sexta-feira, 29 de novembro de 2013

CAMINHO (Camilo Pessanha)

                                                       
       
               
CAMINHO
       
I
       
Tenho sonhos cruéis: n'alma doente 
Sinto um vago receio prematuro. 
Vou a medo na aresta do futuro, 
Embebido em saudades do presente...

Saudades desta dor que em vão procuro 
Do peito afugentar bem rudemente, 
Devendo, ao desmaiar sobre o poente, 
Cobrir-me o coração dum véu escuro!...

Porque a dor, esta falta d'harmonia, 
Toda a luz desgrenhada que alumia 
As almas doidamente, o céu d'agora,

Sem ela o coração é quase nada: 
— Um sol onde expirasse a madrugada, 
Porque é só madrugada quando chora.
       
       
II
       
Encontraste-me um dia no caminho 
Em procura de quê, nem eu o sei.
 — Bom dia, companheiro — te saudei, 
Que a jornada é maior indo sozinho.

É longe, é muito longe, há muito espinho! 
Paraste a repousar, eu descansei... 
Na venda em que poisaste, onde poisei, 
Bebemos cada um do mesmo vinho.

É no monte escabroso, solitário.
Corta os pés como a rocha dum calvário,
E queima como a areia!... Foi no entanto

Que chorámos a dor de cada um... 
E o vinho em que choraste era comum: 
Tivemos que beber do mesmo pranto.
       
       
III
       
Fez-nos bem, muito bem, esta demora: 
Enrijou a coragem fatigada... 
Eis os nossos bordões da caminhada, 
Vai já rompendo o sol: vamos embora.

Este vinho, mais virgem do que a aurora, 
Tão virgem não o temos na jornada... 
Enchamos as cabaças: pela estrada, 
Daqui inda este néctar avigora!...

Cada um por seu lado!... Eu vou sozinho, 
Eu quero arrostar só todo o caminho, 
Eu posso resistir à grande calma!...

Deixai-me chorar mais e beber mais, 
Perseguir doidamente os meus ideais, 
E ter fé e sonhar — encher a alma.
             
Camilo Pessanha(outros poemas nas edições de Clepsidra de 1945 e 1956)
           
           
TEXTOS DE APOIO
       


Caminho ‑ roteiro-sínteseGilda Santos e Izabela Leal (2007)
Caminho I, Carlos Eduardo de Sousa e Daniella de Souza Bezerra (2010)
Realismo e simbolismo em ClepsidraJoão Camilo (1984)
Pessanha sob o signo da viagem, Ivo Cota (2013)
A vulnerabilidade do “eu“ e do “outro” na poesia de PessanhaJosé Eduardo Ferreira (2011)
           



Alex Howitt
           
                                               

           
           
CAMINHO ‑ ROTEIRO-SÍNTESE:
           
Três sonetos numerados e encadeados, que João de Castro Osório, arbitrariamente, mas com alguma lógica, intitulou de “Caminho”, assinalam o percurso propriamente dito.
No primeiro, há um caminhar virtual, metafórico, que transcorre no tempo. A doré vista paradoxalmente: como algo a ser eliminado e como o ideal a ser buscado; uma dor muito particular, conotada por uma personalidade de “alma doente”.
No segundo soneto o caminho já é real. O sujeito lírico dirige-se a um tu,companheiro de viagem.
O clima de identidade, comunhão — mesma jornada, mesmo repouso, mesma venda, mesmo vinho, mesmo pranto — é rompido apenas pela “dor de cada um” , motivo suficientemente forte aos olhos deste viajor para provocar uma separação.
Atraem a atenção aqui sintagmas vinculados a conotações religiosas cristãs: espinho, vinho, monte escabroso, calvário, pranto. Na sua maioria, indiciam dificuldades no trajeto que, a esta altura, já faz pensar na via-crucis, predestinando sofrimentos talvez sobre-humanos ao protagonista.
Cabe um reparo ainda à menção à venda, à estalagem, espaço fechado, extremamente raro em toda a Clepsidra, tanto quanto a presença de um companheiro.
Sabe-se então que o percurso é ascendente, embora a meta (o que deve estar no ápice) ainda esteja velada, enevoada, como se percebe na terceira estrofe.
O terceiro é o soneto da separação. O caminhante redefine seus propósitos[.]
Flagrante unidade depreende-se dos três sonetos. Há um evoluir em que o fim retoma o início. Os pronomes sintetizam o que ocorre:
I — eu (isolamento, solidão)
II — tu e eu → nós (identidade, comunhão)
III — nós → tu e eu → eu (separação, solidão)
Neste tríptico encontram-se elementos fundamentais que serão retomados durante o percurso: referências espaciotemporais, configuradoras das “paisagens” interiores ou exteriores apreciadas ou vividas durante o caminhar, o evoluir; contatos com outros possíveis companheiros; os seus objetivos, constantemente redefinidos pela sua sensibilidade.
Ressalve-se que este caminhar não é firme nem contínuo (note-se o privilégio dado a momentos típicos de transição, como poente, madrugada, aurora, bastante reveladores de indefinição, de hesitação), mas, sim, pontilhado de dificuldades, dúvidas, desânimos, capitulações — tudo que gera análises, rememorações, remorsos, dentro deste modo-de-ser tão particular como o do sujeito lírico, de quem agora já temos dados suficientes para associá-lo ao do próprio poeta, deduzindo-se portanto ser autobiográfica esta jornada poética deste narrador autodiegético, segundo Gérard Genette (GENETTE, 1972, p. 253).
           
(Camilo Pessanha em dois temposGilda Santos e Izabela Leal, Rio de Janeiro, 7Letras, 2007, pp. 28-31
           


          
CAMINHO I
Esse poema de Camilo Pessanha, que vem estruturado na forma de soneto, é uma criação que a princípio deixa a impressão de que seu título (Caminho) não parece estar em harmonia com o conteúdo do poema. Essa contradição aparente é capaz de abduzir o leitor menos atento e levá-lo para outra direção que não seja a da dimensão do universo proposto pelo eu-lírico que aí fala. Contudo, quando se descortina essa aparência inicial, percebe-se que o título está em sintonia com o conteúdo do poema de maneira que ambos (título e conteúdo) concorrem plenamente para elaboração da expressividade do eu. É, pois, coerente acreditar que:
Toda a poesia autêntica mergulha até as profundezas do lírico e reflete em si a unidade dessa fonte originária, toda e qualquer poesia fundamenta-se no imperscrutável de um “sunder warumbe” peculiar, em que não é mais possível qualquer explicação da beleza e do correto, mas também não mais é necessária. (STAIGER, 1997, p. 51)
O poema se articula em torno de dois eixos temporais que são concebidos antagonicamente: o presente e o futuro. O tempo presente é o tempo real no qual o eu-lírico habita e está em perfeita comunhão. Desse período aconsciência lírica desse eunão tem do que se queixar nem mesmo da dor que sente, ao contrário, em vez de se lamentar da dor que agora sente,o eu-lírico lamenta por um dia deixar de senti-la: “Saudades dessa dor que em vão procuro”/ “Do peito afugentar bem rudemente” (PESSANHA,1994).
 O outro eixo temporal concernente ao futuro é o tempo vindouro que causa no eulírico reserva e até certo pavor: “Tenho sonhos cruéis; n’alma doente/ Sinto um vago receio prematuro./ Vou a medo na aresta do futuro” (PESSANHA,1994).
 A razão pela qual esse eu lírico receia o tempo vindouro não pode ser precisada.
Certo é que tudo o que ele quer é que o tempo futuro não chegue, ou melhor, que o tempo presente não se esvaia. Se pensarmos no fato de que o eu poético assinala a marcação desse tempo pelos caminhos de sua consciência, ver-se-á, assim, que fica menos obscura a metáfora que a única palavra do texto demarca.
Além dessa confrontação dos tempos, Pessanha utiliza outro recurso interessante na elaboração desse poema: atribui às palavras um valor que lhes está além do plano sintático ou semântico, confere-lhes um plano de valor que alcança o signo, ou seja, é a palavra-signo. Assim, ele atribui à palavra dor no âmbito do poema, um valo  não só lingüístico, mas um valor que transcende o dado lingüístico e alcança o nível do simbólico:
“Porque a dor, esta falta d’harmonia,/ Toda a luz desgrenhada que alumia/ As almas doidamente, o céu d’agora” (PESSANHA,1994).
 A dor se constitui na consciência desse eu um elemento que vai além do mero desejo sensitivo e ascende à condição de signo, de um elemento imprescindível à constituição desse ser, pois “Sem ela o coração é quase nada” (PESSANHA,1994).
Tudo isso se ajusta como luva na observação de Moisés (2000, p. 412): “o pan-sofrimento pode estar vinculado ao pessimismo de Shopenhauer; e, de outro, que não se trata de dor amorosa, mas de dor existencial, madura, adulta, viril”.
           
Clepsidra: a presentificação do pan-sofrimento da consciência lírica de Camilo Pessanha”, Carlos Eduardo de Sousa e Daniella de Souza Bezerra. REVELLI – Revista de Educação, Linguagem e Literatura da UEG-Inhumas (ISSN 1984-6576) – v. 2, n. 1 – março de 2010.
           
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Suscetíveis de interpretação divergentes são também os tercetos do soneto «Caminho I»:
Porque a dor, esta falta d’harmonia,
Toda a luz desgrenhada que alumia
As almas doidamente, o céu d’agora,
               
Sem ela o coração é quase nada:
Um sol onde expirasse a madrugada.
Porque é só madrugada quando chora.
Nestes versos, Pessanha deixa deliberadamente na incerteza a função dos vários segmentos ― tanto que a estrutura sintática do período só é correta se for consideradaesta falta d’harmonia e os dois versos seguintes como apostos de dor, a que se refere gramaticalmente o pronome ela do v. 12.
        
Barbara Spaggiari. Lisboa, ICALP, 1982. Colecção Biblioteca Breve - Volume 66, p. 87.
           


Remembrance of some lost bliss - from Rite of Passage. John Bodin.

          


REALISMO E SIMBOLISMO EM CLEPSIDRA·
Como falar de si sem falar do mundo? Quando Camilo Pessanha escreve «Tenho sonhos cruéis; n'alma doente/ Sinto um vago receio prematuro» (Caminho I), temos vontade de perguntar: com que sonha o sujeito do poema? e de que tem receio? A continuação do poema não responde de maneira perfeita às nossas perguntas. O sonho e o receio devem ter o mesmo objecto e imaginamos que serão as duas faces do mesmo estado de espírito. Mas que objecto? Os versos seguintes dizem-nos que o sujeito do poema vai «a medo na aresta do futuro,/ Embebido em saudades do presente... »; a informação é incompleta, mas compreendemos que ele receia o futuro e que, estranhamente, tem saudades do presente em que se situa. Na quadra seguinte o receio do futuro cede o lugar à saudade (já evocada antes) e à dor: a saudade do presente é afinal saudade da dor (uma dor de que o sujeito do poema pretende, apesar de tudo, libertar-se). Os dois tercetos falam-nos também da dor e do coração.
No centro do poema encontramos assim constantemente referências à vida interior, sem que nos sejam no entanto fornecidas razões (ou feita alusão a episódios da experiência do sujeito do poema) capazes de nos levarem a compreender o porquê dos sonhos cruéis, do vago receio da dor, etc. A poesia de Camilo Pessanha constrói-se com frequência à volta de estados de espírito e de sentimentos; quanto às razões que explicam ou explicariam esses estados de espírito e esses sentimentos, o poeta não sente necessidade de as evocar de maneira clara. Será por isso que se tem afirmado que os pormenores biográficos precisos estão ausentes da poesia de Camilo Pessanha? Mas não nos parece que seja necessário nem conveniente falar de biografia, pois ainda que o poeta nos fornecesse elementos precisos da sua experiência pessoal eles haviam de adquirir no poema uma Importância própria e haviam de ser relevantes mais pela sua significação no contexto do poema do que pela sua relação, para nós sempre hipotética, com a vida do homem e poeta Camilo Pessanha.
O sonho existe e é cruel, existe a saudade e existe a dor – não bastará? É a ausência de razões, de referências claras à experiência, de argumentos susceptíveis de explicar claramente tal situação que permite ao poema apresentar-se antes, de mais nada como uma tomada de posição sobre a existência, como uma visão do mundo. Uma visão do mundo que é pessimista e que trai a tantas vezes citada incapacidade de fazer coincidir o interior e o exterior: o sonho, a saudade, a dor, o próprio receio, testemunham da distância que separa o poeta da realidade.
Como interpretar, porém, este primeiro soneto de Caminho e em particular o receio prematuro do futuro e as saudades do presente (que é dor)? Parece evidente que o poeta se descobre ou se sente entre dois males: o medo do futuro e um presente doloroso. Se ele confessa ter saudades do presente é porque prefere a dor ao futuro. Porquê? O poema explica-nos as razões desta escolha: a dor, ao desaparecer, cobre o coração de um «véu escuro», isto é, o desaparecimento da dor equivale à morte do coração, que fica de luto. Os tercetos justificam esta interpretação. A dor, que é «falta de harmonia» e «luz desgrenhada», é também o que dá vida ao coração, um coração que sem ela «é quase nada» ‑ que, portanto, é como se não existisse. A partir desta interpretação do poema é-nos mais fácil compreender os receios do futuro e as saudades do presente expressos na primeira quadra. A subtileza -a ideia, porém, não facilita a compreensão do texto.
Para além do pessimismo que manifestam, estes versos podem já aparecer como a nostalgia das coisas vividas e passageiras, como uma forma de protesto contra a passagem voraz do tempo que tudo leva consigo, mesmo a capacidade (ou as razões) de sofrer; o que nos aproximaria das imagens que «passam pela retina» e que não se fixam, e de todos os versos em que se exprime a consciência dolorosa da fugacidade e da inutilidade de uma existência a que a morte porá inevitavelmente fim. A morbidez aparente deste elogio da dor («sofro, logo existo», parece dizer Camilo Pessanha) vê-seporém atenuada e explicada quando a interpretamos simbolicamente e inserimos este poema no conjunto da obra; o elogio da dor adquire um valor simbólico porque não é apenas um desabafo de circunstância, mas a expressão de uma visão do mundo e da experiência.
Um último comentário: embora fale apenas da realidade interior, da vida psicológica, Camilo Pessanha utiliza palavras que remetem para o corpo humano e para a realidade exterior: «aresta», «poente», «coração», véu», «luz» que «alumia», «céu»,«sol», «madrugada». A «aresta» do futuro, porém, é uma imagem. O sujeito do poema vai sobre o tempo como se ele fosse um caminho e a referência à «aresta» permite não só materializar a imagem do tempo mas também sublinhar a situação de frágil equilíbrio em que se sente o sujeito do poema. A referência ao «poente» é mais complexa. Esta palavra leva-nos a imaginar o fim do dia, mas parece ser utlizada aqui metaforicamente para significar o fim da dor, uma dor que, ao desmaiar no seu próprio poente, isto é, ao desaparecer, cobriria o sujeito do poema de um «véu escuro» (o coração é tomado como centro da afectividade e da sensibilidade o «véu escuro» como símbolo do luto). O sujeito de «devendo» seria portanto a dor (que aparece dois versos mais acima). A continuação do poema, nomeadamente quando se identifica a dor com a «luz desgrenhada que alumia // As almas doidamente, o céu d'agora», justifica a interpretação que fazemos: o desaparecer da dor cobre o coração de tristeza ou de luto porque a dor é ainda, e apesar de tudo, «luz», e porque sem dor o coração é, no dizer do poeta, «quase nada». As palavras «luz», «alumia», «sol», «madrugada», surgem elas também neste contexto como metáforas; a expressão «o céu d'agora» deve interpretar-se simplesmente como o ‘momento presente' ou 'a situação presente', em sentido amplo. Estas constatações permitem-nos sublinhar a importância das referências à noção de «luz», que encontramos representada em «sol», «alumia», «madrugada»; e à noção contrária de «escuro» (o véu é «escuro»), que aparece também em «poente» e para a qual já remete o adjectivo «desgrenhada», que restringe o valor de «luz». É em torno desta oposição simbólica que se organiza em grande parte o poema; é o seu desenvolvimento que permite ao poeta materializar e tornar mais compreensível a vida interior e a sua visão do mundo pessimista.
Os dois sonetos seguintes de Caminho aparecem como o desenvolvimento de uma metáfora contínua (métaphore filée) e nisso diferem já do primeiro. A leitura realista é pelo menos em parte possível; mas enquanto tal seria demasiado vaga e não justificaria os poemas – por isso revela-se insuficiente e inadequada. Neste dois poemas Camilo Pessanha fala-nos de uma viagem (na realidade a palavra utlizada é caminho) o que explica o título dos três poemas); mas essa «viagem» ou esse «caminho» são a existência (Roteiro da vida é o título de outro grupo de poemas que encontramos mais tarde). A clareza e a maneira convencional como a metáfora da viagem é desenvolvida tornam os poemas que analisamos agora menos interessantes do que outros, em que a ambiguidade e a imprecisão relativa da imagem utilizada permitem ao poeta falar mais profundamente da vida interior, dos valores, do mundo. O facto de o sujeito de o poema afirmar que não sabe o que procura («Em procura de quê nem eu o sei») aponta no entanto para um cepticismo e para uma crise dos valores que, seja individual seja colectiva, se deve sublinhar. São frases como esta que justificam de maneira mais clara a afirmação de Óscar Lopes, para quem a poesia de Camilo Pessanha é omissa «em tudo o que respeita às possibilidades de se refazer o mundo ou de se refazerem as relações entre os homens que condicionam a acção humana sobre o mundo» (História Ilustrada das Grandes Literaturas, Literatura Portuguesa, p. 393),
Que caracteriza o caminho ou a viagem a que se referem os dois sonetos? Em primeiro lugar, como se disse, a incerteza quanto ao fim da viagem, pois o sujeito do poema não sabe o que procura e parece viajar por viajar, mais por uma fatalidade inevitável do que por desejo de viajar (Ieia-se: de viver). Esta circunstância explica que a viagem parece longa e que o encontro do companheiro possa torná-la (mas situamo-nos no domínio do tempo subjectivo) mais curta, isto é, mais suportável. Diz-se-nos em seguida que «é longe, muito longe» e que «há muito espinho», ideia confirmada e desenvolvida no início do primeiro terceto: «É no monte escabroso, solitário./ Corta os pés como a rocha dum calvário,/ E queima como a areia!» Lemos: o tempo da existência custa a passar quando não se sabe o que se procura e além disso os obstáculos são muitos e dolorosos. A metáfora banal dos «espinhos» confirma-o; a alusão ao «monte escabroso, solitário» e às rochas e areia que cortam ou queimam os pés, igualmente banais, também. É interessante constatar que a viagem tem, apesar de todas as incertezas, como meta um monte «escabroso e solitário», metáfora da difícil perfeição espiritual que não é alheia à influência cristã e em que se pode ver uma alusão ao caminho do calvário de Cristo ‑ a palavra calvário é de resto escrita e a alusão aos espinhos adquire, por isso mesmo, uma conotação semelhante. Camilo Pessanha, descreve a viagem de maneira realista, mas tendo sempre em vista uma realidade mais ampla do que a da viagem que descreve; os obstáculos materiais (os espinhos, o monte escabroso, a rocha, a areia que queima) são simples imagens em que se faz alusão às dificuldades da existência. Contraposta a estas dificuldades, a referência à paragem (para descansar) e ao vinho que se bebe também não escapa a uma comparação com o caminho do calvário (tal como Cristo se detinha por momentos no caminho do calvário, os dois companheiros sentem a necessidade de parar para descansar). O vinho é definido no terceiro soneto como um «néctar» que avigora ‑ e transforma-se assim,simbolicamente, num alimento. Ainda aqui se pode sentir a influência do culto cristão, influência que o facto de os dois companheiros beberem do mesmo vinho (um vinho que era «comum» e em que se materializa a própria comunhão dos dois espíritos na infelicidade) parece corroborar. Que os momentos de repouso sejam ainda momentos de dor e de lágrimas acentua o carácter dramático da viagem descrita (a comparação com o caminho do calvário continua a ser possível).
Ter parado para descansar, porém, «Enrijou a coragem fatigada» (terceiro soneto) e o sujeito do poema, vendo nascer o sol, incita o companheiro a retomar a viagem. Os «bordões» sublinham as dificuldades da «caminhada» (e recordam a imagem tradicional do peregrino); e o vinho há-de ajudar a suportar a «jornada» e a vencer os obstáculos.
Mas bruscamente o sujeito do poema parece ter descoberto a inutilidade de ter uma companhia e proclama que cada um deve ir «por seu lado». Para além da descrição realista da viagem, que serve de suporte à metáfora da existência, pressentimos a consciência do destino solitário do homem (o monte, meta a atingir, já era «solitário») e a vontade de «arrostar só todo o caminho», prova de estoicismo, é também a·vontade de assumir inteiramente a existência. O sujeito do poema chorará, é inevitável; mas beberá e há-de perseguir «doidamente» (com desespero, febrilmente) os seus ideais e encher-se a alma de fé e de sonho.
Que ideais? Que fé? Que sonho? Não sabemos. Mas esta vontade deliberada de se abandonar ao ideal, ao sonho, à fé, parece indicar que o sujeito do poema, apesar de todas as dificuldades que encontra no caminho da existência, não renuncia a viver e está disposto a respeitar a parte mais profunda e mais verdadeira de si mesmo (que o incita a viver). Os sonhos, que eram cruéis no primeiro soneto, são aqui assumidos e aceites, desejados; e os receios desaparecem e cedem o lugar à coragem estoica. A aceitação da dor e das lágrimas, que acompanha esta decisão corajosa de «arrostar só todo o caminho» e de «resistir à grande calma», é também indício de lucidez: o sujeito do poema não espera que o caminho se venha a tornar mais fácil; mas apesar disso, e embora não conte com a mudança, está decidido a prosseguir. Do desespero do primeiro e do segundo sonetos à atitude estoica do terceiro vai uma certa distância. E apetece perguntar: onde se encontra aqui a tantas vezes referida renúncia do poeta? Encontramo-la, é verdade, noutros poemas, e por vezes expressa sem ambiguidade. Mas aqui o que descobrimos é a consciência lúcida da existência como percurso doloroso e sem meta definida.
Esta visão pessimista da existência é a que encontramos noutros poemas de Camilo Pessanha. Mas apesar do pessimismo o poeta exprime aqui (como, de resto, em muitos outros passos) uma atitude voluntarista de luta -‑tanto mais de assinalar quanto é certo que ela repousa inteiramente na vontade de aceitar o sonho, de acreditar ainda, de perseguir o ideal. O mundo e a existência não têm sentido; mas o sujeito dos poemas parece acreditar ainda que poderão vir a tê-lo (que ele poderá vir a dar-lho?).
Quanto à construção dos poemas, já verificámos que o poeta descreve de maneira realista a viagem. Mas Camilo Pessanha tem sempre em vista o sentido metafórico, o que o leva a referir-se a situações de ordem geral, a uma realidade mais convencional e menos particular nos seus pormenores. Os três sonetos só têm sentido pleno e justificação quando se descobre (desde o início) que o realismo é apenas o suporte de uma visão simbólica da existência. Sublinhemos ainda que a par de um simbolismo que se apoia na descrição realista do mundo exterior (o caminho, o monte escabroso, os espinhos, a rocha) o vinho, etc.), encontramos um simbolismo que encontra o seu suporte na narração de atitudes do sujeito do poema. O choro, as lágrimas, o próprio «ter fé e sonhar», são não só indícios, mas também símbolos da dificuldade dolorosa de viver e do desejo estoico de prosseguir e de encontrar um sentido para a existência (por outras palavras: o choro e as lágrimas não têm forçosamente lugar; mas representam simbolicamente a dor, o desespero, a tristeza, etc. ‑ com um romantismo e um convencionalismo evidentes).
          
Boletim de Filologia, tomo XXIX, Lisboa,
 Centro de linguística da Universidade de Lisboa, 1984, pp. 287-292.
           
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PESSANHA SOB O SIGNO DA VIAGEM
O título “Caminho” sugere per se a ideia de movimento, e este é o poema do corpus seleccionado em que a viagem é efectivamente, quase espacialmente executada. Este é também um poema algo atípico no conjunto de poemas que constituem a Clepsidra, uma vez que tem um carácter algo diegético, sendo talvez o único poema que vem parcialmente contrariar a ideia de que “Em toda a obra não haverá um poema que possa com probabilidades de êxito reduzir-se a prosa corrente.” (LEMOS 1981: 23). No que toca às “probabilidades de êxito”, sem dúvida que a afirmação de Esther de Lemos é inquestionável. No entanto, dificilmente se encontrará um outro poema em Clepsidra que seja tão identificável com a prosa como este, devido ao seu etéreo carácter diegético. Resumidamente podemos afirmar que o poema se trata de um soneto lírico em que um contemplativo sujeito poético se encontra com um segundo sujeito que interpela, repousando com esse mesmo sujeito durante um período indeterminável de tempo, do qual se separa para continuar o seu caminho, manifestando a sua vontade de o fazer sozinho. Assim se destrói sem dúvida um poema e se levanta “o manto diáfano da fantasia”, descobrindo a nudez sensabor da prosaica realidade. Contudo, se refiro este carácter vagamente diegético do poema em questão, em que algo é inegavelmente (nunca convencionalmente) contado, não é certamente para o destituir da sua qualidade poética, mas sim para denotar este aspecto diferenciador em relação aos restantes poemas que fazem parte da Clepsidra. Esta noção de movimento espacial conferida pelo caminho (ou pela viagem) presente no poema serve de motivo a contemplações sobre a vida, resultado da “natureza do olhar em que envolve a realidade” (LEMOS 1981: 23) característica do poeta.
No primeiro soneto de “Caminho”, o sujeito lírico, numa atitude contemplativa, enuncia a sua percepção do Presente que é para o poeta, parafraseando Esther de Lemos, inexistente enquanto tempo fixo, sendo o presente uma mistura de referências do passado com ansiedades sobre o futuro.
“Vou a medo na aresta do futuro, 
Embebido em saudades do presente…”
A passagem supracitada evidencia essa inexistência do presente. O sujeito poético caminha para o futuro e tem já saudades do presente (que é já passado), sugerindo que o presente é esse avanço em direcção ao futuro e é simultaneamente o desejo de retorno ao passado, todavia frustrado, uma vez que o sujeito poético é “impelido cegamente para a frente” (LEMOS 1981: 43), arrastado numa viagem que não tem vontade de executar, na qual a possibilidade de retorno é nula. A viagem surge assim como algo inevitável e indesejado.
O desejo pelo passado e a inevitabilidade do futuro são temas recorrentes na poesia de Camilo Pessanha estando presentes em inúmeros poemas como “Paisagens de Inverno” (“Ó meu coração, torna para trás!” [PESSANHA 1973: 140]; “Onde ides a correr, melancolias?” [PESSANHA 1973: 141]) ou “No Claustro de Celas” (poema a ser analisado adiante neste ensaio).
O segundo soneto de “Caminho” reflecte o desejo de detenção, frequente desejo do poeta e presente em outros poemas da sua obra:
“Imagens que passais pela retina 
Dos meu olhos, porque não vos fixais? 
Que passais como a água cristalina 
Por uma fonte para nunca mais!...”
(PESSANHA 1973: 155)
Esse desejo está implícito pelo carácter “diegético” deste poema. Neste segundo soneto o sujeito poético detém-se na companhia de um outro (“Paraste a repousar, eu descansei…”) com quem contempla acerca da aspereza do caminho que seguem (“É longe, é muito longe, há muito espinho! / (…)Corta os pés como a rocha dum calvário”).
Esta detenção, paragem momentânea da viagem que faz contrariado e desejo frequente do poeta como foi anteriormente referido, é obtida pela companhia e influência do segundo sujeito e apresenta um consolo amargo sobre a rudeza do caminho e sobre o sofrimento: “chorámos a dor de cada um… / E o vinho em que choraste era comum: / Tivemos que beber do mesmo pranto.”).
Por fim, o terceiro soneto corrobora os efeitos benéficos da detenção: “Fez-nos bem, muito bem esta demora: / Enrijou a coragem fatigada…”. Assim o sujeito lírico anuncia a intenção de retomar a sua viagem sozinho, agora com renovado vigor de um vinho que não voltará a encontrar no caminho (“Este vinho, mais virgem do que a aurora, / Tão virgem não o temos na jornada… / Enchamos as cabaças: pela estrada, / Daqui inda este néctar avigora!...”), pois o avanço opõe-se interminavelmente à agradável “demora”.
O sujeito poético segue assim o árduo caminho, sozinho por opção (“Eu quero arrostar só todo o caminho / (…) Deixai-me chorar mais e beber mais, Perseguir doidamente os meus ideais / E ter fé e sonhar – encher a alma”). O sujeito renovado pela detenção reencontra forças para suportar o progresso desgastante da viagem.
         
Trabalho realizado para a cadeira de Literatura Portuguesa III, Universidade de Évora.
         
         
           
          



A VULNERABILIDADE DO “EU“ E DO “OUTRO” NA POESIA DE PESSANHA

Além do desejo (realizado ou não), da abulia e da inadequação entre o sujeito e o desfile das coisas do mundo, a relação entre o eu e o outro na poesia de Camilo Pessanha pode se dar, muitas vezes, pela consciência da vulnerabilidade que habita o ser em sua trajetória pela vida. Assistindo ao desfile da inútil dor humana (como em “Branco e Vermelho”) ou reconhecendo na imagem de bandidos presos o cárcere de seu próprio coração (“Na cadeia os bandidos presos”), o eu lírico camiliano sente a extensão de seu abandono na terra também pela medida do abandono do outro em suas particulares desventuras.
Para abordar a questão da vulnerabilidade na obra poética de Pessanha (enfatizando a leitura intimista que se pode extrair dela), propomos leituras em close reading de alguns de seus poemas. Começaremos com o tríptico que inicia com o soneto “Tenho sonhos cruéis: n’alma doente”.
O primeiro verso chama atenção pelo uso da não tão usual construção sintática de encerrar um período com dois pontos (“Tenho sonhos cruéis:”). Isso importa porque, caso entendamos todo o primeiro verso unido sintaticamente, a leitura seria que “na alma doente” esse sujeito tem “sonhos cruéis”. A falta de pontuação no final do verso, nesse caso, indica que houve um enjambement. O que o sujeito sente “n’alma doente”, portanto, é “um vago receio prematuro”. Dessa forma, pode-se dizer que o eu lírico sofre, já no primeiro verso, uma ruptura entre o “eu” que tem os “sonhos” e o “eu” sonhado.
Em seu estudo sobre a criação poética de Camilo Pessanha, o critico Gustavo Rubim (interpretando uma carta do poeta português na qual ele nomeia seus textos como “alucinações”) defende a ideia de que, para Pessanha, a poesia é:
Alguma coisa que passa precisamente pela coisificação da poesia, pelo facto de os poemas se tornarem coisas, ou seja, pela experiência da poesia como algo de estranho, de não familiar, algo que a palavra “poesia” não pode designar sem perder o seu sentido familiar. “Alucinação” surge, assim, como a metáfora que nomeia a poesia enquanto experiência de uma dupla estranheza: a de Pessanha no momento em que é afectado pela “vinda” do poema, e a da poesia em relação a si própria quando reproduzida nas coisas que Pessanha escreve (Gustavo Rubim, "A alucinação obsidiante". In: Revista Colóquio/Letras. Ensaio, n.º 129/130, julho de 1993, p. 98).
Aproximando semanticamente “sonhos cruéis” e “alucinações”, pode-se inferir que há duas leituras subjacentes no “sonhos cruéis”: a primeira, que todo o desenvolvimerno do poema resulta desses “sonhos cruéis”; a segunda, que o fazer poético é análogo a esses “sonhos”.
Comprova essa segunda leitura o facto de o sujeito sofrer uma oscilação temporal nos três versos finais da estrofe (respeitando a ordem do poema: passado — implícito no termo “prematuro” —, futuro e presente), mas não no enunciado “Tenho sonhos cruéis”. O que o sujeito poético testa, portanto, é a efetivação desses sonhos em uma forma, ou seja, ter os citados sonhos equivale a ter a realização da experiência poética.
Nota-se também, nessa primeira estrofe, a ocorrência de aliterações nas consoantes linguodentais /t/ e /d/, das nasais /m/, /n/ e /ñ/ e também das assonâncias nas vogais de timbre fechado /o/ e /u/, intercalando-se com a de timbre aberto /a/. As linguodentais e a vogal aberta são constantemente fechadas pela sonoridade das consoantes nasais e das vogais fechadas: “tenho”, “prematuro”, “futuro” e “embebido”. Esse fechamento sonoro cria, digamos assim, um ritmo circular que acaba por encerrar o próprio sujeito poético, reforçando, deste modo, a oscilação temporal de que falávamos anteriormente.
A segunda estrofe começa com a palavra “saudades”, que no último verso da anterior ocupava posição central. Naquela estrofe, as “saudades” eram do “presente”, na segunda, são do sentimento da “dor”. Nota o crítico Paulo Franchetti, sobre o poema “Desce enfim sobre o meu coração” que “a representação da ausência de dor é também representação da ausência de vida” (FRANCHETTI: 2001, p. 13) e, na sequência dessa passagem, o crítico faz um breve comentário sobre o poema que vimos analisando:
Num soneto da juventude, Pessanha escrevia: “Porque a dor, esta falta d’harmonia. [...] / Sem ela o coração é quase nada”. Nos termos da sua obra madura, sem a dor o coração é nada: não há sensibilidade, não há sujeito. Por outro lado, a percepção é tão maior e mais profunda, quanto maior a dor que a origine ou que dela provenha (Ibidem, p. 131).
O advérbio “quase” só aparentemente atenua a dramaticidade do que foi afirmado, pois a dor é caracterizada como a “luz” que “alumia” “as almas”. A dor, enquanto realidade concreta da vida,é o que caracteriza o ser. Sentir saudades dela, portanto, é sentir saudades de si mesmo. Isso elucida o “Embebido em saudades do presente...”. O que numa primeira leitura não se explica é o facto de o sujeito querer “afugentar bem rudemente” a dor de seu peito. Se a dor caracteriza o ser (que na obra do Pessanha é constituído pelo sentir), o sujeito sem dor é o não-ser (o lugar do não-ser — a morte é o horizonte desse sujeito: “ — Um sol onde expirasse a madrugada.”). O lugar desse eu, portanto, é um lugar intermediário entre o ser e o não-ser, que, ao fim e ao cabo, já nos tinha sido informado pelo poema: seu lugar é “o sonho”.
Essa leitura do poema, um tanto metapoética, não explica ainda a relação entre “eu” e “outro” via vulnerabilidade do ser diante do mundo. Para tanto, é preciso que atentemos para o segundo soneto deste tríptico: “Encontraste-me um dia no caminho”.
Se no primeiro poema do tríptico, a dor, como imagem poética, é o que dá sentido a existência do ser, no segundo, essa dor toma a imagem de dois sujeitos que, porventura, se encontram em urn caminho qualquer. Pode-se dizer, também, que — assim como o eu lírico drummondiano de “No meio do caminho” — o encontro se dá entre o sujeito e si mesmo. Isso não alteraria nossa análise, haja vista que, quando o “eu” trata a si mesmo como o “outro”, é na alteridade que o sujeito passa a se ver e/ou espelhar.
Dito isso, devemos nos perguntar o que une esses dois caminhantes. A princípio, sabemos que não é um ideal comum: “Encontraste-me um dia no caminho / Em procura de quê, nem eu o sei”. O que se sabe, no entanto, é que ambos se unem para atenuar a dificuldade de suas jornadas: “Que a jornada é maior indo sozinho”.
Antes de prosseguimos na análise, um pequeno comentário se faz necessário: como nos mostra o professor José Carlos Seabra Pereira (PEREIRA, 1975, pp. 269-272), no capítulo “Espírito e Temas da Poesia Decadentista e Simbolista” de seu importante estudo sobre o tema, a imagem do sujeito solitário, caminhando a esmo, sem destino ou razão, alheio ao mundo ou desgraçado diante dele, é muito comum na poesia decadentista e simbolista portuguesa. A originalidade de Pessanha, na leitura que fazemos, é que em vez de se refugiar em uma torre de marfim (outra estimada imagem dos poetas simbolistas) e se distanciar da companhia do outro, é exatamente nesse outro, também solitário, que o eu poético procurará o conforto de sua dor. Vale dizer que esse conforto só é possível pela identificação, no outro, de sua própria fragilidade: “foi no entanto // Que choramos a dor de cada um”.
Dessa forma, com a perspectiva do longo e doloroso caminho (“É longe, é muito longe, há muito espinho!”), um se torna guardião da dor do outro. Dor que a sonoridade do verso — carregada de sons nasais — parece prolongar em relação com o longo caminho que se há de percorrer. Interessa notar que os próximos dois versos, que enunciam o descanso desses dois caminhantes (“Paraste a repousar, eu descansei... / Na venda onde poisaste, onde poisei.”), há um espelhamento semântico e formal entre o “eu” e o “outro”: nas primeiras orações, o outro (sujeito desinencial “tu”); nas segundas, o “eu”. Daí entendemos a conclusão da estrofe: reconhecida a dor do “eu” na do “outro”, esses sujeitos compassivamente compartilham do “mesmo vinho”.
Ainda nessa estrofe, Camilo Pessanha aproxima semântica e simbolicamente os vocábulos que formam seu esquema de rima (ABBA). Em “descansei / poisei” a relação semântica é bastante evidente. Já em “espinho / vinho” a relação que pode se estabelecer é por meio da simbologia da dor e da eucaristia cristã. Mais para o final do soneto, no entanto, veremos que não é a transcendência que os une. A evocação de imagens potencialmente cristãs se dá mais pelo que elas evocam de sofrimento e comunhão de almas que por um anseio por Deus. Além da simbologia da dor no “espinho” e da comunhão em “vinho”, essas palavras também podem ser associadas ao sangue e ao seu escorrimento — bem como podem retomar a paixão de Cristo, quando foi coroado de espinhos, a Santa Ceia, quando abençoou e compartilhou pão e vinho com os apóstolos, e a transubstanciação, quando o pão se transforma no corpo de Cristo e o vinho, no seu sangue.
No primeiro poema do tríptico, a dor é tida como elemento fundamental para a constituição do ser. Entendendo que o “trajeto” percorrido é a aventura do homem sobre a terra e que esse trajeto se faz por um espinhoso caminho, o sujeito perde dolorosamente parte de sua substância — o sangue — nos ferimentos causados pelo seu percurso. Por outre lado, é no vinho representativo da união dos homens pela comunhão do “sangue de Cristo” que o sujeito encontra conforto para sua dor. Dessa forma, no segundo soneto a dor continua o presente contínuo do ser. Sem o refúgio do sonho, como no primeiro soneto, o eu busca o outro sofrendo reciprocamente suas dores.
Em suma, e em termos que podem ser associados à filosofia de Lévinas, a integração entre os homens se dá à medida que e na medida em que tomam consciência de sua vulnerabilidade.
A vulnerabilidade é mais (ou menos) que a passividade que recebe forma ou choque. Ela é a aptidão — que todo ser em sua “altivez natural” teria vergonha de confessar — a “ser batido”, a “receber bofetadas”. “Ele apresenta a face àquele que o bate e se sacia de vergonha”, diz admiravelmente um texto profético. Sem fazer intervir uma busca deliberada do sofrimento ou da humilhação (apresentação da outra face), o texto sugere, no padecimento primeiro, no padecer enquanto padecer, um consentimento insuportável e duro que anima a passividade, e que a anima bizarramente apesar dela, embora a passividade, como tal, não tenha nem força, nem intenção. nem boa e nem niá vontade. A impotência ou a humildade do “sofrer” está aquém da passividade do suportar. A palavra sinceridade recebe aqui todo seu sentido: descobrir-se sem defesa alguma, estar entregue. A sinceridade intelectual, a veracidade, refere-se já à vulnerabilidade, funda-se nela (LÉVINAS, 1993. p. 100).
Essa não indiferença em relação aos homens, no poema de Pessanha, fica bem evidenciada na conclusão do soneto. Antes, no entanto, de tratarmos dela, vale reforçar as imagens, ainda na terceira estrofe, que subtilmente nos remetem ao sofrimento de Cristo: “monte”, “calvário” e, na “areia” que queima, entrevê-se a imagem do deserto. No poema de Pessanha, no entanto, não se vê a possibilidade de salvação do sujeito pela via transcendental. Essas imagens, por conseguinte, acentuam o abandono do homem. Sem transcendência, a solidão e abandono são ainda maiores.
Confirmam a falta de transeendência no poema seus versos finais: “E o vinho em que choraste era comum: / tivemos que beber do mesmo pranto”. Falta de transcendência, pois, ao contrário do milagre cristão de transformar a água em vinho, o vinho, símbolo de integração entre os dois homens, é transubstanciado em lágrimas. O “eu” que se constrói neste soneto é, portanto, extensão da miséria do outro, que é, no fundo, compreensão de sua própria miséria.
Aproveitando-nos ainda da filosofia de Lévinas, podemos concluir a análise desse soneto afirmando que o sujeito ali construído também se faz pela “não-indiferença” em relação ao outro:
Eco do dizer permanente da Bíblia: a condição — ou incondição — de estrangeiros e de escravos no país do Egito reaproxima o homem do próximo. Os homens procuram-se na sua incondição de estrangeiros. Ninguém está em sua casa. A lembrança desta servidão reúne a humanidade. A diferença que se abre entre mim e si (moi et soi), a não-coincidência do idêntico, é uma radical não-indiferença em relação aos homens (LEVINAS, 1993, p.104).
Resta-nos, agora, abordarmos o último soneto do tríptico: “Fez-nos bem, muito bem, esta demora:”.
Recapitulando, resumidamente, o que afirmarnos sobre os dois primeiros poemas que compõem esse tríptico, temos o que segue: no primeiro soneto, o sujeito poético, no seu “não lugar” que é o sonho — na nossa análise esse lugar também é o da criação poética — afirma ser a dor o estado natural da vida. Já no segundo, o sujeito para se constituir precisa tomar ciência de sua vulnerabilidade e da vulnerabilidade do outro. No último poema, o “eu” terá seu ciclo constitutivo encerrado.
No primeiro verso, chama a atenção o uso das assonâncias em /e/ e das aliterações nasais: “FEz-nos bEM. Muito bEM, esta dEMora” (grifo nosso). O efeito sonoro produzido por esse recurso — no caso desse texto — é o de, ao mesmo tempo, sugerir o prolongamento temporal indicado pelo próprio sentido do verso (“esta demora”) e tomar sua leitura um tanto quanto circular. Isso implica dizer que, na atenção dedicada ao outro, o sujeito ganha forças para voltar a si. Como se pode notar no segundo verso: “Enrijou a coragem fatigada...”.
Os dois últimos versos dessa estrofe anunciam que, dali para frente, a caminhada, mais uma vez, tornar-se-á solitária. Em outros poemas de Camilo Pessanha (como em “Depois das bodas de oiro”, “Enfim, levantou ferro” e “Quando voltei encontrei os meus passos”), também há a metáfora do caminho como o trajeto da vida do sujeito poético. Esse trajeto, normalmente, se faz circularmente — amplificando o tédio do sujeito poético — e não se vê muito sentido em cumprir o percurso, como em “Quando voltei encontrei meus passos” (“— Mesquinhos passos, por que doidejastes / Assim transviados, e depois tomastes / Ao ponto das primeiras despedidas?”). Essa recorrência temática em Pessanha permite-nos afirmar que, também nesse poema, a caminhada será circular. A palavra “bordões”, que ocupa posição central no terceiro verso, pode ter dois sentidos dentro do texto. O primeiro, e mais evidente, é o de “cajado”. Nesse caso, é um acessório para o difícil caminhar do andarilho, portanto, a demora desses dois sujeitos — compassivos um da dor do outro — de alguma forma os revitaliza para continuar a jornada, isto é, o bordão auxilia o caminhar. Por outro lado, a palavra bordão pode ter o sentido figurado de ser urn argumento que se repete constantemente. Dessa forma, partir sozinho na jornada é, apenas, uma promessa de doloroso reencontro.
A terceira estrofe, no entanto, parece desmentir isso. Nos três versos da estrofe aparece anaforicamente o termo “Eu”: “(...) Eu vou sozinho, / Eu quero arrostar só todo o caminho, / Eu posso resistir à grande calma!...”. Além de “Eu” aparece, também, “sozinho” e “só”, há também a sequência verbal “vou”, “quero” e “posso”. Dito isso, para sustentar que a relação entre “eu” e “outro”, nesse poema, se faz pela noção de vulnerabilidade, teremos de, mais uma vez, recorrer ao filósofo Lévinas:
Estrangeiro a si, obsidiado pelos outros, inquieto, o EU (Moi) é refém; refém em sua recorrência mesma de um eu (moi) que não cessa de falhar a si. Mas, assim, sempre mais próximo dos outros, mais obrigado, agravando sua falência a si. Este passivo não se reabsore a não ser em se alargando; glória da não-essência! Passividade que nenhuma “sã” vontade pode querer e, assim, expulso, à parte, sem recolher o mérito de suas virtudes e talentos; incapaz de recolher-se para acumular-se e inflar-se de ser (LÉVINAS, 1993. p. 105).
Como não é intenção desse trabalho demonstrar uma teoria filosófica por meio de textos literários, mas sim, nesse capítulo, mostrar como as reflexões do filósofo lituano podem, de alguma maneira, elucidar certo tratamento dispensado ao outro em alguns dos poemas de Pessanha, adotamos as ideias de Lévinas até onde nos pareceu compatível a comparação. Dito isso, podemos fazer a seguinte ressalva: para Lévinas, resumidamente, a vulnerabilidade do homem e sua estranheza no habitar o mundo tornam-no responsável por todos os outros homens. Buscar um Eu essencial, dentro de si mesmo, isolado do outro, é incorrer em falha. Não porque o “eu”, que se estende até o outro (em detrimento daquele Eu essencial), tenha êxito maior na construção da própria subjetividade, mas porque esse “eu”, ao se estender para além de si, tem uma interioridade ao seu modo. O homem, para o pensador, é estrangeiro a si mesmo e só pode se reafirmar pela responsabilidade que assume com todos os homens diante dessa sua “incondição”. (LÉVINAS, 1993, p. 98-106). No tríptico, o fazer poético, o ato de compor o poema que vimos analisando, composto pelos três sonetos, não há, como horizonte, essa “responsabilidade” da qual nos fala o filósofo. A poesia de Camilo Pessanha, como um todo, se faz de imagens fugidias, entrecortadas e virtuais. Dessa forma, o eu lírico camiliano até se identitica com o outro na sua solidão, estranheza e vulnerabilidade diante de um mundo hostil, mas o outro, em grande parte da produção do poeta, acabará se mostrando como mais uma irrealidade do real.
Nesse sentido, concordamos com a crítica Esther de Lemos quando atirma que a poesia de Pessanha “revela uma consciência de dois planos, o do eu e o do não-eu, mas lança ao mesmo tempo um princípio de intercepção desses dois planos” (LEMOS, 1981, p.30). No parágrafo seguinte a essa citação, a crítica complementa:
Quando há intercepção não há coincidência perfeita. Muito do conflito, da razão de ser humana e profunda do lirismo de Pessanha parece-me encontrar-se aí. O eu tende para a coincidência com o não-eu. Não a consegue de todo, e daí a sua angústia, expressa nos poemas em que procura sem resultado obter tal coincidência (LEMOS, 1981, p. 30).
Entendendo que o poema que vimos analisando é um daqueles em que o sujeito “procura sem resultado obter tal coincidência” e fechando o parêntese, podemos ler a última estrofe de modo que percebamos o encerramento do ciclo iniciado no primeiro texto.
O verso inicial do primeiro poema tem uma semelhança lexical muito grande com o último do terceiro soneto: “Tenho sonhos cruéis: n’alma doente” e “E ter fé e sonhar — encher a alma”. Essa proximidade lexical, porém, carrega inversões semânticas. “Sonhos”, no primeiro poema, está associado a “cruéis”. No último, o “sonhar” vem acompanhado de “fé”. No primeiro, a “alma” é “doente”; no terceiro, o sujeito aspira ao não esvaziamento da “alma” (“encher a alma”).
Logo, a conclusão que se nos impõe pela abordagem escolhida na leitura do texto é a de que o sujeito poético, tomado pelos “sonhos cruéis” — que, na nossa análise, são uma analogia para o fazer poético — conhece sua dor pessoal e a do outro, reconhece a si mesmo na dor do outro, estende-se até ele, mas, no fim das contas, malograda qualquer possibilidade de total integração, o sujeito poético prefere voltar para seu estado intermediário: é no sonho que ele se constrói — consequentemente, é no poema que o eu se faz.

São Paulo: Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas, Universidade de São Paulo, 2011. 
Dissertação de Mestrado em Literatura Portuguesa, pp. 37-45.
         
                                                           
                                            
                
QUESTIONÁRIOS DE APOIO À LEITURA METÓDICA
       
CAMINHO I
       
1. Sobre a atitude do eu-lírico diante do mundo, na primeira estrofe de “Caminho I”, poema do Simbolismo português, é correto afirmar que ele expressa: [selecione a opção correta]
a) o saudosismo das glórias portuguesas do passado; uma forma de sebastianismo.
b) o culto à modernidade, representada pelos grandes inventos do final do século XIX.
c) a angústia existencial que marca a sua relação com o agora e o depois.
d) a fusão entre o real e o ideal materializada pela palavra poética.
e) a nítida harmonia entre o inconsciente (“os sonhos cruéis”) e o consciente (a realidade vivida).
       
2. Percebe-se que o tempo predominante no poema é:
a) Futuro;
b) Passado;
c) Presente;
d) Sem tempo definido;
e) Alternância entre passado e presente.
       
3. Segundo o entendimento que se faz do poema, marque a opção correta:
a) O poeta quer ir logo para o futuro, porque tem certeza de que vai escapar da dor que sente;
b) O poeta tem medo do futuro, porque sabe que a dor vai desaparecer do seu peito e não é isso que ele quer; na verdade, ele gosta do sofrimento;
c) O eu lírico se mostra muito esperançoso com o futuro, demonstrando muita segurança em suas atitudes;
d) O poeta tem medo de ir para o futuro, porque (no futuro) ele pode sentir saudades da dor que ele tem no presente;
e) O eu lírico se apresenta como uma pessoa muito otimista, fazendo planos para o futuro, pois não quer mais sofrer.
       
4. Observa-se que a dor é um elemento constante no poema, porém essa dor vivida pelo eu lírico pode ser explicada como:
a) Dor de ciúme;
b) Dor de amor platónico;
c) Dor de saudade de alguém;
d) Dor de existir;
e) Dor de infidelidade.
       
5. Pela análise que se faz do texto, observa-se que, para o poeta, a dor não traz:
a) Choro;
b) Insatisfação;
c) Equilíbrio;
d) Medo;
e) Receio.
       
6. Analisando especificamente a segunda estrofe, percebe-se que:
a) O poeta tem saudade da dor porque certamente a dor representa uma evasão do poeta para um mundo irreal;
b) Há um gosto do poeta pela dor, visto que ele, mesmo em vão, está sempre procurando por ela;
c) A expressão “ao desmaiar sobre o poente” (v 7) é, sem dúvida, um eufemismo, pois fica claro que tudo o que o poeta quer é morrer para fugir da dor e do sofrimento;
d) O “véu escuro” (v. 8) representa uma espécie de escudo que o poeta procura, buscando se proteger da dor e do sofrimento;
e) A dor do poeta se intensifica ao anoitecer, pois o véu escuro (a noite) é a dor que lhe cobre o coração.
       
7. O entendimento que se faz do texto permite afirmar que o eu lírico é:
a) Pessimista, amargo e sem perspectiva;
b) Deslocado, amargo e otimista;
c) Esperançoso, feliz e otimista;
d) Materialista, amargo e saudosista;
e) Esperançoso, egocêntrico e sem perspectiva.
       
8. A palavra destacada no verso “Sem ela o coração é quase nada” (v 12) retoma especificamente uma palavra já citada no texto. Tal palavra é:
a) Saudade;
b) Dor;
c) Harmonia;
d) Vida;
e) Almas.
       
9. O poema em estudo pertence à estética simbolista. Assim, marque a opção que traz característica dessa estética literária.
a) Valorização da sugestão, da evocação e do aspecto sonoro;
b) Gosto pela descrição de objetos decorativos;
c) Preferência por aspectos materialistas da existência humana;
d) Valorização marcante de aspectos relativos à natureza humana, como o sexo;
e) Abordagem sobrenatural na descrição das personagens, mas geralmente os autores simbolistas, como Cruz e Sousa, caem em contradição estética e enveredam por aspectos sociais, objetivos e materialistas nas descrições.
       
       
10. Camilo Pessanha, no contexto geral de sua obra, trata do sentimento da dor. Com base nisso, considere as seguintes afirmações a respeito do soneto “Caminho I”:
I) O sentimento da dor, metaforizado pelo sol, é rejeitado pelo poeta porque lhe provoca sonhos cruéis.
II) O sentimento da dor, metaforizado pela madrugada, ainda que sofrimento, é essencial ao coração humano.
III) A dor, metaforizada pelo sol. É rejeitada porque falta a ela um pouco de harmonia.
IV) O poeta expressa ambivalência em relação à dor.
       
Interpreta corretamente o soneto o que se afirma em:
a) I
b) II
c) I e IV
d) II e III
e) II e IV
          
11. O poeta situa-se no campo onírico: "Tenho sonhos cruéis".
11.1. O substantivo sonhos liga-se a uma dimensão temporal. Qual?
11.2. Como é que vive o presente?
11.3. Como é que se podem ver aqui as três dimensões do tempo?
11.4. Essas dimensões temporais indiciam um dos temas mais recorrentes na poesia da Clepsidra. Qual?

12. "Vou a medo na aresta do Muro"
12.1. Qual a sugestão gerada pela imagem da aresta?

13. O Poeta pode viver pelo sonho no futuro; mas, na realidade, só pode viver no presente: "Embebido em saudades do presente".
13.1. Com que é identificado o presente? Atenta na rima que pode ser uma preciosa ajuda.

14. A dor é a palavra-chave deste e doutros sonetos.
14.1. Qual é o verso que indica a importância da dor?
14.2. E porque é a dor tão importante?

15. Há uma série de correspondências que merecem atenção.

                       
             
15.1. A dor, "esta falta d'harmonia", desgasta os sentidos. Quais são as consequências desse facto para o sujeito poético?
15.2. Que versos ou expressões mostram que a dor desgasta os sentidos?

16. Se a dor é luz (vida) - "Sem ela o coração é quase nada" -, a ausência da dor é morte.
16.1. Que vocábulos insinuam a morte?

17. O Poeta deseja escapar à dor: "Um sol onde expirasse a madrugada" (luz/vida).
17.1. Como pode ele escapar à dor?
17.2. E porque deseja escapar à dor?

18. Pode considerar-se como tema deste soneto o desejo de fuga a este mundo e de entrada num outro mundo.
18.1. Do que já sabes sobre este Poeta e sobre o Simbolismo, que causas justificarão este desejo?
          
(cf. Aula Viva. Português A. 12º Ano, J. Guerra e J. Vieira. Porto Editora, 1999, p. 299)
       
       
CAMINHO II
       
1. Este texto é alegórico, como se pode verificar pela sequência de acções que abarcam o plano mimético e o plano metafórico.

2. O "eu" cindiu-se em dois "eus": o "eu" existencial e o "eu" potencial. O primeiro representa a vida e o segundo a além-vida. O companheiro é metáfora do "eu" existencial ou real e saúda o seu irmão "gémeo".

3. Há vontade de que se não dê a cisão para que possa haver uma partilha das dificuldades (dores) da jornada.
3.1. Que expressões mostram essa vontade?

4. O vinho é um símbolo. Qual será neste contexto o seu sentido?

5. A jornada é difícil. Que palavras foram usadas para evidenciar essa dificuldade?

6. Explica o sentido das duas comparações.

7. O último terceto é sempre muito importante num soneto.
7.1. Escreve uma pequena frase que traduza o seu sentido.
          
 (Aula Viva. Português A. 12º Ano, J. Guerra e J. Vieira. Porto Editora, 1999, p. 300)
          
       
CAMINHO III
          
1. Os três sonetos fazem parte dum conjunto: primeiro marca partida; segundo, interrogação sobre sentido da jornada e da paragem para que indecisão se resolva e surja um novo alento para caminhar; terceiro aponta esse novo alento.
1.1. Qual é essa força que aparece para que seja possível recomeço da caminhada?
2. A cisão verificada no segundo soneto é consumada no terceiro.
2.1. Qual dos dois "eus" reinicia caminhada?
2.2. Que procura ele?
2.3. Que palavras mostram com mais rigor sentido da sua caminhada?
3. A poesia visa criar um mundo ideal, de que nosso é apenas representação imperfeita.
Para tal, recorre uma variedade de imagens e símbolos. tema central de Clepsidra é a incessante luta para captar inefável. Há que passar por diversas etapas para superar todas as contingências; morte surge como máxima superação. Ossimbolistas procuravam caminhos para atingir infinito.
4. Dentro deste sentido, Caminho III é o poema-eixo em torno do qual os outros dois se organizam, ou seja, existem para chegar à conclusão.
         
(Aula Viva. Português A. 12º Ano, J. Guerra e J. Vieira. Porto Editora, 1999, p. 301)
           
5. O poeta simbolista Camilo Pessanha mistura os tempos numa clara demonstração de uma realidade onírica (do sonho). Tal mistura pode ser vista no trecho:
(A) Vou a medo na aresta do futuro,/Embebido em saudades do presente...
(B) Tenho sonhos cruéis; n'alma doente/Sinto um vago receio prematuro.
(C) Saudades desta dor que em vão procuro/Do peito afugentar bem rudemente
(D) Encontraste-me um dia no caminho/Em procura de quê, nem eu o sei.
(E) Fez-nos bem, muito bem, esta demora:/Enrijou a coragem fatigada.../Eis os nossos bordões da caminhada,/Vai já rompendo o sol: vamos embora.
          
6. Uma referência ao clima onírico pode ser vista no seguinte trecho do poeta simbolista Camilo Pessanha:
(A) Eu vi a luz em um país perdido./A minha alma é lânguida e inerme/Oh! Quem pudesse deslizar sem ruído!/No chão sumir-se, como faz um verme...
(B) Este vinho, mais virgem do que a aurora,/Tão virgem não o temos na jornada.../Enchamos as cabaças: pela estrada,/Daqui inda este néctar avigora!...
(C) E a vista sonda, reconstrui, compara,/Tantos naufrágios, perdições, destroços!/Ó fúlgida visão, linda mentira!
(D) A fronte já sem rugas, distendidas/As feições, na imortal serenidade,/Dorme enfim sem desejo e sem saudade/Das coisas não logradas ou perdidas.
(E) Floriram por engano as rosas bravas/No inverno: veio o vento desfolhá-las.../Em que cismas, meu bem? Porque me calas/As vozes com que há pouco me enganavas?
          
          
               
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[Post original: http://comunidade.sol.pt/blogs/josecarreiro/archive/2013/11/29/caminho.aspx]