domingo, 12 de novembro de 2017

Daniel Jonas, o antiquado que é o mais alto da poesia portuguesa

ENTREVISTA



Tal como a poesia que escreve, Daniel Jonas é esquivo, difícil, não mendiga reconhecimento, nem leitores. "Canícula", o seu novo livro confirma-o como o mais velho poeta português da actualidade.

Nasceu com a incrível sorte de ter já nome de profeta bíblico, um nome feito para a poesia. Tem 43 anos e é o maior poeta português da atualidade; mede 1,91 cm de altura. Diz que isto foi só porque levou à letra o verso de Florbela Espanca “ser poeta é ser mais alto” e ficou assim com umas pernas tão magras e compridas que obrigam quase toda a gente a ter que dobrar o pescoço para lhe alcançar os olhos, os caracóis e o ar rebelde a lembrar o Bob Dylan em versão revista e aumentada. Lá no alto onde vive (no Porto) também não se esforça para descer ao circo dos eventos literários, não procura os media, não gosta de falar ao telefone. De resto, a sua vida quotidiana como professor, tradutor e pai de dois filhos não lhe deixa grande espaço “nem vontade” para pertencer a grupos ou famílias, cultivar discípulos, andar a ler poesia em eventos. Esta entrevista ao Observador, a propósito do seu novo livro Canícula(Língua Morta), feita por email, telefone e terminada num café de Lisboa, testemunha que, tal como a sua poesia, Daniel Jonas não se deixa facilmente apanhar.


O facto de ter traduzido poetas antigos como Milton, que trabalham com outras formas de linguagem e com outras abordagens dos mundos físicos e metafísicos, outra constelação de ligações, alterou a poesia que escreve?
Todas as leituras contagiam os seus leitores. Não tenho é a certeza se fui eu que as procurei, se foram elas que me encontraram. Nesse sentido, elas poderão apenas acusar uma familiaridade estética, na esteira de um discípulo que busca os seus mestres. O discípulo será prévio ao seu mestre, neste caso. Com Milton aprendi a cultivar o soneto, por exemplo. Por outro lado, a tradução obriga-te a uma imersão na linguagem de uma forma muito mais exigente do que aquela que fazemos no dia-a-dia. A atenção às palavras torna-se mais aguçada. O tradutor faz uma espécie de peregrinação interior dentro do texto e essa peregrinação deve resultar num aperfeiçoamento interior também.

Diz, numa entrevista a António Guerreiro, no jornal Público, que “tudo é convidado a entrar” na sua poesia. Mas este “tudo” que o torna um poeta impossível de classificar e mapear não poderá ser-lhe fatal? Ou seja a sua poesia não pode acabar por se tornar “um lugar facilmente reconhecível apenas por ser ectópico”?
Habituei-me a uma certa tradição que vindimava certos vocábulos com acérrima insistência. Não havia, aliás, poeta que não fosse costumeiro no uso de vocábulos como meses do ano, a ‘cal’, o ‘rumor’, e seus primos. Julgo que, mais recentemente, se assistiu à feira franca de um algoritmo de tendência, digamos, neo-neo-realista que frequentava as mesmas tendências e chamava ao jovial poema os seus sucedâneos ‘táxi’, ‘cigarro’, ‘bar’, qualquer coisa deste género. Ora o que eu digo é que sigo um sistema evangélico, um compelle intrare poético que, não obstante, tende a ser rigoroso naquilo que admite. Mas esse critério não é simples.

Num dos poemas de Canícula diz-se o contrário de São Tomé: não tocar para ver. Como resiste à tentação de dizer apenas o que vê? Como se escapa dessa ditadura de apenas nomear o que é visível que tem dominado a poesia portuguesa dos últimos anos quando, como sabemos, o que se vê jamais reside no que se diz?
A minha imaginação tem de ser forte o suficiente para gerar uma espécie de potência de criação. Nesse sentido, quando num poema digo ‘eu’ refiro-me a uma personagem que criei para esse poema, uma personagem, digamos, romanesca. Aliás, neste último livro, há uma personagem (aliás, duas: o peregrino chorão e uma rua, a Duarte Belo à Bica) que é uma construção de um anti-turista que se desdobra num intenso monólogo dramático sobre as suas explosões interiores, intensamente ficcionais. É um psicodrama interior de alguém que se passeia como uma câmara pela cidade.

Isso de viver fora do centro ajudou-o a criar uma voz dissonante, ou mesmo “anacrónica” como lhe chama?
O centro é local? Eu digo isto porque é normal em Portugal, um país realmente pequeno que chuta pessoas que não pertencem à sua cidade-estado, assistir-se a um ostracismo absolutamente incompreensível num país civilizado, coisa que Portugal certamente não é. Entendendo a pergunta como referindo-se a uma escola, diria que não me matriculei em nenhuma escola de gosto. E talvez daí resulte, desse facto de cultivar gostos algo quaint, uma dificuldade em localizar geo-esteticamente a minha poesia.

Disse na mesma entrevista a António Guerreiro que “os chamados leitores de poesia são, não poucas vezes, leitores rancorosos, senão reacionários, que alienam preventivamente aqueles por quem julgam poderem vir a ser alienados “. Não crê que os poetas se limitam a si mesmos pelo encontro com esses leitores ou mesmo porque acreditam que a sua função é expressarem o “Zeitgeist” (espírito do tempo) quando, pelo contrário, a poesia deveria ser suficientemente subversiva para destruir sempre esse “Zeitgeist”?
É exatamente isso o que penso, não por uma questão necessariamente de programa, mas porque quero falar e escrever aquilo que bem entendo, independentemente de uma política de recepção. Se estiver a pensar nisso, serei mais um e teria pouco a dizer, de qualquer maneira. Não sou propriamente um almocreve da palavra nem vejo vantagens em sê-lo. Já escrever, em si mesmo, me parece uma atividade cada vez mais inconsequente.

Porquê?
Porque pouco se recolhe da poesia. Porque há cada vez menos pessoas a frequentá-la, mas antes em atividades diletantes da poesia como evasão. A poesia não é evasão.

Publica livros há vinte anos, já recebeu vários prémios mas diz como o poeta americano John Ashbery: “Por um lado sou um dos escritores mais conceituados e lidos da atualidade, por outro ninguém me compreende”.
John Ashbery procurava dar conta de uma estupefação que eu compreendo. Ele procurava entender este nó górdio que fazia com que um poeta largamente cifrado acabasse por ser, paradoxalmente, tão acarinhado por um certo público. Talvez as pessoas gostem de enigmas e de quebra-cabeças. Nesse sentido, Canícula é idêntico a si próprio. É uma voz única de um tempo único que assim fica registado e é tão plural quanto as nossas disposições para o receber. Ouvir “Visions of Johanna” [Bob Dylan] é certamente diferente de cada vez que a ouço, na medida em que a minha experiência de mim é irrepetível e irrepetível o canal da apreciação estética que é cumulativo com o da experiência pessoal e pontual. É como um canal que dá para duas funções ao mesmo tempo. E assim se passa com quem produz uma obra de arte. A sua intimidade é uma no momento da sua criação e outra nos vários momentos subsequentes. Tal como as minhas visões de Johanna são umas no momento em que as tenho e as escrevo e outras quando a Johanna e eu somos mais velhos. De todas as vezes que eu volto à Johanna a minha apreciação de Johanna se modifica, digamos assim.

Essas figuras longínquas que evoca nos seus livros, não só em Canícula, mas em todos eles, esses desertos, pastores, cabras, esse tempo anterior à fundação das civilizações, onde a palavra e o corpo não estavam separadas, gastas, sem qualquer força ética que ligue os Homens… essas gentes, essas paisagens, onde as vai buscar?
Há aquela piada do dinossauro-filho que pergunta ao dinossauro-pai se Deus existe. O pai responde-lhe “Ainda não”. Eu procuro de certa maneira um tempo anterior a certas experiência e palavras, procuro ser criador, aliás um desiderato comum a todos os criadores, não é nada de novo. Esse movimento deve ser à uma revolucionário e primordial. A natureza é muito cruel mas, por outro lado, oferece a busca pelo não humanizado. A minha linguagem procura humanizar o sublime, por assim dizer, sem que o torne necessariamente prosaico. A minha teoria, a existir, assenta em, como Yeats, querer ir a Innisfree, ver-me livre da ganga do que há e fazer mel e criar uma melodia nova. Mas não é preciso ir para o campo para se viver nele.

Este livro está cheio de subtis evocações de lugares, poetas, músicas, palavras que juntam o que parecia impossível juntar, limpo de sentimentalismo, de nomes. Não precisa de nomear Fernando Pessoa ou Cesário Verde para o leitor os encontrar algures por aquela Lisboa tornada cidade sem tempo cronológico e sem espaço geográfico. É um lugar onde todos os tempos se fundem abolindo o próprio tempo.
Quis fazer um livro verdadeiramente lisboeta, toponimicamente preciso. A rua Duarte Belo é uma personagem, como disse (rua recentemente votada, e muito justamente, uma das mais bonitas ruas do mundo), mas procurei que aquele anti-turista não autóctone passasse por uma espécie de novo heterónimo de Pessoa. Que nova personagem seria essa? Não segui isso até à loucura, mas entendi que podia ser um bom mote para o que estava a fazer. Com uma palavra de cautela: esse programa é totalmente posterior. Só pensei nisso depois de fazer o que fiz. Provavelmente essa personagem é uma infusão de vários estados ficcionais. Uma presença muito forte e várias vezes aludida é a história de Isaque e Abraão, concretamente o episódio que mais me dececiona em toda a Bíblia, quando aquele patriarca severo leva o seu pobre filho monte acima para ser sacrificado. Ainda por cima, para cúmulo, obriga-o a transportar a lenha que servirá de escabelo para o seu próprio auto de fé! Essa história está, aliás, admiravelmente reconfigurada na Story of Isaac de Leonard Cohen. Especialmente nas observações miúdas do pequeno Isaque, ao observar a dimensão assustadora das árvores e da geografia em geral.

Canícula é uma obra de uma enorme solidão. Sísifo em Lisboa subindo e descendo as colinas em plena canícula sem encontrar nenhuma estoica felicidade. E tantas vezes ele sobe à Bica e tantas vezes ele faz o gesto de vergar o corpo para a frente, seja numa numa varanda, numa vénia, numa dor, seja sob um peso qualquer da alma. Um Sisifo que poderia ser mais um heterónimo de Pessoa tendo por única companhia um cão e muitas figuras que não chegam a ser gente, apenas contornos difusos, que não podemos fixar numa imagem reconhecível…
Ainda bem que tal solidão ressalta do quadro geral. Ela é necessária para o meu programa de um homem só, desse Sísifo em Lisboa. O não-diálogo com a realidade, ou a estranheza da realidade circundante é absolutamente crucial para o meu ponto. Quer dizer que a linguagem disponível não comunica com esta minha personagem. Ela precisa de desenvolver uma linguagem nova, ou pelo menos a que encontra ao seu alcance não reverbera na caixa de ressonância material da realidade. E nessa circunstância vê-se na pele de turista, ainda que um turista natural. O cão, que aqui é uma espécie de animal de companhia que acompanha um herói (todo o Tintim tem o seu Milu), é a projeção mutilada da estrela Cão (Canícula) e do cio discursivo que perpassa todo o livro. A palavra ‘Canícula’, para além de cachorro, designa também uma pequena cana, por extensão o cálamo, a caneta… Esta polissemia alude, entretanto, às pernas delgadas e convalescentes do seu autor…

Quero a fanfarra dos simples, o augusto coreto das sombras!
Onde estou que não me encontro?
Eu tenho uma fome assassina, de descarnar os cabos
das costelas, de estraçalhar milagres biológicos,
a existência miserável de seres que antes eram vivos
e agora enfeitam o cemitério do meu prato.
Esta afluência ao restaurante põe-me doido!
Este querer comer como eu quero este querer cuspir como eu
quero”
(Canícula, pag.48)

“Canícula”: habitar poeticamente a cidade

Depois de ter estado na capital no verão passado numa residência artística promovida pelo Festival Silêncio, Jonas, regressou para apresentar o livro que resultou dessas duas semanas: Canícula ou, nas palavras do seu editor Diogo Vaz Pinto, “um salto imprescindível na poesia portuguesa”.
Mas esse “salto”, que quem vem acompanhando os livros que Jonas publicou nos últimos anos já pressentia, quer pela teimosia com que escreve sabendo que é o poema que escolhe os seus leitores, pela construção de um universo que não é figurativo, que rejeita corajosamente a prerrogativas do discurso lógico, realista, as fórmulas gastas da meta-poesia, a luta por ter uma identidade reconhecível que mais não é do que uma mendicância por reconhecimento. aqui usam-se palavras caídas em desuso, criam-se pontes sonoras dentro para dar uma continuidade musical ao poema como fazia Camões ou os poetas trovadorescos. Uma musicalidade que só se pode saborear convenientemente lendo alto e que está assinalada nas paginas do livro por dois símbolos hebraicos, o “selah” que significa: respiremos ou pausa. Isto diz-nos também que Canícula é um poema continuo, um canto longo onde se volta como Daniel volta a Dylan e às “Visions of Johanna”.
Bisonte publicado em 2016 depois de o autor ter ganho
 o prémio de Poesia Teixeira de Pascoaes

Canícula não é uma habitação fácil de entrar, não é um lugar de acolhimento mas de agonismo, não se oferece como espetáculo ao flaneur. Tal como o habitante da casa, no poema que abre o livro, temos sentimentos frios, sentimos a omnipresença de uma ameaça que vem das paredes, ou da própria cidade. As portas não são fáceis de abrir nesta poesia que exige confronto e superação, quer pelos anacronismos, quer pela forma como anula o Tempo e destrói a geometria do Espaço. Para entrar neste livro não basta nomear Lisboa para se achar num espaço familiar, porque aqui nada é familiar mas sim “uncanny”, de uma inquietante estranheza que nos coloca dentro de uma cidade atual e milenar, anterior a tudo, uma cidade que recusa o romantismo melancólico de Baudelaire e prefere, como Hölderlin, “habitar poeticamente o mundo” apesar das contingências urbanas, da resistência dos materiais e dos corpos e da própria linguagem.
Há muito para não dizer sobre as cidades no tanto que já foi dito sobre elas. A originalidade de Daniel Jonas consiste em abandonar o lugar de espectador para Ser a própria cidade aqui transfigurada numa espécie de Sísifo constantemente vergada sob o calor, o peso. Cidade onde confluem eras, vestígios de glória e impotência humanas, de profetas e desertos e pastores de cabras, de pegadas deixadas num chão um dia mole, de caçadores antropófagos escondidos na esquina de um prédio. Idades extintas, experiências perdidas, visões imperecíveis que a modernidade e as suas máquinas não destroem, ligações que as perceções superficiais do quotidiano não identificam e que constituem uma outra linguagem no interior da linguagem. Daniel Jonas faz essa arqueologia dentro da linguagem para encontrar não as palavras mais transparentes mas as mais densas. As que estão, como a vida, opacificadas por conterem cadeias de significado, reminiscências, semelhanças, analogias. Cada palavra tem uma história etimológica que explode no poema, que resgata mundos perdidos, induz a regressões ou a saltos futuristas. A cidade de Canícula é um caleidoscópio que se pode girar infinitamente para nunca se sair do mistério da poesia.
Esta casa sarcófago, lápide, avalanche,
erosão de vida, buraco branco na explosão de coisa nenhuma,
corrosão infecta, enfermaria, anestésica
do que eu fosse e me curasse,
choque estelar e cósmica comédia de silêncio.
O grito! O grito! O grotto! O grotto!
A brancura hesitando na cama de rede do delírio,
escorrendo pelos ângulos da tarde
como uma marioneta ganhando vida de loucura,
térmites que eu vejo e não disseco, lacraus pulmonares
que me brotam das ideias e eu trem
e eu amo sem parceiro que invada
numa paragem de autocarro que eu passeio
na minha espera lenta de anteontem!”
(Canícula, pag.11)
Joana Emídio Marques, "Daniel Jonas, o antiquado que é o mais alto da poesia portuguesa" in Observador, 2017-04-20,
 http://observador.pt/2017/04/20/daniel-jonas-o-antiquado-que-e-o-mais-alto-da-poesia-portuguesa/ 

sexta-feira, 10 de novembro de 2017

O mar jaz; gemem em segredo os ventos (Ricardo Reis)

Ego Rodriguez, Neptuno


III - O MAR JAZ; GEMEM EM SEGREDO OS VENTOS [1]
O mar jaz; gemem em segredo os ventos
                Em Éolo cativos;
Só com as pontas do tridente as vastas
                Águas franze Neptuno;
E a praia é alva e cheia de pequenos
                Brilhos sob o sol claro.
Inutilmente parecemos grandes.
                Nada, no alheio mundo,
Nossa vista grandeza reconhece
                Ou com razão nos serve.
Se aqui de um manso mar meu fundo indício
                Três ondas o apagam,
Que me fará o mar que na atra praia
                Ecoa de Saturno?
6-10-1914
Odes de Ricardo Reis . Fernando Pessoa. (Notas de João Gaspar Simões e Luiz de Montalvor.) Lisboa: Ática, 1946 (imp.1994). 
 - 50.
1ª publ. in Atena , nº 1. Lisboa: Out. 1924.
http://arquivopessoa.net/textos/2938



Esta ode é porventura uma das odes mais clássicas, em forma e conteúdo, de Ricardo Reis.
Aparentemente de difícil análise, deve ser lida cuidadosamente, revelando-se então em toda a sua real simplicidade.
O tema desta ode é a grandeza do mundo face à pequenez do homem. Reis aproveita este tema e desenha uma belíssima imagem poética (porventura ao nível dos poemas mais belos e requintados de toda a obra de Fernando Pessoa). Como faz veremos de seguida, tentando deslindar cuidadosamente o lindo rendilhado que ele construiu.
Imaginemos um mar parado. “O mar jaz”, ou seja, o mar está quieto perante a presença do poeta. Os ventos que normalmente sopram, “gemem em segredo (...) em Eolos cativos”, ou seja, estão presos por Eolos (deus do vento) e não sopram.
Como o vento está calmo, quase não existe, a superfície da água está quieta. Reis constrói uma metáfora para que melhor compreendamos essa quietude, quando nos diz que apenas as “pontas do tridente” de Neptuno frazem “as vastas águas” – Neptuno, rei dos mares não perturba as águas com o seu tridente.
Esta quietude é reforçada depois com a imagem da praia branca (alva) que brilha ao sol claro. Passa também, embora  subrepticiamente, a noção de que ninguém está naquela praia, que a quietude é sinónimo de solidão, de individualidade. O que está quieto e o que está são equiparados.
Para quê?
Para que Reis opere uma comparação posterior. É o quieto, só, que se compara ao que não é quieto e só.
É ao definir um modelo fixo (neste caso de solidão) que Reis melhor passa a hipérbole de exagerar essa solidão ao máximo – comparando-a com o seu extremo oposto.
“Inutilmente parecemos grandes”, começa por dizer. É a ilusão da grandeza que melhor caracteriza a atitude humana, num mundo que, por outro lado lhe parece alheio. Este mundo alheio é o mundo que é estranho à vontade humana de mudança – um  mundo que não pode ser mudado ou dominado pelo homem (é um mundo em que governa o Destino).
“Nada, no alheio mundo, / Nossa vista grandeza reconhece / Ou com razão nos serve.” – Reis continua reforçando a atitude humana, de superioridade, mas que é ao mesmo tempo uma atitude ilusória.
Qual é verdadeiramente a realidade?
“Se aqui de um manso mar meu fundo indício / Três ondas o apagam, / Que me fará o mar que na atra praia / Ecoa de Saturno?” – a verdade é que os homens não deixam a sua marca no mundo, por muito que pensem o contrário. O “fundo indício” deixado por Reis, a sua marca, logo é apagada por três ondas breves. E se é assim, o que acontecer| “na outra praia”?
Que outra praia é esta?
É a praia onde o “mar (...) ecoa de Saturno”. É o mar do tempo (ver a ode “Antes de nós mesmos arvoredos…”), o mar de Cronos – o  deus  do tempo que devora os seus próprios filhos – a água que corre e que se escoa num relógio liquido, ampulheta divina que conta as gotas que constituem as curtas vidas humanas.
Como vemos, a complexidade escondia uma simples mensagem: de que o homem deve assumir a sua pequenez, porque mesmo que acredite no  contrário, a sua ilusão, como a sua presença, desaparecerá com as ondas do mar do tempo.

À Distância de um Horizonte. Uma análise das “odes” de Ricardo Reis, Nuno Hipólito, 2007-2010. URL: http://www.umfernandopessoa.com/uploads/1/6/1/3/16136746/a-distancia-de-um-horizonte.pdf


AEOLUS, https://jonathanvair.deviantart.com/art/Aeolus-290213323, 13-03-2012


O MAR JAZ. GEMEM EM SEGREDO OS VENTOS [2]
O mar jaz. Gemem em segredo os ventos
Em Éolo cativos,
Apenas com as pontas do tridente
Franze as águas Neptuno,
E a praia é alva e cheia de pequenos
Brilhos sob o sol claro.
Eu quisera, Neera, que o momento,
Que ora vemos, tivesse
O sentido preciso de uma frase
Visível nalgum livro.
Assim verias que certeza a minha
Quando sem te olhar digo
Que as cousas são o diálogo que os deuses
Brincam tendo connosco.
Se esta breve ciência te coubesse,
Nunca mais julgarias
Ou solene ou ligeira a clara vida,
Mas nem leve nem grave,
Nem falsa ou certa, mas assim, divina
E plácida, e mais nada.
6-10-1914
Odes de Ricardo Reis . Fernando Pessoa. (Notas de João Gaspar Simões e Luiz de Montalvor.) Lisboa: Ática, 1946 (imp.1994). 
 - 186.
http://arquivopessoa.net/textos/435

segunda-feira, 6 de novembro de 2017

A Estranha Ordem das Coisas, António Damásio

ENTREVISTA A ANTÓNIO DAMÁSIO




"Quando me perguntam qual é o maior cientista de sempre, respondo: na minha área, é Shakespeare"


Cada vez mais biólogo e menos neurocientista, António Damásio insiste nas humanidades para formar homens e cientistas. No seu mais recente livro dá primazia aos sentimentos como formadores de consciência e motor da ciência, e refere a necessidade de um pacto global sobre educação.


ISABEL LUCAS,  2017-11-05

O que leva um estudante a levantar a mão quando o professor lhe fala de um tema que o intimida? Como reagirão as gerações que cresceram com as redes sociais, quando precisarem de tempo, mais tempo, do que o imediato? Estamos a viver uma crise na actual condição humana diz António Damásio no seu mais recente livro, A Estranha Ordem das Coisas, que dá prioridade aos sentimentos. Na vida, na ciência, na cultura. Horas depois de aterrar em Lisboa não esconde a emoção perante a edição portuguesa da Temas e Debates. Sorri. Pega no livro de quase 400 páginas, olha a contracapa e retrai a vontade imediata de ver tudo ali. Mais tarde confessará que é um chato com o português. Escreve em inglês, pensa em inglês, mas o português é a sua língua. Quando, ao longo da conversa, na oralidade, lhe sai um vocábulo em inglês trata de arranjar a tradução certa, sobretudo se for para descrever um sentimento. É que são os sentimentos o que está antes de tudo no livro que dedica à sua mulher, Hanna Damásio, e na conversa onde haverá de dizer, já desligado o gravador, que também fala alemão e namora em italiano. "É a língua do amor", refere. Como aprendeu? "A ouvir as óperas de Verdi." 


Começa este livro, que vem na continuidade dos anteriores, por esclarecer o que chama de uma “ideia simples”, “como usamos os sentimentos para construir a nossa personalidade”. Peço-lhe que descreva, brevemente, o protagonista deste A Estranha Ordem das Coisas, os sentimentos?

Há a realidade científica daquilo que penso que são os sentimentos, mas há também uma mais alargada ligada a um tema que estamos [com a mulher, Hanna Damásio] a tratar por estes dias para uma conferência sobre ética. Parte dos sentimentos que temos como experiência têm a ver com as coisas mais valiosas da nossa vida; com todas as coisas sobre as quais podemos ter uma valência, as que verdadeiramente contam: vida, doença, dor, sofrimento, morte, desejo, amor, cuidado com o outros [to care]. E, ao mesmo tempo, crimes, medos, raivas, ódios, que têm a ver com o contrário das boas coisas da vida e que podem levar à perda [da vida], e, se não à perda da vida, ao sofrimento. Praticamente todas as coisas que governam ou desgovernam a nossa vida são normalmente transmitidas por uma valência de bom ou mau; de agradável ou desagradável, de recompensa ou punição. São essas que constituem o grande personagem dos sentimentos. Os sentimentos são representações do estado da nossa vida, mas representações qualificadas. Um dos problemas que mais me inquietam é essa impossibilidade que as pessoas têm tido de perceber que a inteligência – ou a nossa mente – vai só até um certo ponto e a partir daí tem de ter uma qualificação. Essa qualificação aparece em termos de agradável ou desagradável, de bom ou de mau, e é isso que faz a grande distinção entre a inteligência humana no sentido mais completo e a mente humana. À inteligência artificial, por exemplo, falta isso. Infelizmente as pessoas não se têm dado conta. Sou um adepto de inteligência artificial e tudo o que esse campo de tecnologia e de ciência nos tem trazido, mas é pena que poucas pessoas dentro desse mundo tenham compreendido que a inteligência artificial tal como é compreendida é uma pálida ideia daquilo que é a inteligência humana no seu real.  

Ou seja, o humano, muito por via dos sentimentos, não pode ser replicado artificialmente.

De certeza que não pode ser nem simulado! Há uma grande diferença entre simulação e duplicação. O que a inteligência artificial faz, e muito bem, é uma simulação, e com capacidades extraordinárias, muito superiores àquelas que temos. A capacidade de inteligência no sentido mais directo e algorítmico que temos hoje em dia em matéria de memória, de estratégias de raciocínio é extraordinária. Faltam é essas outras qualidades que temos na nossa inteligência e que são absolutamente necessárias e extremamente realistas, porque têm a ver com aquilo que a vida é. Enquanto a vida concebida no sentido da inteligência artificial não tem nada a ver com aquilo que a vida é. A vida é outra coisa.

E o que é a vida?

É uma coisa venerável, confusa, efusiva. A grande arte dá-nos isso e a grande literatura dá isso extraordinariamente. Quando não se inclui essa componente de confusão, efusividade, aquilo que pode ser qualificável de bom ou de mau, perde-se uma grande parte do que é a vida. Por isso, e para acrescentar uma nota à sua pergunta anterior, os sentimentos como personagem são as representações, aquilo que está na nossa experiência mental quando estamos a viver uma vida real. E ao mesmo tempo uma forma de nos alertarem para aquilo que está a correr bem ou mal no sentido mais amplo do termo: a vida dentro de um organismo. Um organismo vivo, que tem bons momentos e maus momentos, que tem todas as variações e flutuações que vêm do seu metabolismo e que, porque tem mente e tem consciência – que é uma coisa que nós temos e as bactérias não – vai poder ter acesso a esse relato daquilo que está a correr bem ou mal. 

No livro, fala da consciência da morte como definidor dessa humanidade, o sentimento de fim, que faz com que o homem encare a dor de outra maneira. A consciência da finitude é, desse modo, formadora não apenas de uma maneira de estar socialmente, como também criadora de uma linguagem. Como é que se transpõe esse saber da morte, muito vezes olhado como transcendência, para a ciência e muito concretamente para a biologia?  

Tem sido difícil tratar essa questão. Uma das grandes barreiras é que a ciência, com a sua natural preocupação com a objectividade, teve enorme dificuldade em aceitar coisas que parecem extremamente subjectivas e confusas, com muitas variações, que é difícil de agarrar no sentido mais objectivo do termo. O facto de que os sentimentos são naturalmente subjectivos.

Isso tem sido matéria dos seus livros.

Sim, ando há 20 anos a explicar que sentimentos não são emoções. Mas é extraordinária a resistência. As coisas espantosas que dizem... falam de hearts and minds! Esperem um pouco: hearts and minds? O coração é a emoção, mas querem mesmo dizer coração? E querem mesmo dizer mente sem coração? As confusões são extraordinárias. Mas talvez o ponto mais importante é que as emoções são públicas. Quando está contente e se ri, ou quando está triste, quando está irritada tudo isso aparece na sua máscara. Aparece no rosto e no corpo. Quando se sente irritada ou triste ou alegre isso aparece unicamente em si. Você é a única pessoa que tem acesso a essa informação no sentido real. É uma experiência privada. Você pode simular a representação pública, mas essa distinção explica em grande parte porque é que as pessoas estão muito mais confortáveis quando falam de emoção: porque é público, porque é observável, enquanto os sentimentos têm de ser observáveis por dentro. Mas não estão de forma alguma fora do campo da ciência. É possível a cada um de nós fazer as observações, fazer o resumo dessas observações que é um campo científico e filosófico a que se chama fenomenologia. Portanto, temos a possibilidade de fazer as nossas próprias observações, partilhá-las com os outros, fazer comparações e fazer descrições o mais completas possível. Não há qualquer limitação do ponto de vista científico. Não há limitação da objectividade com que se pode estudar a subjectividade. E é isso que as pessoas não compreendem. 

Sintetizando, fala de sentimentos e consciência, de emoções, de sensações.

Três coisas diferentes. Sensação é o que permite detectar a presença de um estímulo – e que as bactérias e as plantas também têm – e que gera uma resposta. Depois há certas respostas mais complexas. Em organismos simples, se tocar na criatura ela retrai-se. É a mesma reacção que terá se alguém a assustar, uma reacção emocional. Há reacções conservadas ao longo de biliões de anos e que são emocionais, reacções de movimento. O centro da palavra emotion é motion. Se alguém lhe perguntar a diferença entre emoção e sentimento agarre-se à palavra motion; o movimento está do lado das emoções e se está do lado das emoções está-se do lado daquilo que é visível para os outros. Sensação, no seu básico, não tem nada a ver com a emoção propriamente dita. A emoção é uma reposta complexa de movimento em relação a um estímulo que foi sentido e depois há o sentimento, que é a experiência mental daquilo que se passou no organismo quando houve sensação e emoção. São três graus. Um é extremamente simples, outro já é mais complexo, em que há uma resposta, e ainda um outro em que há o apreender consciente e mental daquilo que foi a resposta e que se passou no organismo. São mundos diferentes.

Podemos dizer que estamos no campo da subjectividade. É isso que o estimula do ponto de vista científico?

Sim, é extremamente importante. O que eu quero é dar objectividade científica àquilo que é uma coisa subjectiva, que é no fundo a definição da consciência. Grande parte do problema da consciência é o problema da subjectividade. É por isso, aliás, que é tão extraordinariamente difícil de perceber; é por isso que as pessoas têm enormes conflitos e desacordos sobre o que é a consciência. Cada vez mais estou absolutamente convencido que não é possível distinguir tecnicamente sentimento e consciência. O sentimento, muito possivelmente, foi o princípio da consciência do ponto de vista evolutivo. O sentimento com a sua natural subjectividade e tudo isso se estendeu a outras subjectividades: subjectividade do que está no exterior – eu tenho subjectividade em relação a si neste momento, mas também tenho subjectividade em relação ao meu interior. Por exemplo, sei neste momento que estou um bocado cansado, fiz uma viagem de 15 horas e estou fora da hora em que deveria estar. Tenho essa subjectividade. E tenho a subjectividade em relação a si, às paredes desta sala, ao que estou a ouvir atrás de mim. O que temos é uma grande possibilidade, muito rica, de juntar subjectividades dentro da nossa mente. A nossa mente é toda feita de subjectividades. 

Esse é também o campo da arte.

Sim. E eu sou um apaixonado da literatura. A literatura é o modo mais rico, de todos os que temos, de entrar dentro da subjectividade de outra pessoa e de nos fazer perceber o que pode ser a outra pessoa, muito mais do que o cinema, do que o teatro, porque a situação em que estamos a ler é... devemos estar sozinhos e com um texto que podemos parar a qualquer altura. Pode ler um parágrafo e parar e pensar e retomar e reler. Não pode fazer isso com um filme a não ser que estrague tudo. Tecnicamente pode, mas ninguém vê um filme dessa maneira. A parte da experiência de ver um filme é vê-lo na continuidade de um determinado período de tempo.  

Como cientista, a literatura pode ser-lhe útil – pese a ambiguidade da palavra – neste estudo?  

Absolutamente. Tudo é útil, umas coisas mais do que outras, mas a literatura é extraordinariamente útil porque é uma entrada muito rica na mente, uma entrada que utiliza a vida subjectiva, os sentimentos. É muito curioso, quando se olha para as humanidades de uma forma geral, e para as artes vê-se como têm sido laboratórios de estudos. As pessoas não se aperceberam ainda de que uma boa parte do que se passa no mundo da grande arte é uma espécie de prefácio para o estudo científico dos seres humanos. Quando não havia uma estrutura laboratorial científica, as pessoas já estavam a...

Elaborar?

A elaborar. E a literatura tem sido um grande contributo. Quando me perguntam qual é o maior cientista de sempre respondo: na minha área, é Shakespeare. 

Está lá tudo? 

Praticamente tudo. Pelo menos esboçado. O que se tem é de desenvolver. Quer sejam as peças históricas, as tragédias ou as comédias, a própria poesia. Praticamente tudo aquilo que interessa, todos os grandes temas, estão lá. Entre as milhares de coisas que gostaria de escrever – se calhar não terei tempo –, seria fazer qualquer coisa com a neurociência ou a neurobiologia cognitiva vistas através do Hamlet e do Otelo. O Hamlet é praticamente suficiente. É tão rico e está tão cheio daquilo que conta... E talvez meter o Falstaff pelo meio para ficar mais completo.[risos]

Um dos capítulos do livro é sobre a crise do actual, “a actual condição humana”. Escreve: “Considerar os nossos dias como sendo os melhores de sempre seria preciso que estivéssemos muito distraídos”. Esta “crise” também é causa de uma certa resistência de parte de muitos cientistas em incluir as humanidades nas suas investigações?

A resposta é que há essa resistência, mas não da parte de todos. Há também quem adopte, quem veja o valor, o interesse, muitas vezes talvez porque na sua própria vida pessoal percebem que é importante e acabam por ser seduzidos por essas possibilidades. Se as pessoas trabalham em áreas muito microscópicas daquilo que é a ciência, mesmo que seja ciência humana, é mais difícil fazer a passagem directa. E não é uma coisa que se deva sequer criticar. É perfeitamente compreensível. Mas certas pessoas da minha geração, e até de algumas gerações a seguir, têm um enorme apreço pelas humanidades dentro da ciência. Não se devem fazer generalizações, mas é verdade que tem havido uma certa resistência e também alguma resistência militante. Em certas áreas, quando pessoas das humanidades olham para o contributo da teoria da evolução ou da genética... há tantos erros, tanta complicação, por exemplo a forma como parte desses conhecimentos levou a teorias sobre os seres humanos, da eugenia até aos extremos piores da exploração racista. Claro que há razões para as pessoas terem tido durante algum tempo uma certa rejeição e depois muitas vezes também têm o pavor do reducionismo. É um grande pavor também da parte das humanidades e, portanto, rejeitam que a ciência possa trazer alguma coisa de tão importante como aquilo que as humanidades têm trazido em matéria de compreender o que são os seres humanos. 

Neste livro levanta duas ou três vezes esse problema...

Porque eu não tenho qualquer espécie de desejo de reduzir aquilo que são os seres humanos no seu mais sublime à ciência abstracta. Pelo contrário. Aquilo que acho, e cada vez acho mais e neste livro é a primeira vez que me apercebo, é isto: quando se ligam sentimentos à cultura, por um lado, e sentimentos à homeostasia e aos princípios da vida, o que estamos a fazer é a enriquecer a ligação entre a cultura e a vida. Ao contrário de reduzir, estamos a aumentar, a fazer com que esse fio seja mais visível. 

A palavra homeostasia cruza todo o livro. Ela é completamente definidora do que é o humano? 

É completamente definidora do que é um ser vivo.O ser humano precisa de ter não só os imperativos da homeostasia nos seus aspectos mais complexos, mas também desenvolvimentos que vêm com a multicelularidade, o aparecimento dos sistemas nervosos e depois o extraordinário desenvolvimento da capacidade dos sentimentos, consciência de mente com imagens... 

Sobre a capacidade de criar imagens, escreve que “todas as imagens do mundo exterior são processadas de forma paralela às reações afectivas... ", e depois apela a um exercício: “pensemos na maravilha alcançada pelo nosso cérebro ao lidar com imagens de tantas variedades sensoriais, de origem externa e interna, ao ser capaz de as transformar nos filmes da nossa mente. Em comparação, a montagem de um filme é uma simples brincadeira.” 

Exacto. Mas faço essencialmente uma abordagem crítica. Quando no início de tudo me falou da genealogia deste livro, há vários temas que venho a tratar há muitos anos, mas que agora me parecem, alguns, perfeitamente claros, e em que também tenho a coragem de dizer exactamente aquilo que penso sem estar com rodeios por poder ofender alguém que achasse que era pateta e novo de mais para estar a dizer coisas. Agora já posso dizer tudo o que me apetece. 

Pode-se dizer que os sentimentos são fundadores da ciência? 

Possivelmente são. São pelo menos motivadores. Neste livro há três papéis que dou aos sentimentos, ou ao afecto em geral. Primeiro, motivadores, depois monitores e depois negociadores. Os sentimentos intervêm nesses três pontos. São coisas diferentes. Uma é motivar, outra é a monitorização e a outra é a negociação de quando as coisas correm mal ou bem de mais. Há constantemente ajustes. Há pessoas que perante dois advogados a discutirem um contrato ou dois políticos a discutirem um tratado são capazes de pensar que isso está a acontecer num plano puramente intelectual; não está. Acontece num plano intelectual e acontece com toda a miríade de alterações que têm a ver com a forma como uma das pessoas apresenta o argumento e como a outra o recebe. Tudo isso é uma negociação que está a ser feita não só num plano de conhecimento e razão, coisas que se podem dizer objectivas e frias, mas também nesse outro plano que tem a ver com a forma como a negociação está a correr do ponto de vista afectivo. Essa é a realidade. Tem o exemplo espectacular do que se tem estado a passar nestes últimos dois anos com movimentos de populismo, de racismo em toda a parte. Muitas vezes, a forma como esses problemas são apresentados gera reacções de zanga e protesto puramente emocionais. Uma das coisas extraordinariamente curiosas é que quando as pessoas falam de emoções falam quase sempre do ponto de vista negativo das emoções. Muitas vezes acham que há o lado objectivo, o do bom raciocínio, e depois as emoções, más, que tornam as coisas irracionais. É um disparate completo, porque é limitar o âmbito das emoções ao negativo. Há emoções muito positivas; ter compaixão, gratidão, desejo de ajudar, cooperar. O amor! o desejo pelo amante, o amor pela criança que se está a criar. 

É desse preconceito que vem a distinção entre inteligência e inteligência emocional?

Sim. As emoções muitas vezes ajudam a tomar a decisão e muitas vezes trazem o conhecimento, o discernimento, o destilar de uma série de conhecimentos que temos, uma vez que foram aplicados e qualificados. A intuição é uma maneira de fazer linha recta para a solução do problema sem andar por todas as fases intermédias. Essa intuição vem de uma forma emocional. Tudo isto tem imensa graça. As pessoas que descobriram o big data falam de como um grupo de computadores pode ler uma enorme quantidade de dados e tirar uma conclusão extremamente nova, verificando que aquilo é o que se deve fazer. Mas isso que o computador está a fazer é aquilo que a intuição humana faz há milhões de anos. O nosso cérebro é um big data system que tem imenso conhecimento do que é a nossa vida interior fisiológica e sobre o que é, e tem sido, a nossa vida em geral. E esse big data system está constantemente a dar-nos um dado institucional que é extremamente importante para a nossa vida. Tudo isso vem do lado das emoções e faz parte do que se poderia chamar inteligência emocional. Não uso o nome porque não acho que haja uma inteligência emocional e uma não emocional. Há inteligência. 

Começa o capítulo dedicado à crise actual dizendo que nunca tivemos tanta informação nem tanta possibilidade de sermos felizes, mas... E critica os media públicos e o seu modelo lucrativo de negócio, reduzindo a qualidade de informação; questiona o valor de entretenimento aplicado à história jornalística e afirma: "Embora a literacia científica e técnica nunca tenha estado tão desenvolvida, o público dedica muito pouco tempo à leitura de romances ou de poesia, que continuam a ser a forma mais garantida e recompensadora de penetrar na comédia e no drama da existência, e de ter oportunidade de reflectir sobre aquilo que somos ou podemos vir a ser. Ao que parece não há tempo a perder com a questão pouco lucrativa de, pura e simplesmente, ser.” Que cultura é esta que parece rejeitar a criação de pensamento e se fica pela emoção? 

Historicamente, quando se vê o que tem sido a marcha dos seres vivos, há coisas que são previsíveis e outras que não são. E depois há certas coisas que acontecem, em que as pessoas não apreendem nem prevêem as consequências. O que se está a passar, por exemplo com a Internet e as redes sociais, é uma entrada extremamente larga dentro das mentes. É uma coisa que entra dentro de nós e que tem o poder de modificar a forma como pensamos e nos comportamos. 

A sociabilização. 

Exacto. Há uma entrada dentro do que somos do ponto de vista mental a um nível completamente diferente de outras tecnologias. Não é tão somente um telefone. É o telefone e a possibilidade de entrar num mundo de conhecimento de forma imediata. Ter essa informação toda é extraordinário mas o que temos de pensar é o que acontece com as pessoas que só têm vivido com isso e não tiveram a possibilidade de se desenvolver com mais distância em relação ao que se está a passar nessa rapidez de tecnologia. Há também o problema do que vai acontecer quando as pessoas ficarem sem tempo para reflectir sobre o que estão a viver. Vão ter a possibilidade de ter tudo muito rapidamente, a quantidade de informação é enorme e a maneira de resolver os conflitos tem de ser diferente. E vai ser mais complicada porque não há tempo para o discernimento. É possível fazer o contra-argumento: é o problema que temos por sermos de uma geração anterior e não termos crescido com isso, e os cérebros das pessoas que já cresceram com isso estão adaptados. Isso é verdade em parte, mas não quer dizer que essas novas pessoas que cresceram dessa maneira não tenham ao mesmo tempo reduzido a sua possibilidade de olhar para o mundo de uma forma mais calma e mais completa e reflectida. É um problema em aberto, que tem de ser estudado, e não o tem sido porque tudo está a acontecer agora.  

Usa as expressões “bancarrota espiritual” e “bancarrota moral” para classificar o que está a acontecer. 

E poderia juntar aqui a trigger warning, que está ligada a tudo isso. Por exemplo, numa aula pode haver uma discussão sobre violência ou sobre sexo e um aluno levanta a mão a dizer trigger warning, i dont feel safe anymore. É uma concepção da vida como se a pessoa pudesse viver protegida de tudo o que não é conveniente e, ao mesmo tempo, ficar sem a possibilidade de perceber o que se está a passar e de se defender inteligentemente. O presidente actual da Universidade de Chicago tem escrito sobre isso e diz que eles rejeitam isso ao abrigo do trigger warning e isso é uma remoção da educação e nós, como universidade, não vamos deixar que os nossos estudantes sejam amputados e fiquem sem a possibilidade de responder inteligentemente às ameaças. Tudo isto são problemas para serem estudados. É relativamente fácil olhar para a situação e reconhecer que o progresso é extraordinário, as possibilidades são magníficas e ao mesmo tempo também temos de reconhecer que precisam de ser estudadas para ver se podem correr melhor. As razões pelas quais as coisas não correm bem serão imensas mas há possibilidades. A questão que referia há pouco, do ser, é tão importante e parte do pressuposto de se conseguir estar consigo próprio e observar a maravilha da existência sem preocupações com aquilo que vem antes ou depois. É uma capacidade unicamente humana. 

Estamos há muito tempo a conversar e pergunto-lhe o que é que isto tudo tem a ver com biologia? 

Há biologia em variadíssimas áreas. A biologia no que diz respeito à nossa violência ancestral. Somos primatas, a nossa herança é a de animais... e trazemos a autodestruição connosco. Falo de Freud e da ideia de auto-destruição. Ele chama a atenção para uma coisa que é muito real  e que as pessoas muitas vezes querem esquecer: a ideia de que somos capazes de violência. E há uma ideia que é consequente a essa e tem a ver com a educação, com o facto de que a única maneira de resolver o problema da nossa violência natural e de como naturalmente as pessoas querem estar com aqueles que são parecidos e não com os diferentes. Tem de haver um plano de educação extraordinário, uma espécie de super-plano de investimento global que não tem sido feito por razões que são também históricas e sociopolíticas. 
O mundo é dividido, depois há uma crise económica, uma crise política que leva a migrações, essas migrações trazem dificuldades e há reacções contra e não há possibilidade de coordenar globalmente um plano educacional. Para mim não é uma ideia mítica, acho possível. Não é possível só com as Nações Unidas. Tem sido possível em certos períodos. Os Estados Unidos, com todos os seus problemas, tiveram uma acção extraordinária no pós-guerra. Há um período que não é de paz completa, em que houve um investimento em reconstruir países e permitir que houvesse um alargamento da educação e da maneira de compreender outros que são diferentes. É uma grande projecto que, em parte, funcionou, tem funcionado, mas que neste momento está a ser ameaçado. 

Já viveu no Iowa, em Chicago, agora vive em Los Angeles. Da sua experiência pessoal, as diferenças acentuaram-se entre esses três mundos geográficos. Há um país muito dividido. Um centro que se sente esquecido e as margens liberais. 

Há muitas semelhanças com as experiências europeias. Nos EUA é uma coisa mais orgânica. Sempre tiveram enormes divisões geográficas. Há uma narrativa histórica que conseguiu compensar e impor um bom funcionamento em conjunto à volta de certos mitos e neste momento há uma fragilidade das relações, há fenómenos económicos extraordinariamente importantes e há uma evolução de tempos diferentes em diversas comunidades. Mas veja a Europa, encontra exactamente os mesmos problemas – que na Europa são muito velhos e um pouco esquecidos. Isso está dentro do que são os seres humanos; os seres humanos a criarem um grupo, uma história com determinados hábitos, determinadas preferências e a forma como aceitam, ou não, que isso possa ser suplantando. 

A entrevista encontra-se publicada no P2, caderno de domingo do PÚBLICO
URL: https://www.publico.pt/2017/11/05/ciencia/entrevista/antonio-damasio-1791116


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O neurocientista António Damásio

NEUROCIÊNCIAS

Sem educação, os homens “vão matar-se uns aos outros”, diz António Damásio

Neurocientista lança novo livro em Portugal.

PÚBLICO - LUSA, 2017-10-31

O neurocientista António Damásio advertiu que “se não houver educação maciça, os seres humanos vão matar-se uns aos outros”. O neurocientista português falava no lançamento do seu novo livro A Estranha Ordem das Coisas, que decorreu esta terça-feira em Lisboa, na Escola Secundária António Damásio, e defendeu perante um auditório cheio que é preciso educarmo-nos para contrariar os nossos instintos mais básicos, que nos impelem a pensar primeiro na nossa sobrevivência.

“O que eu quero é proteger-me a mim, aos meus e à minha família. E os outros que se tramem. [...] É preciso suplantar uma biologia muito forte”, disse o neurocientista, associando este comportamento a situações como as que têm levado a um discurso anti-imigração e à ascensão de partidos neonazis de nacionalismo xenófobo, como os casos recentes da Alemanha e da Áustria. Para António Damásio, a forma de combater estes fenómenos “é educar maciçamente as pessoas para que aceitem os outros”.

A Escola Secundária António Damásio foi o sítio escolhido pelo neurocientista português para lançar em Portugal a sua nova obra, que volta a falar da importância dos sentimentos, como a dor, o sofrimento ou o prazer antecipado.

“Este livro é uma continuação de O Erro de Descartes, 22 anos mais tarde. Em ‘O Erro de Descartes’ havia uma série de direcções que apontavam para este novo livro, mas não tinha dados para o suportar”, explicou António Damásio, referindo-se ao famoso livro que, nos finais da década de 90, veio demonstrar como a ausência de emoções pode prejudicar a racionalidade.

O autor referiu que aquilo que fomos sentindo ao longo de séculos fez de nós o que somos hoje, ou seja, os sentimentos definiram a nossa cultura. António Damásio disse que o que distingue os seres humanos dos restantes animais é a cultura: “Depois da linguagem verbal, há qualquer coisa muito maior que é a grande epopeia cultural que estamos a construir há cem mil anos.”

O neurocientista acredita que o sentimento – que trata como “o elefante que está no meio da sala e de quem ninguém fala” – tem um papel único no aparecimento das culturas. “Os grande motivadores das culturas actuais foram as condições que levaram à dor e ao sofrimento, que levaram as pessoas a ter que fazer alguma coisa que cancelasse a dor e o sofrimento”, acrescentou António Damásio.

“Os sentimentos, aquilo que sentimos, são o resultado de ver uma pessoa que se ama, ou ouvir uma peça musical ou ter um magnífico repasto num restaurante. Todas essas coisas nos provocam emoções e sentimentos. Essa vida emocional e sentimental que temos como pano de fundo da nossa vida são as provocadoras da nossa cultura.”

No novo livro o autor desce ao nível da célula para explicar que até os microrganismos mais básicos se organizam para sobreviverem. Perante uma plateia com centenas de alunos, o investigador lembrou que as bactérias não têm sistema nervoso nem mente mas “sabem que uma outra bactéria é prima, irmã ou que não faz parte da família”.

Perante uma ameaça, como um antibiótico, “as bactérias têm de trabalhar solidariamente”, explicou, acrescentando que, se a maioria das bactérias trabalha em prol do mesmo fim, também há bactérias que não trabalham. “Quando as bactérias (trabalhadoras) se apercebem que há bactérias vira-casaca, viram-lhes as costas”, concluiu o neurocientista, sublinhando que estas reacções são ao nível de algo que possui “uma só célula, não tem mente e não tem uma intenção”, ou seja, “nada disto tem a ver com consciência”.

E é perante esta evidência que o investigador conclui que “há uma colecção de comportamentos – de conflito ou de cooperação – que é a base fundamental e estrutural de vida”.

Durante o lançamento do livro, o investigador usou o exemplo da Catalunha para criticar quem defende que o problema é uma abordagem emocional e não racional: “O problema é ter mais emoções negativas do que positivas, não é ter emoções.”

URL: https://www.publico.pt/2017/10/31/ciencia/noticia/sem-educacao-os-homens-vao-matarse-uns-aos-outros-diz-antonio-damasio-1791034