sábado, 14 de outubro de 2017

ESCADA SEM CORRIMÃO



ESCADA SEM CORRIMÃO

É uma escada em caracol
e que não tem corrimão.
Vai a caminho do Sol
mas nunca passa do chão.

Os degraus, quanto mais altos,
mais estragados estão.
Nem sustos nem sobressaltos
servem sequer de lição.

Quem tem medo não a sobe.
Quem tem sonhos também não.
Há quem chegue a deitar fora
o lastro do coração.

Sobe-se numa corrida.
Correm-se p’rigos em vão.
Adivinhaste: é a vida
a escada sem corrimão.

David Mourão-Ferreira, "Escada sem corrimão", in Antologia Poética [1948-1983]

VOCABULÁRIO:
lastro (verso 12) – peso que se mete no porão de uma embarcação, para lhe aumentar a estabilidade.




QUESTIONÁRIO:
1. Identifica um verso da primeira estrofe que ajude a compreender o comportamento descrito no verso «Quem tem medo não a sobe.» (verso 9). Justifica a tua escolha.
2. Se o nome «chão» (verso 4) for considerado metáfora de «ignorância», como se poderá interpretar o verso «Vai a caminho do Sol» (verso 3)?
3. Explica de que modo os versos «Os degraus, quanto mais altos, / mais estragados estão.» (versos 5 e 6) podem caracterizar o ciclo de vida de um ser humano.
4. Tendo em conta o significado da «escada», no poema, o que nos diz sobre a vida o verso «Sobe-se numa corrida.» (verso 13)?
5. Imagina que, na tua Escola, estão a ser reunidos textos para duas antologias de poesia com os títulos seguintes: I - POESIA COM ENIGMAS; II - POESIA SOBRE O TEMPO. Em qual dessas antologias publicarias o poema «Escada sem corrimão»? Justifica a tua opção, com base na leitura que fizeste desse poema.

GAVE, Exame Nacional n.º 22, 2006, 1.ª chamada. Decreto-Lei n.º 6/2001, de 18 de janeiro, com as alterações introduzidas pelo Decreto-Lei n.º 209/2002, de 17 de outubro

CHAVE DE RESPOSTAS:
1. O verso “É uma escada em caracol” põe em evidência o perigo para quem sobe tal escada, pois a cabeça fica a andar à roda. Ou: O verso “e que não tem corrimão” mostra que a escada é perigosa por falta de apoio. Ou Uma escada que “Vai a caminho do Sol” é uma escada tão íngreme e alta que será difícil subi-la.
2. Significa que há a intenção e o esforço para se sair da “ignorância” e alcançar o conhecimento, apesar do percurso ser difícil.
3. À medida que a vida passa, as condições do ser humano degradam-se e, consequentemente, aumentam as dificuldades para subir os degraus mais altos da escada da vida.
4. O verso indica que a perceção que se tem da vida é que ela passa muito depressa.
5. Publicá-lo-ia na antologia “Poesia com Enigmas”, pois o texto assenta numa metáfora da vida humana, constituindo, assim, um enigma para o leitor decifrar. Ou: Publicá-lo-ia na antologia “Poesia sobre o Tempo”, uma vez que o texto refere a passagem do tempo na vivência do ser humano.
http://www.eidh.eu/exames-13_14/9_ano_portugues/resolucao/2006_1C_SOL.pdf


Sculptural handrail by Art smith Libor Hurda

quarta-feira, 11 de outubro de 2017

CAMÕES - numa mão sempre a espada e noutra a pena

Retrato de Camões pintado em Goa, 1581.

LUÍS DE CAMÕES E «OUTRA COISA»
Por: Frederico Lourenço

Diz-se que, nos remotos anos salazaristas, não se podia dizer em Coimbra que Camões era um poeta maneirista, porque isso daria a entender que ele era amaneirado, o que por sua vez corria o risco de resvalar também para «outra coisa». Quando Vítor Manuel Aguiar e Silva apresentou aqui a sua tese sobre Maneirismo literário na literatura portuguesa (isto antes do 25 de Abril), o catedrático de Literatura Portuguesa avisou-o de que, em relação a Camões, não poderia contar com o seu apoio. Para o antigo catedrático do tempo do salazarismo, Camões definitivamente não era maneirista. Era o cantor da gesta portuguesa, da glória dos Descobrimentos. Ponto final.
No entanto, Camões está longe de ser aquilo que os Ministros da Educação de Salazar quiseram ver nele. A poesia de Camões está cheia de situações que, se virmos o que elas são por baixo da superfície, nos deixam de boca aberta perante o facto de a Inquisição ter autorizado a publicação d' Os Lusíadas.
Hoje fala-se em tons acesos sobre se um homem se pode sentir uma mulher ou se uma mulher se pode sentir um homem. Camões estava muito à frente de tudo isso.
Todos conhecemos o famoso verso do Canto VII d' Os Lusíadas: «numa mão sempre a espada e noutra a pena», com que Camões se descreve a si próprio.
A maior parte da pessoas pensa: ah, pois! O grande herói da Índia, dos Descobrimentos, do Império! A espada e a pena, as armas e as letras!
Só que não é nada disso. A espada de que fala Camões é outra espada. É a espada dada por um pai à filha para ela se suicidar. Porquê? Porque ela engravidou do próprio irmão.
Leiamos a citação toda: «Qual Cânace que à morte de condena, / Numa mão sempre a espada e noutra a pena».
Tudo está em percebermos quem é esta Cânace, a quem Camões se compara. Ora Cânace é uma figura das «Heróides» do poeta romano Ovídio, muito lido e imitado por Camões em toda a sua obra. Os versos de Camões são uma recriação dos seguintes versos de Ovídio: «na mão direita segura o cálamo; na outra segura a espada impiedosa» (Heróides 11,3).
Com estas palavras, pois, Camões está a colocar-se na pele de:
1) uma mulher;
2) apanhada numa situação tão extrema da sua vida;
3) grávida do próprio irmão;
4) que acaba de receber do pai a espada para se suicidar.
Mas a questão complica-se ainda mais. Temos de ver agora que os versos do Canto VII d' Os Lusíadas retomam, por sua vez, os seguintes versos do Canto V: «numa mão a pena e noutra a lança».
Quem é aqui o alter-ego de Camões? Júlio César. Basta ir ver a estância 96 do Canto V. E não é difícil percebermos que Camões tem gosto em se identificar com a figura de Júlio César, pois também César era um autor de quem se dizia que salvara os seus escritos a nado.
No entanto, este mesmo Júlio César também era referido nas biografias antigas romanas, conhecidas na época de Camões, como homem de todas as mulheres e mulher de todos os homens.
Juntemos a isto o Canto III d' Os Lusíadas, em que Camões se compara a Orfeu, por sua vez explicitamente referido no Canto X das «Metamorfoses» de Ovídio como autor (em latim «auctor») de amores homossexuais.
Dizem que, nas sociedades repressivas como era o Portugal de Camões dominado pela Inquisição, quanto mais inteligentes os textos menos os censores os vão entender. Felizmente, o poema de Camões é tão inteligente que, em 2017, ainda estamos a tentar entendê-lo.

Frederico Lourenço, Coimbra, 2017-10-11
https://www.facebook.com/permalink.php?story_fbid=1929266907323222&id=100007197946343

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PODE TAMBÉM GOSTAR DE LER:
      
            
O ideal de homem virtuoso é, para Camões, o daquele que, como ele, for possuidor de «honesto estudo / Com longa experiência misturado». Camões é o herói humanista d' Os Lusíadas.


            

sábado, 7 de outubro de 2017

It Goes Dark (Elk Eyes)



I thought I knew
What we were made of
'neath the sinners moon
It all slipped away, love
like a story book
On an old book case
It wasn't me
It wasn't you
It was a dream like state

It goes dark
and darker still
Mmm
It goes dark
And darker still
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Mirror, Mirror
Ever clearer
So I step right through
Poisoned apples
Floating candles
A nightmare of you

It goes dark
and darker still
Mmm
It goes dark
And darker still

Oh lordy there's a black cloud comin'
Rain's pouring and the thunder's drummin'
Oh lordy there's a black cloud comin'
Rain's pouring and the thunder's drummin'
Oh lordy there's a black cloud comin'
Rain's pouring and the thunder's drummin'
Oh lordy there's a black cloud comin'
Rain's pouring and the thunder's drummin'

It's dark
And darker still
Oh it goes dark
And darker still

I thought I knew
What we were made of
'neath the sinners moon
It all slipped away, love

http://www.metrolyrics.com/it-goes-dark-lyrics-elk-eyes.html


"It Goes Dark" by Elk Eyes (SONGS writer Danny Burke) was featured in episode #109 of NBC's supernatural drama, Midnight, Texas.  It closes out the episode, playing as Fiji is led into the city of Midnight with ghosts.  The episode aired on September 13, 2017.



sexta-feira, 6 de outubro de 2017

Cartas para um Ladrão de Livros



CARTAS PARA UM LADRÃO DE LIVROS (EX CONFISSÕES DE UM LADRÃO DE LIVROS)

Pense num jovem gay da periferia de São Paulo obcecado por Carmen Miranda que se transformou, segundo a Polícia Federal, no maior ladrão de livros raros do Brasil. Imagine os truques que lhe possibilitaram pilhar as principais bibliotecas do país, à caça de obras encomendadas a peso de ouro por colecionadores milionários. Dimensione a vaidade de um autêntico anti-herói de humor impagável. Visualize seus tórridos casos de amor na penitenciária de Bangu, onde ele também se fartou em jantares nababescos com um improvável colega de pavilhão, o banqueiro Salvatore Cacciola. Laessio Rodrigues de Oliveira é daqueles personagens talhados para provar que a realidade é capaz de superar - de longe - a ficção. As imagens provocativas do parágrafo anterior provam que a montanha-russa de acontecimentos de sua biografia faria corar de inveja até o mais fecundo dos roteiristas. O melhor de tudo é que Laessio é real, de carne e osso, e sua escalada no crime pode ser atestada por matérias jornalísticas, inquéritos policiais e processos judiciais. Só que ele tem mais a dizer e está disposto a revelar, de cara limpa para uma câmera, o passo a passo da metamorfose que o levou de ajudante de pizzaiolo em São Bernardo do Campo (SP) a merchant de raridades com direito a motorista particular e apartamento em Higienópolis, bairro de elite da capital paulista. Ao longo de sua caminhada, Laessio compôs um portfólio incalculável: das primeiras edições de clássicos da literatura nacional, como Machado de Assis, a retratos da fauna, da flora e da paisagem brasileira feitos por artistas europeus do calibre de Debret e Rugendas. Obras valiosíssimas e, inacreditavelmente, sujeitas ao mofo e ao abandono nas prateleiras das bibliotecas país afora. Ainda que por caminhos tortos, Laessio evidencia a necessidade de o Brasil cuidar de sua própria história. A história de Laessio Rodrigues de Oliveira é impressionante demais para ser verdadeira. Só que é. Por essa razão, merece ser contada em grande estilo.


 

Como menino pobre apaixonado por Carmen Miranda se transformou no 'maior ladrão de livros raros do Brasil'



Fóruns Centrais
Fórum Ministro Mário Guimarães
18ª Vara Criminal
JUÍZO DE DIREITO DA 18ª VARA CRIMINAL
JUIZ(A) DE DIREITO TERESA DE ALMEIDA RIBEIRO MAGALHÃES
ESCRIVÃ(O) JUDICIAL JAIR ALVES VIEIRA
EDITAL DE INTIMAÇÃO DE ADVOGADOS
RELAÇÃO Nº 0022/2017
Processo 0092309-31.2016.8.26.0050 - Ação Penal - Procedimento Ordinário - Receptação - LAESSIO RODRIGUES DE OLIVEIRA - Vistos.Ratifico o recebimento da denúncia, pois preenche os pressupostos previstos no art. 41 do Código de Processo Penal. Pelos elementos de prova existentes, não é caso de absolvição sumária, sendo mister a realização da audiência de instrução e julgamento.Continuam presentes os requisitos que autorizaram a conversão do flagrante em preventiva, mantendo a decisão anterior por seus próprios fundamentos. Analisando a Folha de Antecedentes verifico que há inúmeros processos/ inquéritos envolvendo o acusado em casos de crimes patrimoniais contra órgãos públicos, como é o caso da Biblioteca Mário de Andrade, Museu Nacional do Rio de Janeiro, etc. Justamente para resguardar a ordem pública, entendo que a prisão preventiva se justifica, eis que há indícios mínimos de autoria e materialidadeDesigno Audiência de Instrução e julgamento para o dia 02/02/2017, às 16:00, intimem-se as partes e as testemunhas arroladas pela defesa/acusação. Requisite-se o preso.Verifico que a vítima do suposto fato é uma universidade pública de prestígio, sendo de se confiar em sua imparcialidade na avaliação de seu próprio acervo. Defiro parcialmente as diligências solicitadas pela defesa, determinando que a USP seja ofendida para responder por escrito, no prazo de 10 dias as seguintes indagações (algumas perguntas acrescentadas por este magistrado).I - Qual é o ano dos livros recuperados no curso do inquérito, se é possível estimar seu valor em mercado, o número de obras similares que existem no próprio acervo da USP.II - Informações sobre o local físico dentro da biblioteca em que estavam tais livros (qual o departamento, se é permitido o acesso de público externo), mencionando os meios de controle existente para a segurança do acervo. No mesmo prazo, deverá a USP juntar ao processo cópia do procedimento/sindicância instaurado diante do sumiço das obras em questão. Intime-se - ADV: EDUARDO JOAQUIM MIRANDA DA SILVA(OAB 168706/SP)
https://www.jusbrasil.com.br/diarios/documentos/419135893/andamento-do-processo-n-0092309-3120168260050-acao-penal-procedimento-ordinario-receptacao-17-01-2017-do-tjsp?ref=topic_feed