sábado, 30 de dezembro de 2006

MAGMA 3

    
“Mas tudo o que nos toca, a ti e a mim,
toma-nos juntos numa só arcada
que arranca de duas cordas um som único.”
                                                                                    Rainer Maria Rilke
                                                                                           “Canção de amor” in Novos poemas, 1907 e 1908.
       
       


                 
“Sommer night's dream” (1997), Niklaus Troxler (designer gráfico)




      

DUETO
       
Um fechar de olhos, o toque do lençol no rosto
deslocam o corpo do eixo em que se segura
há uma coreografia nos movimentos, um dueto ou
a imagem inicial de duas cordas do mesmo violoncelo
em vibração concertada. Os músculos jogam em coreografia
as sensações unificam-se e os sentimentos resultam felizes.
       
in MAGMA nº 3, Dezembro 2006, Lajes do Pico, Edições Atlânticas
       



       
             
Violoncelo, Netlabel Merzbau
       
       


UM LUME DESTROÇANDO A VISÃO
       
Gostara do falatório, aquele límpido discorrer de graças
dos ditames da meia idade
mas eu já não estava ali, no canto desperdiçado de uma casa.
Quis comemorar um sentimento igual, desejo límpido não rasurado
e trazer igual o desejo de outras épocas.
Poderia ler o dia, a luz aberta a cozinhar durante horas
o vago violoncelo que toca em tua e minha memória comum
diria também as palavras que se repetem em espaços por corpos idênticos
e que afastados refazem o tempo inoperante.
Na boca o corpo demora-se em latitude distante
por claustros, sorrisos solapados
parecendo comerciar o ralhar dos melros
mas disso não faria um joguete, um lardear de pívias
a porta aberta para fugir.
Onde o lugar das calças, das camisas?
trova para esses momentos desabitados.
Eu brinco, ando pela casa, olho tudo finitamente
eliminando a grande altitude o uivar do lobo.
Tudo o que é previsível está aqui como peça de mobiliário
erradamente
abortando a luz de deus com um arame de siso, riso, mijo.
Estendo horizontalmente o deus verde
cubro de vómito de cantador
o efeito de dejectar o que já não importa
cubro com pastel o que outrora foi lançado à germinação.
Eu quero um lume destroçando a minha visão.
       
in MAGMA nº 3, Dezembro 2006, Lajes do Pico, Edições Atlânticas
       
       


       
UM LUME IMENSO
       
Há um gato na janela, há um gato no telhado da casa em frente.
Sei que há um animal a ocupar parte do cérebro enquanto trabalho
e outro ocupando-se de mim enquanto ressona no cérebro um gato enroscado.
Há um pássaro a musicar o pulso e outro sobrevoando a cabeça
como uma língua de fogo que alumia sem incendiar.
Há um lume acima do cabelo como um rosto e outro rosto
lobrigando para os aceitar.
Um nó enlaça os livros na estante ou talvez vários nós
fazem o pensamento das coisas – uma vontade incerta
de ser um homem só para uma humanidade jazente.
Eu quero um pássaro afogueado dentro e fora de mim.
Um lume imenso tocando as tábuas.
       
in MAGMA nº 3, Dezembro 2006, Lajes do Pico, Edições Atlânticas
       
       

      
      
       
Magma é uma revista de periodicidade semestral editada pelo Município das Lajes do Pico. A coordenação do número 3, referente a Dezembro de 2006, coube ao escritor e professor universitário Urbano Bettencourt que fez uma selecção de nomes da literatura contemporânea das denominadas ilhas afortunadas ou abençoadas (macaronésia, do grego makáron = feliz, afortunado; nesoi = ilhas) que constituem os arquipélagos dos AçoresMadeiraCabo Verde eCanárias (os poetas canarinos são traduzidos por José Agostinho Baptista).
      
Eis os abensonhados:
      
Açores
Alexandre Borges
Joel Neto
Luís Filipe Borges
Mariana Matos
Nuno Costa Santos
Rogério Sousa
Sónia Bettencourt
Tiago Prenda Rodrigues
      
Madeira
Carlos Nogueira Fino
José de Sainz-Trueva
José Viale Moutinho
Maria Aurora Homem
      
Cabo Verde
José Luís Hopffer Almada
José Luiz Tavares
Mário Lúcio Sousa
Pedro Javier C. Garcia
      
Canárias
Ana Maria Fagundo
Antidio Cabal González
Juan Carlos de Sancho
      

      
Faço votos para que tal bênção continue a dar frutos apetecíveis e não se torne em ostracismo. Senão vejamos: por um lado, estas ilhas isoladas têm a fortuna de uma biogeografia únicas, por outro, a maioria dos seres vivos endémicos estão em risco de extinção ou extintos.
      
Além do mais, como diz o escritor argelino Yasmina Khadra em entrevista ao Le Monde (e reeditado no Courrier Internacional nº 91): “Acho perigoso para um escritor ficar-se pelo que qualifico de literatura endémica, limitada no tempo e no espaço, como uma gripe”.
      


[Post original: http://comunidade.sol.pt/blogs/josecarreiro/archive/2006/12/30/magma3.aspx]

quinta-feira, 21 de dezembro de 2006

RETRATO DE FAMÍLIA

   
       

Segundo o Courrier internacional (nº 91)neste final de 2006, os escritores parecem estar combinados, pois os seus “romances mais recentes exploram o tema da família, frequentemente abordado do ponto de vista das relações pai-filho ou pai-filha. Sobre ele escrevem autores tão diferentes como o mexicano Carlos Fuentes, os americanos Cormac McCarthy e Edward P. Jones, o italiano Niccolò Ammaniti ou o holandês Arnon Grunberg, retratando a família enquanto metáfora da sociedade, mas também como último refúgio num mundo violento que perdeu as referências.”
       
Vejamos, nós também, alguns retratos de família de ontem e de hoje.
       
             
       
       

“Retirantes” (1944), Candido Portinari (1903-1962)
Óleo sobre tela 190 x 180 cm.
Colecção do Museu de Arte de São Paulo Assis Chateaubriand, Brasil
    

  A pintura com o título “Retirantes” (1944) de Portinari capta um momento em que uma família miserável de camponeses foge da seca que assolou o nordeste brasileiro.
       
Segundo Miguel Torga, nas telas de Portinari (consulte online o Acervo Projecto Portinari), nos versos de Manuel Bandeira e de Carlos Drummond de Andrade, ou na prosa de Graciliano Ramos o próprio sofrimento contém esperança, havendo a expectativa de uma incomensurável pátria futura.
       
       
       
“Regressados”, Paiva de Carvalho (1930-2006)
        
        
          

“Retrato de família”, Açores, 1962, s/a   
(Pai, Mãe e Irmã de José Maria de Aguiar Carreiro)  

     
  
RETRATO DE FAMÍLIA
       
Este retrato de família
Está um tanto empoeirado.
Já não se vê no rosto do pai
Quanto dinheiro ele ganhou.
       
Nas mãos dos tios não se percebem
As viagens que ambos fizeram.
A avó ficou lisa, amarela,
Sem memórias da monarquia.
       
Os meninos, como estão mudados.
O rosto de Pedro é tranquilo,
Usou os melhores sonhos.
E João não é mais mentiroso.
       
O jardim tornou-se fantástico.
As flores são placas cinzentas.
E a areia, sob pés extintos,
É um oceano de névoa.
       
No semicírculo das cadeiras
Nota-se um certo movimento.
As crianças trocam de lugar,
Mas sem barulho: é um retrato.
       
Vinte anos é um grande tempo.
Modela qualquer imagem.
Se uma figura vai murchando,
Outra, sorrindo, se propõe.
       
Esses estranhos assentados,
Meus parentes? Não acredito.
São visitas se divertindo
Numa sala que se abre pouco.
       
Ficaram traços de família
Perdidos no jeito dos corpos.
Bastante para sugerir
Que um corpo é cheio se surpresas.
       
A moldura deste retrato
Em vão prende seus personagens.
Estão ali voluntariamente,
Saberiam – se preciso – voar.
       
Poderiam subtilizar-se
No claro-escuro do salão,
Ir morar no fundo dos móveis
Ou no bolso de velhos coletes.
       
A casa tem muitas gavetas
E papéis, escadas compridas.
Quem sabe a malícia das coisas,
Quando a matéria se aborrece?
       
O retrato não me responde,
Ele me fita e se contempla
Nos meus olhos empoeirados.
E no cristal se multiplicam
       
Os parentes mortos e vivos.
Já não distingo os que se foram
Dos que restaram. Percebo apenas
A estranha ideia de família
       
viajando através da carne.
       
                Carlos Drummond de Andrade, A Rosa do Povo, 1945
       
             
                             
  
       
   
     
 “Foto de família” (1993), Marie-Madeleine Gautier     
       
       
            
       
       
     
     Em “Retrato de família”, Carlos Drummond de Andrade tematiza o olhar debruçado sobre um instantâneo fotográfico.
       
A constatação de duplo envelhecimento – a ideia do retrato perecível (“um tanto empoeirado”) e a incompatibilidade de situações comparativas desgastadas pelo distanciamento do tempo (“Os meninos, como estão mudados”) – faz com que o sujeito poético confirme a noção de fotografia como arranjo iconográfico e como elemento reducionista e imperfeito na reprodução do conteúdo familiar.
       
Neste caso, a possibilidade de movimento foto-cinematográfico obedece a um ritmo interior e bastante específico. O sujeito percebe de imediato a incapacidade da fotografia em registrar a passagem do tempo. Através da verbalização do conteúdo particular do retrato, instaura-se uma espécie de movimento pendular de imagens fixas em imagens móveis, que vão encontrar sua síntese na percepção final da “estranha ideia de família/viajando através da carne”. A partir do momento que o sujeito poético recupera a consciência diante do carácter restrito e selectivo da foto que se encontra à sua frente, inaugura-se a ideia de animação do conteúdo do quadro familiar.
       
No semicírculo das cadeiras
nota-se um certo movimento.
As crianças trocam de lugar,
Mas sem barulho: é um retrato.
       
A única solução para encontrar semelhanças entre os “traços da família” no retrato e as implicações e as especificidades do momento em que se narra é justamente insistir na estratégia de verbalização das mudanças de cada membro familiar (a tranquilidade do rosto de Pedro, a mudança dos meninos, a “verdade” de João). Ou seja, a sensação de movimento está na atitude de mover-se (pela palavra) para se distanciar do aspecto reducionista e imobilizador do congelamento do quadro, ao mesmo tempo que se estabelecem comparações entre os dois tempos distintos. Para o sujeito poético, verbalizar significa “fotografar” as modificações dos traços familiares e justapor esta nova fotografia ao lado daquela que originou este processo. Daí resulta o sucesso dessa estratégia: a impossibilidade de diferenciar os “parentes mortos” (traços congelados e não reproduzidos pelo tempo da foto) dos “parentes vivos” (traços do mundo visível modificados de acordo com o efeito da intensidade da passagem do tempo). É desse jogo infinito de comparações e alternâncias entre o estado anterior e o actual que vai surgir a sugestão de movimento. Da justaposição das diversas imagens verbalizadas pelo sujeito resultam reproduções infinitas dos diferentes momentos de convivência familiar. “Bastante para sugerir/que um corpo é cheio de surpresas”.
       
Toda essa estratégia de movimento só se torna possível diante da noção de enquadramento. “A moldura deste retrato/em vão prende suas personagens”. Ao aproximar a noção de enquadramento da noção de moldura, o sujeito poético percebe o carácter selectivo a que os elementos de cena estão subordinados. No entanto, supõe o que se encontra implícito no enquadramento: a realidade da foto se estende para além desse aprisionamento específico. Se este sujeito diante do retrato contrapõe a micropaisagem dos rostos e gestos familiares à imensidão do além-quadro, reconhece a tensão que se estabelece entre o que é infinitamente pequeno e o que é infinitamente grande, retomando a ideia de aprisionamento selectivo e específico da fotografia. À proporção que o observador da foto vai verbalizando seus conteúdos, engendrando movimento conforme vimos, sua atitude leva à superação dos limites impostos pela moldura (como se o quadro transbordasse: “saberiam – se preciso – voar”).
       
Folhear o álbum, engendrar fotogramas.
             
      
Sérgio Mota (Professor da PUC-Rio)
Todos os cinemas em cinco fotografias” (texto com supressões)
ALCEU - v.3 - n.5 - p. 22 a 40 - jul./dez. 2002
       
       

'The Virgin Spanking the Christ Child before Three Witnesses: Andre Breton, Paul Eluard, and the Painter', 196cm x 130cm, 1926 (Museum Ludwig Köln, Cologne, Germany)
             
      

José Fragateiro [Família]
       
        
      
       
HÁ QUALQUER coisa de errado na família. A família não funciona. Sei que, como conservador, deveria defender a família. Mas não consigo. A família é indefensável. É um equívoco. É um efeito de economia. A família está a dar cabo das pessoas. E das famílias.
       […]
O segredo é conviver em vez de coabitar. A família feliz constitui-se por vizinhos apaixonados, por condóminos de sangue, por um poligrupo sentimental. As pessoas só estão juntas quando querem estar. Só partilham o que querem partilhar. Passam a vida a entreconvidar-se.
       
Miguel Esteves Cardoso
       
             

      
Família (2003), Steve Walker
       

       
       
       
AMOR, SEXO, RELACIONAMENTOS. Esses temas estão na mira de Flávio Gikovate, médico psiquiatra e psicoterapeuta.

É dele o texto que a seguir transcrevo e que anda espalhado por alguns sítios que abordam temas sobre vida sexual, namoro, casamento, família e autoconhecimento.                            
                                          
                           
                                                                     Flávio Gikovate
      
       
      Não é apenas o avanço tecnológico que marcou o início deste milénio.
As relações afectivas também estão passando por profundas transformações e revolucionando o conceito de amor. O que se busca hoje é uma relação compatível com os tempos modernos, na qual exista individualidade, respeito, alegria e prazer de estar junto... e não mais uma relação de dependência em que um responsabiliza o outro pelo seu bem-estar.
A ideia de uma pessoa ser o remédio para nossa felicidade, que nasceu com o romantismo, está fadada a desaparecer neste início de séculoO amor romântico parte da premissa de que somos uma fracção e precisamos encontrar a nossa outra metade para nos sentirmos completos. Muitas vezes ocorre até um processo de despersonalização que, historicamente, tem atingido mais a mulher.
Ela abandona suas características para se amalgamar ao projecto masculino.
A teoria da ligação entre opostos também vem dessa raiz: o agressivo, e assim por diante... uma ideia prática de sobrevivência e pouco romântica, por sinal.
A palavra de ordem deste século é parceria. Estamos trocando o amor de necessidade pelo amor de desejo. Eu gosto e desejo a companhia, mas não preciso, o que é muito diferente. Com o avanço tecnológico, que exige mais tempo individual, as pessoas estão perdendo o pavor de ficar sozinhas e aprendendo a conviver melhor consigo mesmas. Elas estão começando a perceber que se sentem fracção, mas são inteiras. O outro, com o qual se estabelece um elo, também se sente uma fracção. Não é príncipe ou salvador de coisa nenhuma. É apenas um companheiro de viagem.
O homem é um animal que vai mudando o mundo, e depois tem de ir se reciclando, para se adaptar ao mundo que fabricou. Estamos entrando na era da individualidade, o que não tem nada a ver com egoísmo. O egoísta não tem energia própria, ele alimenta-se da energia que vem do outro, seja ela financeira ou moral.
nova forma de amor, ou mais amor, tem nova feição e significado. Visa a aproximação de dois inteiros e não a união de duas metades. E ela só é possível para aqueles que conseguirem trabalhar a sua individualidade.
Quanto mais o indivíduo for competente para viver sozinho, mais preparado estará para uma boa relação afectiva. A solidão é boa, ficar sozinho não é vergonhoso!
Ao contrário, dá dignidade à pessoa. As boas relações afectivas são óptimas, são muito parecidas com o ficar sozinho, ninguém exige nada de ninguém e ambos crescem. Relações de dominação e de concessões exageradas são coisas do século passado.
Cada cérebro é único. O nosso modo de pensar e agir não serve de referência para avaliar ninguém. Muitas vezes, pensamos que o outro é nossa alma gémea e, na verdade, o que fizemos foi inventá-lo ao nosso gosto. Todas as pessoas deveriam ficar sozinhas de vez em quando, para estabelecer um diálogo interno e descobrir sua força pessoal. Na solidão, o indivíduo entende que a harmonia e a paz de espírito só podem ser encontradas dentro dele mesmo e não a partir do outro. Ao perceber isso, ele se torna menos crítico e mais compreensivo quanto às diferenças, respeitando a maneira de ser de cada um.
O amor de duas pessoas inteiras é bem mais saudável. Nesse tipo de ligação, há o aconchego, o prazer da companhia e o respeito pelo ser amado. Nem sempre é suficiente ser perdoado por alguém, algumas vezes você tem de aprender a perdoar a si mesmo...
        
       
       
       
"Sexo e amor", Alberoni 
       
       
       
       
       
Chamo também a atenção para um novo livro que tem por título Sexo e amor, editado, em Portugal, neste final de 2006, pelo sociólogo Francesco Alberoni. A obra surge quase três décadas após a publicação de Enamoramento e amor.
      
  
        
"Pensei que valeria a pena estudar as várias sociedades, as várias combinações entre sexo e sociedade. Fiz vários retratos, a partir de centenas de entrevistas, e com eles tentei transmitir aquilo que os homens e as mulheres de hoje sentem, desejam, querem, repudiam", ou seja, mostra as nossas mais secretas motivações e os nossos desejos mais contraditórios, assim como os factos que preferimos ignorar e os pensamentos que desejávamos não ter.
             
       
       
Para Francesco Alberoni, "o amor hoje em dia só acontece se houver uma extraordinária intimidade física e espiritual”.



[Post original: http://comunidade.sol.pt/blogs/josecarreiro/archive/2006/12/21/retratodefamilia.aspx]