trinetos de Pessanha, Vítor e Filomeno Jorge, que se disseram “apanhados de surpresa” com a homenagem ao poeta, que morreu há 90 anos.
“Fiquei até bastante comovido”, disse Vítor Jorge à Lusa, enquanto Filomeno falou “num dia de alegrias”. Os dois consideraram que o mural é “uma obra magnífica” e que a imagem é “igualzinha” à de uma fotografia do trisavô.
Vítor Jorge acrescentou que esta foi a primeira homenagem ao trisavô a que assistiu na vida, e considerou-a “justa”, lembrando que um grupo de personalidades em Portugal queria levar os restos mortais de Pessanha para o Panteão Nacional, em Lisboa.

No entanto, a mãe, Ana Jorge, bisneta de Camilo Pessanha que hoje tem 84 anos, opôs-se. “Para mim, era uma honra, mas a minha mãe recusou. Tentei convencê-la muitas vezes, mas não consegui, paciência. Ela é muito oriental, muito supersticiosa e não quer que ninguém mexa na campa”, explicou.

http://bomdia.be/macau-camilo-pessanha-em-mural-assinado-por-vhils/


NOTA SOBRE O SIMBOLISMO:

O Simbolismo fez aliança com a música, passou à exploração do inconsciente por meio de símbolos e sugestões, preferindo o mundo subjetivo ao objetivo, o invisível ao visível, buscando a compreensão da vida por meio da intuição e do irracional, explorando a realidade situada além do real e da razão. 
A leitura da poesia simbolista exige esforço de penetração, dada à opacidade dos seus significados. Em lugar da expressão direta, incapaz de captar as  essências internas e os sentimentos mais intimamente  pessoais, o Simbolismo usava processos indiretos, associações de idéias, representadas por metáforas e símbolos, além de buscar efeitos sonoros nos elementos musicais, tonais e rítmicos, aos quais se somavam os efeitos das cores. 

terça-feira, 6 de dezembro de 2016

Sexo e transformação

Inana/Ištar e Dumuzid/Tâmuz, em detalhe de cerâmica suméria

GILGÁMESH

[171] Um dia, um segundo dia no açude sentados ficaram;
          Chegou o rebanho, bebeu no açude,
[173] Chegam os animais, a água lhes alegra o coração,
          E também ele: Enkídu! Seu berço são os montes!*
[175] Com as gazelas ele come grama,
          Com o rebanho aperta-se na cacimba,
[177] Com os animais a água lhe alegra o coração.
          E viu-o Shámhat, ao homem primevo,*
          mancebo feroz do meio da estepe.*
[180] Este é ele, Shámhat! Oferece os seios!*
          Abre teu púbis e que ele toque teu sexo!
[182] Não tenhas medo, toma seu alento!
          Ele te verá e chegará junto de ti:
[184] A roupa estende, deixa-o deitar-se sobre ti,
          E faz com esse primitivo o que faz uma mulher:
[186] Seu desejo se excitará por ti,*
          Estranhá-lo-á seu rebanho, ao que cresceu com ele.
[188] Abandonou Shámhat os vestidos,
          Abriu seu púbis e ele tocou seu sexo,
[190] Não teve ela medo, tomou seu alento,
          A roupa estendeu, deixou-o deitar-se sobre si,
[192] Fez com esse primitivo o que faz uma mulher


Tannhäuser


SEXO E TRANSFORMAÇÃO
A ideia de que o acto sexual transforma profundamente quem o experiencia é tão antiga quanto os primeiros textos sumérios em tabuinhas de barro cozido (muito mais antigos do que a Ilíada grega). O episódio inicial da epopeia Gilgámesh fala-nos do bom selvagem Enkídu, que viveu toda a primeira fase da sua vida no meio dos animais, aceite por eles como um deles, pastando erva com as gazelas. Seduzido por uma cortesã, com quem Enkídu tem relações sexuais durante seis dias e seis noites (sem nunca perder a erecção: o texto é explícito em relação a este tour-de-force erótico), o recém habilitado atleta do sexo quer depois voltar para a sua vida anterior; mas os animais, pressentindo que ele já não é o mesmo, rejeitam o seu convívio. Nenhuma gazela aceita agora pastar erva com ele.
O comportamento destas puritanas gazelas da Suméria lembra o dos unicórnios no imaginário medieval, que só aceitam o convívio de virgens. Análoga, à sua maneira, é a situação descrita na ópera medievalizante “Tannhäuser” de Richard Wagner. O cantor-poeta epónimo, depois de ter tido a experiência de todos os deleites do sexo na residência de Vénus (o Venusberg), sente-se depois deslocado na Wartburg (castelo na Turíngia, onde Lutero traduziu a Bíblia), veneradora da virgindade.
Quando abre o pano no início desta ópera, Tannhäuser já se encontra no Venusberg: nós, espectadores, chegamos tarde demais para conhecermos o herói na sua fase pré-sexual. A fase em que o conhecemos é, digamos assim, pós-sexual: o excesso de sexo, a permissibilidade da sua abundância sem freio, já levou a que seja impossível sentir algum prazer; o cantor-poeta, farto de sexo, já só sonha com a vida de castidade que deixou para trás.
No entanto, regressado ao mundo dos castos, Tannhäuser tem de reconhecer que já não se sente bem naquele meio. O elogio do amor cortês, em que a dama é venerada como uma espécie de Virgem Maria, leva-o a ripostar com o elogio do prazer carnal, o que deixa em estado de indignação assassina a casta assistência. Indignação “assassina” não é exagero: os colegas-poetas, reagindo com mais violência do que as gazelas da Suméria (que se tinham apenas recusado a pastar com o devasso Enkídu), querem mesmo matar Tannhäuser por ele ter experimentado o sexo enquanto prazer. O castigo extremo não é cumprido, mas será com a morte por exaustão, no final do 3º acto, que Tannhäuser terá de pagar a mudança de personalidade que a experiência do sexo ocasionou.
O pós-sexo deixa-nos por vezes felizes, por vezes melancólicos (os “post-coital blues”); muitas vezes vulneráveis devido ao gasto de combustível emocional que o acto exige. Por isso nenhum futebolista sai directo do leito de amor para o relvado, tal como os antigos gladiadores não saíam do lupanar para a arena.
A vulnerabilidade causada pelo sexo pode ser fatal. Os cinéfilos nunca esquecerão os SA, exaustos das suas orgias homoeróticas, a serem chacinados pelos SS no filme “Os Malditos” de Luchino Visconti. Esta sequência do filme, impressionante, lembrará inevitavelmente aos helenistas-cinéfilos que o tema da vulnerabilidade causada pelo sexo é, afinal, bem grego: o caçador Adónis, apesar de perito no trato com animais selvagens, é morto por um javali por ter ido à caça saído do leito da deusa Afrodite. 
O mito de Adónis expressa ainda a ideia de que, por causa do sexo, o homem heterossexual torna-se menos homem: como se o contacto íntimo com a mulher o desvirilizasse.
Esta ideia está implícita na Odisseia homérica, quando o deus Hermes dá a Ulisses uma planta mágica para impedir que a deusa Circe, depois de desfrutar da proeza sexual do herói, lhe tire (nas palavras de Hermes) “coragem e virilidade quando estiveres nu”. A planta mágica garante, pois, que Ulisses possa passar pela experiência do sexo com Circe sem que essa experiência implique transformação. Ele permanece o mesmo, antes e depois. O acto não tem qualquer efeito sobre ele.
No imaginário de Hugo von Hofmannsthal, também o deus Baco sai ileso da ilha de Circe: a palavra exacta é “unverwandelt” (“intransformado”). Como deus que é, não precisa de qualquer planta mágica para resistir à transformação. No entanto, algo há em “Ariadne em Naxos” que se revela mais forte que o sexo e mais forte que a divindade: algo que transforma o deus, que o leva a declarar “sou agora outro relativamente à pessoa que eu era”. Essa experiência transformadora, mais forte ainda do que o sexo e à qual nem os deuses resistem, é obviamente... Não, é tão óbvio que nem vou dizer o que é.

Frederico Lourenço, O Lugar Supraceleste (Edições Cotovia)
(na imagem: “A Morte de Adónis” de Rubens)



quinta-feira, 24 de novembro de 2016

INSÓNIA


Não durmo, nem espero dormir.
Nem na morte espero dormir.

Espera-me uma insónia da largura dos astros,
E um bocejo inútil do comprimento do mundo.

Não durmo; não posso ler quando acordo de noite,
Não posso escrever quando acordo de noite,
Não posso pensar quando acordo de noite —
Meu Deus, nem posso sonhar quando acordo de noite!

Ah, o ópio de ser outra pessoa qualquer!

Não durmo, jazo, cadáver acordado, sentindo,
E o meu sentimento é um pensamento vazio.
Passam por mim, transtornadas, coisas que me sucederam
— Todas aquelas de que me arrependo e me culpo;
Passam por mim, transtornadas, coisas que me não sucederam
— Todas aquelas de que me arrependo e me culpo;
Passam por mim, transtornadas, coisas que não são nada,
E até dessas me arrependo, me culpo, e não durmo.

Não tenho força para ter energia para acender um cigarro.
Fito a parede fronteira do quarto como se fosse o universo.
Lá fora há o silêncio dessa coisa toda.
Um grande silêncio apavorante noutra ocasião qualquer,
Noutra ocasião qualquer em que eu pudesse sentir.

Estou escrevendo versos realmente simpáticos —
Versos a dizer que não tenho nada que dizer,
Versos a teimar em dizer isso,
Versos, versos, versos, versos, versos…
Tantos versos…
E a verdade toda, e a vida toda fora deles e de mim!

Tenho sono, não durmo, sinto e não sei em que sentir.
Sou uma sensação sem pessoa correspondente,
Uma abstracção de autoconsciência sem de quê,
Salvo o necessário para sentir consciência,
Salvo — sei lá salvo o quê…

Não durmo. Não durmo. Não durmo.
Que grande sono em toda a cabeça e em cima dos olhos e na alma!
Que grande sono em tudo excepto no poder dormir!

Ó madrugada, tardas tanto… Vem…
Vem, inutilmente,
Trazer-me outro dia igual a este, a ser seguido por outra noite igual a esta…
Vem trazer-me a alegria dessa esperança triste,
Porque sempre és alegre, e sempre trazes esperança,
Segundo a velha literatura das sensações.

Vem, traz a esperança, vem, traz a esperança.
O meu cansaço entra pelo colchão dentro.
Doem-me as costas de não estar deitado de lado.
Se estivesse deitado de lado doíam-me as costas de estar deitado de lado.
Vem, madrugada, chega!

Que horas são? Não sei.
Não tenho energia para estender uma mão para o relógio,
Não tenho energia para nada, para mais nada…
Só para estes versos, escritos no dia seguinte.
Sim, escritos no dia seguinte.

Todos os versos são sempre escritos no dia seguinte.
Noite absoluta, sossego absoluto, lá fora.
Paz em toda a Natureza.
A Humanidade repousa e esquece as suas amarguras.
Exactamente.
A Humanidade esquece as suas alegrias e amarguras.
Costuma dizer-se isto.
A Humanidade esquece, sim, a Humanidade esquece,
Mas mesmo acordada a Humanidade esquece.
Exactamente. Mas não durmo.

Álvaro de Campos

Caspar David Friedrich, "O viajante sobre o mar de névoa", 1818



O primeiro sofredor de insónia de que a literatura ocidental nos dá conta é nada menos que Zeus. Já por aí se pode inferir que o problema não escolhe as suas vítimas consoante a sua dignidade ou importância, mas toca a tod@s. Tanto sofre de insónia o bilionário deitado na sua cama em Park Avenue como o pobre no seu covil. No início do Canto II da Ilíada, a insónia de Zeus tem, ainda, uma característica amarga que todos os insomníacos conhecem: é tão desesperante sentirmos a meio da noite que, no mundo inteiro, a única pessoa que não está a dormir somos nós. Sobretudo se estamos deitados na cama ao lado de alguém que está a dormir – como no caso de Zeus, mais uma vez, no referido episódio da Ilíada.
No entanto, se olharmos para a literatura grega no seu todo, vemos que a insónia (γρυπνία) nem sempre é vista em termos exclusivamente negativos. A insónia é sentida como dádiva grata para aqueles que se dedicam à arte da palavra. O facto de o poeta não conseguir dormir de noite é um bom motivo para se sentar à luz da candeia, a burilar e aperfeiçoar os seus versos. Uma poeta do século III antes de Cristo saúda o aparecimento do grande poema de Arato sobre astros e constelações como fruto da insónia do poeta. Para se escrever poesia que valha a pena, é preciso queimar as pestanas. A mesma ideia aparece muitos séculos mais tarde no filme Rich and Famous de George Cukor, quando Jacqueline Bisset no papel de uma escritora diz “if your writing doesn’t keep you awake all night it won’t keep anyone else awake either”.
Na literatura grega mais tardia – já da época cristã – os padres do deserto elogiam muito essa graça divina que é a insónia, já que alegadamente nada faz melhor à alma do que privar o corpo de sono. Esta ideia, formulada por João Clímaco na sua Escada do Paraíso, não é obviamente partilhada pela psicologia moderna, que vê a coisa pela perspectiva contrária: nada faz tanto mal à alma como não dormir. O sono é fundamental.
Uma das razões pelas quais os padres do deserto desaprovavam o sono tinha a ver com a vulnerabilidade do cérebro humano a imaginações eróticas quando é abraçado pelos braços de Morfeu. Todos os pensamentos que conseguimos afugentar ou recalcar durante o dia são como melgas que esperam apenas que adormeçamos para logo atacar. Claro que não cabe aqui um relato de todos os sonhos eróticos que já tive na minha vida (felizmente esquecem-se com uma facilidade enorme), mas quantas e quantas vezes não acordei estarrecido com o facto de ter sonhado ter ido para a cama com alguém cuja atracção erótica à luz do dia nunca se me impusera. Estes sonhos são especialmente incomodativos para pessoas que de dia negam a sua verdadeira orientação sexual, dado que, no mundo do sonho, não é certamente com mulheres que sonha o gay recalcado, casado e pai de filhos. Para homens que procuram viver um quotidiano de castidade por razões de índole religiosa (ou porque são padres ou monges ou porque optaram, enquanto leigos, pela castidade), haverá fases das suas vidas em que a insónia – como modo de escapar a desagradáveis sonhos sexuais – será uma amiga assaz bem-vinda.
Por isso, na sua fascinante Escada do Paraíso (escrita em grego em inícios do século VII depois de Cristo), o monge João Clímaco escreve o seguinte: “a insónia mantém o espírito puro. O monge que não dorme combate a luxúria; o que dorme, dorme com ela. A insónia é a supressão da luxúria, é a libertação das fantasias em sonho. O monge que sofre de insónia é um pescador de pensamentos: no silêncio da noite consegue apanhá-los mais facilmente”.
Ceder ao sono, neste ideário ascético, é visto como sinal de fraqueza, como incapacidade de superar as exigências do corpo, como incapacidade de lhes sobrepor as razões da espiritualidade e do intelecto. Mas, por outro lado, dormir é tão bom! Muitas vezes na minha vida me tenho insurgido contra visitas inoportunas da insónia, mas até hoje tenho optado por lidar com ela de forma amigável, sem tentar vencê-la por meios químicos. Já me aconteceu estar toda a noite na cama de olhos fechados, mas – como o pescador de pensamentos de João Clímaco – completamente acordado. E claro que já me exasperei com quem ressonava beatificamente ao meu lado. Hoje aceito que na minha idade é normal dormir menos, e esforço-me por acolher, cada noite, a presença alternada no meu quarto desses dois amigos gregos que me acompanharão até ao fim da vida: o sono (πνος) e a insónia (γρυπνία). Desde que quem durma ao meu lado não ressone, tudo bem.
(na foto: a minha cadela Thisbe claramente desagradada há muitos anos por eu estar a dormir – e ela não)

Frederico Lourenço, "Insónia",  Facebook24-11-2016



INSÓNIA

Ó retrato da morte, ó noite amiga
Por cuja escuridão suspiro há tanto!
Calada testemunha do meu pranto,
De meus desgostos secretária antiga!

Pois manda Amor, que a ti somente os diga,
Dá-lhes pio agasalho no teu manto;
Ouve-os, como costumas, ouve, enquanto
Dorme a cruel, que a delirar me obriga:

E vós, ó cortesãos da escuridade,
Fantasmas vagos, mochos piadores,
Inimigos, como eu, da claridade!

Em bandos acudi aos meus clamores;
Quero a vossa medonha sociedade,
Quero fartar meu coração de horrores.

Bocage



OS ANJOS DA MEIA NOITE

PHOTOGRAPHIAS

Quando a insônia, qual lívido vampiro,
Como o arcanjo da guarda do Sepulcro,
Vela à noite por nós,
E banha-se em suor o travesseiro,
E além geme nas franças do pinheiro
Da brisa a longa voz ...

Quando sangrenta a luz no alampadário
Estala, cresce, expira, após ressurge,
Como uma alma a penar;
E canta aos quizos rubros da loucura
A febre - a meretriz da sepultura
A rir e a soluçar...

Quando tudo vacila e se evapora,
Muda e se anima, vive e se transforma.
Cambaleia e se esvai...
E da sala na mágica penumbra
Um mundo em trevas rápido se obumbra...
E outro das trevas sai...

........................................................................

Então... nos brancos mantos que arregaçam
Da meia-noite os Anjos alvos passam
Em longa procissão!
E eu murmuro ao fitá-los assombrado:
São os Anjos de amor de meu passado
Que desfilando vão...

Almas, que um dia no meu peito ardente
Derramastes dos sonhos a semente,
Mulheres, que eu amei!
Anjos louros do céu! virgens serenas!
Madonas, Querubins ou Madalenas!
Surgi! aparecei!

Vinde, fantasmas! Eu vos amo ainda;
Acorde-se a harmonia à noite infinda
Ao roto bandolim ...

.....................................................................

E, no éter, que em notas se perfuma,
As visões s'alteando uma por uma...
Vão desfilando assim!...

1.ª SOMBRA

MARIETA

Como o gênio da noite, que desata
O véu de , rendas sobre a espádua nua,
Ela solta os cabelos... Bate a lua
Nas alvas dobras de um lençol de prata

O seio virginal que a mão recata,
Embalde o prende a mão... cresce, flu
Sonha a moça ao relento... Além na
Preludia um violão na serenata!...

...Furtivos passos morrem no lajedo...
Resvala a escada do balcão discreta...
Matam lábios os beijos em segredo...

Afoga-me os suspiros, Marieta!
Oh surpresa! oh palor! oh pranto! oh medo!
Ai! noites de Romeu e Julieta. . .

2.ª SOMBRA

BÁRBORA

Erguendo o cálix que o Xerez perfuma.
Loura a trança alastrando-lhe os joelhos,
Dentes níveos em lábios tão vermelhos,
Como boiando em purpurina escuma;

Um dorso de Valquíria... alvo de bruma,
Pequenos pés sob infantis artelhos,
Olhos vivos, tão vivos, como espelhos,
Mas como eles também sem chama alguma;

Garganta de um palor alabastrino,
Que harmonias e músicas respira...
No lábio - um beijo... no beijar - um hino;

Harpa eólia a esperar que o vento a fira,
— Um pedaço de mármore divino...
— É o retrato de Bárbara - a Hetaira. —

3.ª SOMBRA

ESTER

Vem! no teu peito cálido e brilhante
O nardo oriental melhor transpira!
Enrola-te na longa cachemira,
Como as judias moles do Levante,

Alva a clâmide aos ventos - roçagante...
Túmido o lábio, onde o saltério gira...
Ó musa de Israel! pega da lira...
Canta os martírios de teu povo errante!

Mas não... brisa da pátria além revoa,
E ao delamber-lhe o braço de alabastro,
Falou-lhe de partir... e parte... e voa. . .

Qual nas algas marinhas desce um astro...
Linda Ester! teu perfil se esvai... s'escoa...
Só me resta um perfume... um canto... um rastro...

4.a SOMBRA

FABÍOLA

Como teu riso dói... como na treva
Os lêmures respondem no infinito:
Tens o aspecto do pássaro maldito,
Que em sânie de cadáveres se ceva!

Filha da noite! A ventania leva
Um soluço de amor pungente, aflito...
Fabíola!... É teu nome!... Escuta é um grito,
Que lacerante para os céus s'eleva!...

E tu folgas, Bacante dos amores,
E a orgia que a mantilha te arregaça,
Enche a noite de horror, de mais horrores...

É sangue, que referve-te na taça!
É sangue, que borrifa-te estas flores!
E este sangue é meu sangue... é meu... Desgraça!

5.ª e 6.ª SOMBRAS

CÂNDIDA E LAURA

Como no tanque de um palácio mago,
Dous alvos cisnes na bacia lisa,
Como nas águas que o barqueiro frisa,
Dous nenúfares sobre o azul do lago,

Como nas hastes em balouço vago
Dous lírios roxos que acalenta a brisa,
Como um casal de juritis que pisa
O mesmo ramo no amoroso afago....

Quais dous planetas na cerúlea esfera,
Como os primeiros pâmpanos das vinhas,
Como os renovos nos ramais da hera,

Eu vos vejo passar nas noites minhas,
Crianças que trazeis-me a primavera...
Crianças que lembrais-me as andorinhas! ...

7.ª SOMBRA

DULCE

Se houvesse ainda talismã bendito
Que desse ao pântano - a corrente pura,
Musgo - ao rochedo, festa - à sepultura,
Das águias negras - harmonia ao grito...,

Se alguém pudesse ao infeliz precito
Dar lugar no banquete da ventura...
E tocar-lhe o velar da insônia escura
No poema dos beijos - infinito...,

Certo. . . serias tu, donzela casta,
Quem me tomasse em meio do Calvário
A cruz de angústias que o meu ser arrasta!. . .

Mas ,se tudo recusa-me o fadário,
Na hora de expirar, ó Dulce, basta
Morrer beijando a cruz de teu rosário!...

8.ª SOMBRA

ÚLTIMO FANTASMA

Quem és tu, quem és tu, vulto gracioso,
Que te elevas da noite na orvalhada?
Tens a face nas sombras mergulhada...
Sobre as névoas te libras vaporoso ...

Baixas do céu num vôo harmonioso!...
Quem és tu, bela e branca desposada?
Da laranjeira em flor a flor nevada
Cerca-te a fronte, ó ser misterioso! ...

Onde nos vimos nós? És doutra esfera ?
És o ser que eu busquei do sul ao norte...
Por quem meu peito em sonhos desespera?

Quem és tu? Quem és tu? - És minha sorte!
És talvez o ideal que est'alma espera!
És a glória talvez! Talvez a morte!

Castro Alves, Santa Izabel, agosto de 1870