domingo, 11 de janeiro de 2009

O CASO CLÍNICO DE FERNANDO PESSOA







  

FERNANDO PESSOA OU ANTÓNIO MORA, O OFICIALMENTE LOUCO.
         
Cascais, disse Pessoa, Cascais, que belo sítio, eu também lá passei alguns dias, não mais de duas semanas, é a primeira vez que falo disto a alguém e de boa vontade lhe confesso a si que é meu amigo, meu caro Soares, fui a uma consulta na clínica psiquiátrica de Cascais; foi lá que conheci António Mora, o filósofo panteísta, e devo dizer que passei nessa pequena vila os dias mais serenos da minha vida, porque uma onda negra tinha-se abatido sobre mim e tinha-me arrastado e eu só tinha vontade de morrer, mas conheci António Mora, que me deu confiança na Natureza.
       
António Mora?, perguntou Bernardo Soares. Nunca me tinha falado nele, gostaria de saber alguma coisa a seu respeito.
       
Bem, disse Pessoa, António Mora é louco, pelo menos oficialmente é louco. Mas é um louco lúcido, que reflectiu muito sobre o paganismo e o cristianismo. Posso dizer-lhe que se veste com uma túnica como os antigos romanos, uma túnica branca que lhe desce até aos pés, calça sandálias à maneira antiga e raramente fala, mas comigo falou.
       
E o que é que ele lhe disse?, perguntou Bernardo Soares.
       
Disse-me muitas coisas, respondeu Pessoa. Disse-me primeiro que os deuses voltarão, porque essa história de uma alma única e de um único deus é uma coisa passageira que está a acabar no final de um curto ciclo de história. E quando os deuses voltarem perderemos essa unicidade da alma, e a nossa alma poderá de novo ser plural, como a Natureza quer.
       
Antonio Tabucchi, in Os Últimos Três Dias de Fernando Pessoa,
Quetzal Editores, 1994, pp. 48-50





Fernando Pessoa, Bernardo Soares, Ricardo Reis e Álvaro de Campos.
Caricatura por por Rui Pimentel.
                                                             

O CASO CLÍNICO DE FERNANDO PESSOA
       
       
A sua poesia exprime sempre os seus sentimentos ou as suas crenças, sejam no que for. Fernando Pessoa não sabe e não quer mentir, embora minta e se contradiga. Não é então eleque fala ou escreve, porque realmente não existe ele.
       
Quando afirma ou nega pronuncia-se somente uma parte dele, uma fracção ocasional do seu eu. A dissociação mental de que é vítima despersonaliza-o. Então a perda da integridade psíquica fá-lo sentir-se outro, ou outros, conforme as fracções próprias que o determinam.
       
Vivem em nós inúmeros,
Se penso ou sinto, ignoro
Quem é que pensa ou sente.
Sou somente o lugar
Onde se sente ou pensa.

Tenho mais almas que uma
Há mais eus que eu mesmo.[1]
       
Na normal evolução da doença esquizofrénica[2] vai-se acentuando a progressão da dissociação psíquica até chegar à dissolução completa da personalidade, que é a demência ? Fernando Pessoa, falecendo aos 47 anos de idade, não teve tempo de chegar lá.
       
Sendo um psicopata hebefrénico[3], está implicitamente entendido que Fernando Pessoa não era o que se chama um louco. Padecia dessa nosofobia[4] porque, como é próprio da hebefrenia, conservava a inteligência e a lucidez do seu estado a agravar-se progressivamente e sabia o fim evolutivo que fatalmente o aguardava no avanço da idade.
       
No sofrimento atroz que lhe provocava à consciência da desagregação do pensamento, provavelmente terá (ainda que temido) desejado a loucura, porque a perda de lucidez do seu estado lhe seria uma libertação. No relâmpago de uma crise, algures chegou a exclamar: «Graças a Deus que estou doido!» Não o estava, claro. Nenhum doido (demente) diz que o é, pois que não reconhece o seu estado. Mas estava, isso sim, no caminho da demência e, nalguns momentos, muito próximo dela.
       
Psicopata profundamente atingido, e com a obstinação de escrever, fatalmente que Fernando Pessoa haveria de transmitir ao papel as vicissitudes dramáticas do seu espírito.
       
Mário Saraiva (médico), O caso clínico de Fernando PessoaLisboa, Edições Referendo, 1990 – texto com supressões


[1] Fernando Pessoa/Ricardo Reis
[2] Esquizofrenia: do grego skhízein, «fender» + phrén, «mente; espírito» + -ia.
[3] Hebefrenia: uma categoria de esquizofrenia que começa, habitualmente, na adolescência e é caracterizada por inércia, embotamento da afectividade, autismo, bizarria de comportamento, delírios, dissociação intelectual da coesão íntima da personalidade.
[4] Nosofobia: horror excessivo às doenças; medo mórbido de adoecer. (Do gr. nósos, «doença» + phobe¸n, «ter horror a» + -ia)

 


EXPLICAÇÕES POSSÍVEIS DA HETERONÍMIA
       
       
Vários caminhos convergentes, assinaláveis nas prosas inéditas, nos levam a explicações possíveis da heteronímia – como se a pluralidade estivesse realmente no cerne do "caso" literário de Fernando Pessoa e a consciência disso manejasse os fios do seu pensamento.
       
Eis algumas dessas explicações:
       
1ª) A constituição psíquica de Pessoa, instável nos sentimentos e falho de vontade, teria gerado a multiplicação em personalidades ou personagens do drama em gente.
       
Pessoa explica o aparecimento dos heterónimos dizendo que a origem destes reside na sua histeria, provavelmente histeroneurastenia[1], logo numa "tendência orgânica e constante para a despersonalização e para a simulação".
       
Vários fragmentos das Páginas Íntimas atendem "à dispersão do eu".
       
2ª) A qualidade de poeta de tipo superior levá-lo-ia à despersonalização. Com efeito, na concepção de Fernando Pessoa, segundo um fragmento inédito, há quatro graus de poesia lírica e no cume da escala, onde ele se coloca, o poeta torna-se dramático por um dom espantoso de sair de si.
       
No segundo grau, o poeta ainda mais intelectual, começa a despersonalizar-se, a sentir, não já porque não sente, mas porque pensa que sente, a sentir estados de alma que realmente não tem, simplesmente porque os compreende. Estamos na antecâmara da poesia dramática, na sua essência íntima. O temperamento do poeta, seja qual for, está dissolvido pela inteligência. A sua obra é unificada só pelo estilo, último reduto da sua unidade espiritual, da sua coexistência consigo mesmo.
       
“O quarto grau da poesia lírica é aquele muito mais raro, em que o poeta, mais intelectual ainda, mas igualmente imaginativo, entra em plena despersonalização."
       
Não só sente, mas vive os estados de alma que não tem directamente, supondo que o poeta, evitando sempre a poesia dramática, externamente, avança ainda um passo na escala da despersonalização.
       
Certos estados de alma, pensados e não sentidos, sentidos imaginativamente e por isso vividos tenderão a definir, para ele, uma pessoa fictícia que os sentisse sinceramente.
       
Não se detém Pessoa precisamente no limiar do seu caso excepcional de poeta múltiplo, autor de autores?
       
A heteronímia seria o termo último de um processo de despersonalização inerente à própria criação poética e mediante o qual Pessoa estabelece uma axiologia literária.
       
O poeta será tanto maior quanto mais intelectual, mais impessoal, mais dramático, mais fingidor – é o sentido pleno da "Autopsicografia".
       
O progresso do poeta dentro de si próprio, realiza-se pela autoria sobre a sinceridade, pela conquista (lenta, difícil), da capacidade de fingir: "A sinceridade é o grande obstáculo que o artista tem de vencer. Só uma longa disciplina, uma aprendizagem de não sentir senão literariamente as coisas, pode levar o espírito a esta culminância. "
       
Exprimir poeticamente significa fingir.
       
3ª) A qualidade de português levaria o poeta a despersonalizar-se, a desdobrar-se em vários.
"O bom português é várias pessoas – reza um fragmento inédito. Nunca me sinto tão portuguesmente eu como quando me sinto diferente de mim – Alberto Caeiro, Ricardo Reis, Álvaro de Campos, Fernando Pessoa e quantos mais haja havidos ou por haver".
       
Se um indivíduo deve despersonalizar-se para seu progresso interior, uma Nação deve desnacionalizar-se – e esta é em particular a vocação portuguesa.
       
O ideal que Pessoa inculca a Portugal, é consequentemente o que se propõe a si próprio: "Ser tudo, de todas as maneiras, porque a verdade não pode estar em faltar ainda alguma coisa" – o pluralismo, o politeísmo.
       
4ª) A multiplicidade do escritor seria o produto necessário de uma nova fase de civilização – fase que Fernando Pessoa caracteriza ao explicar o Orfeu e o sensacionismo dum ângulo sociológico.
       
A decadência da fé, quebra de confiança na ciência, a complexidade de opiniões traduz-se pela ânsia actual de "ser tudo de todas as maneiras".
       
A poesia poderá entender-se também como resposta a um estado colectivo de crise, mas em sentido diferente, isto é, como antídoto, como bálsamo espiritual.
       
Caeiro, libertador imaginário, um remédio (provisório) para a dor de pensar de que sofre Pessoa ortónimo, uma fuga.
       
Pessoa ter-se-ia dividido para se compensar.
       
Heteronímia seria um modo de suprir a carência, verificada na época, de personalidades superiores, e em especial de grandes personalidades na literatura portuguesa: "Com uma tal falta de literatura, como há hoje, que pode um homem de génio fazer senão converter-se ele só em literatura?".
       

       



[1] No seu Tratado de Psiquiatria Clínica, vol. I, o inglês W. Mayer Gross diz, na página 401: «Os hebefrénicos podem seguir um caminho por largos tempos diagnosticados de "neurasténicos" e "neuróticos"... Sentem-se atraídos por ideias pseudo-científicas e pseudo-filosóficas, sentem-se capazes de grandes descobrimentos e invenções.» Por sua vez, afirma-se no Dicionário Enciclopédico de Medicina(p. 871) que «os enfermos (esquizofrénicos na forma hebefrénica) entregam-se a excessos de romantismo, de filosofismo ou de misticismo.»



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[Post original: http://comunidade.sol.pt/blogs/josecarreiro/archive/2009/01/11/casopessoa.aspx]
                     
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