terça-feira, 21 de fevereiro de 2017

Fernando Pessoa lido por Teresa Rita Lopes


Teresa Rita Lopes: ‘O Fernando Pessoa anda por aí todo deturpado’


Estuda a obra de Fernando Pessoa há meio século e já deu a volta aos 27 mil documentos do espólio por mais de uma vez. Teresa Rita Lopes, que acaba de publicar Livro(s) do Desassossego, fala sobre a sua relação com o poeta e sobre ‘o vandalismo’ da edição crítica.


Porque achou que era preciso mais uma edição do Livro do desassossego, quando já existem tantas?
A última foi uma edição crítica do Jerónimo Pizarro. Quando ele veio para Portugal, no início de 2000, foi meu aluno e do Fernando Cabral Martins, de maneira que acho que lhe pegámos esse interesse pelo Pessoa. Não ficou no meu grupo por razões que não vêm ao caso, e foi trabalhar para o grupo do atual orientador da edição crítica, que se chama Ivo Castro. Sabe disso, não sabe?
Não.
Quando fez 50 anos da morte do Pessoa, em 1985, o António Alçada Batista, que foi um grande obreiro da cultura, constituiu uma comissão para os festejos. E essa comissão decidiu que íamos fazer uma edição crítica do Pessoa, porque até aí cada um fazia as edições a seu bel-prazer. O Alçada Batista convidou-me, mas eu disse: ‘Não entro para esse convento’.
Porquê?
Porque não sou filóloga e aborrecem-me aquelas edições críticas, que são muito chatas, com muitas notas de rodapé. Gosto de fazer edições muito mais depuradas e que deem prazer ler. E foi então designado esse senhor, Ivo Castro, que é filólogo e professor na Universidade de Letras. Só que o homem é medievalista, de Pessoa não percebe patavina, e escreveu um livro em que diz que para se fazer uma edição crítica de Pessoa é preciso não perceber nada de Pessoa.
Para ter distanciamento?
Para ter uma objetividade científica. O que é um perfeito disparate, porque esse método só poderia ser aplicado a textos publicados em vida pelo autor. Antes do Ivo Castro, foi designada para fazer isso uma senhora italiana especialista em Literatura Portuguesa chamada Luciana Stegagno Picchio. E ela dizia-me: ‘Ó Terresa, vamos fazer isso’ [com sotaque italiano]. ‘Mas vamos fazer isso como?’. ‘Meto no computor’ [risos]. Nessa altura eu já tinha estado no espólio e sabia que aquilo é tremendamente difícil.
De decifrar?
Em 1990 publiquei dois calhamaços chamados Pessoa por Conhecer. É que toda a gente fala do Pessoa como se o conhecesse. Estava à procura desse livro para lhe mostrar. Então leia lá este manuscrito do Álvaro de Campos.
‘A alma humana é porca como…’
[Ri-se] Leia por cima que é mais fácil.
‘Um cu’.
O Pessoa faz isto: quando escolhe mesmo, risca o que está na linha corrida. Mas a maior parte das vezes não risca, e põe uma variante em cima, ao lado ou entre parêntesis. As edições críticas tratam da mesma forma a emenda e a variante. Aqui não faz diferença porque o que estava na linha corrida era ‘como um ânus’ e assim até fica mais forte. Agora leia o resto.
‘E a vantagem dos…’.
É o que está a pensar.
‘A vantagem dos cara****”?!
É isso mesmo. Uma das coisas que divertiu muito as pessoas é que na primeira edição crítica eles leram ‘canalhas’ porque acharam que o Pessoa não podia ter escrito um palavrão. Mas neste caso é mais pela curiosidade. No Alberto Caeiro é mais evidente. Eles assassinaram o Alberto Caeiro, com esse processo de confundir a variante com a emenda. Fazem as escolhas que o Pessoa não fez.
Assassinaram? Mas o que lá está não deixa de ser Pessoa…
Quando fazem uma edição crítica e dão notícia das variantes, tudo bem. Agora as edições que o Ivo Castro coordenou para o Expresso já não dão notícia da variante, portanto o texto fica perfeitamente definitivo, e é aquilo que os meninos vão levar para a escola e que os tradutores vão usar.  O Pessoa ainda anda por aí todo deturpado e deformado e é por isso que estou com um espírito de missão de o salvar do vandalismo da edição crítica.
Porque começou a fazer edições do Pessoa se dizia que não queria entrar para esse convento?
Em 1990, o David Mourão Ferreira, que eu estimava muito, chamou-me: ‘Teresa Rita, tem de fazer a crítica a este livro, ao Álvaro de Campos’. E eu disse-lhe: ‘Nem pense, tinha de ir a todos os originais e demorava dois anos.’ Só que ele era um homem inteligentíssimo e percebeu como havia de me convencer. ‘Se a Teresa Rita não fizer ninguém faz, e tem a obrigação cívica de o fazer’. Perante isso, rendi-me. Levei dois anos. Nessa altura era mais difícil porque tínhamos de ir para a Biblioteca Nacional, manusear aqueles papelinhos todos. E saiu uma edição minha do Álvaro de Campos, contestando a do Ivo Castro.
Pode falar-me sobre a sua experiência de lidar com os originais?
Antes de morrer, o Pessoa começou a arrumar os seus livros. Fez maços e esses maços estão hoje na Biblioteca Nacional como foram achados em casa dele. Quando foram arrolados na BN eles respeitaram isso. Agora o nosso trabalho de investigadores está muito facilitado. Já não precisamos de ir consultar os originais na Biblioteca Nacional porque muitos de nós temos um disco externo.
Com tudo digitalizado?
Sim, a senhora da BN deu isso aos investigadores. Depois os investigadores passaram aos seus discípulos – foi o meu caso. Hoje em dia todos os que trabalham em Pessoa têm isso. Às vezes é mesmo necessário ver o original, mas no computador a gente pode ampliar, de maneira que eu, de cada vez que faço um livro destes, volto sempre a ver os originais. Já dei a volta aos 27 mil e tal documentos mais de uma vez – estou muito distraída a ver aquilo. Ainda ontem tive o prazer de descobrir dois novos poemas do Ricardo Reis que estão metidos no meio de outras coisas. Às vezes ele escrevia até no rol da roupa suja, aproveitava todos os papelinhos, e nós temos que ver cada papelinho como um detetive, à lupa.
A caligrafia muda consoante o heterónimo que está a escrever?
É verdade que sim, porque ele faz questão de se despersonalizar. Isto tem qualquer coisa de espírita.
Como se o médium encarnasse o espírito da pessoa?
Ele fazia escrita mediúnica, escrita automática, a ver se os espíritos se manifestavam através dele. Veja aqui, isto é a assinatura dum espírito. Ele fez este poema e depois o espírito disse-lhe: ‘No good’ – não presta. Ele estava sempre nesse limiar entre acreditar e brincar com isso. Olhe este aqui: ele faz este poema e no fim assina ‘Vardur [um dos espíritos] + Pessoa’. E depois o Vardur diz-lhe assim: ‘This poem is yours, my boy’.
Além do espiritismo e da astrologia, Pessoa interessava-se por outras áreas?
Ele era um extraordinário estudioso. Deve ter havido poucas pessoas tão cultas neste país como ele. Porque ele vivia para essa ânsia de saber. Lia, lia, lia – já desde miúdo que era assim – comprava todos os livros que conseguia, depois vendia-os para comprar outros. Interessava-se por tudo. Escreveu sobre sociologia. Sobre as ciências da psique – meu Deus, o que ele escreveu! As pessoas pensam que ele era só um poeta, mas não. Mais de metade dos textos do espólio continuam inéditos. Ainda há muitos livros de Pessoa que deverão ser feitos.
Porquê o interesse pela psicologia?
A avó paterna dele morreu louca e ele assistia aos acessos de loucura da avó em pequenino. Toda a vida ele se preocupa com o que chama ‘génio e loucura’. O Pizarro até reuniu esses textos – ele é um grande trabalhador, não digo mal do meu aluno. Só tenho pena que tenha seguido o método da edição crítica.
Pode falar-me da sua relação com o Pessoa, como o descobriu?
A minha relação com esse rapaz… Descobri o Pessoa aí pelos meus 13 anos no Liceu de Faro. Ia à Biblioteca do liceu e depois tinha um caderninho onde escrevia os poemas de que gostava. O Álvaro de Campos é que me caiu no goto.
Mais tarde vai para França. A relação com Pessoa mantém-se?
Em Novembro de 63 a PIDE não sabia que eu tinha mudado de casa e foi-me prender à antiga casa. Entretanto fui avisada e raspei-me no dia seguinte no Sud Expresso. Em Paris nessa altura não se sabia quem era o Pessoa. O meu diretor de tese, um homem muito célebre na altura, quando eu lhe falei do Pessoa, disse: ‘Eu não conheço’. Hoje não há nenhum estudioso ou mesmo pessoa culta em França que se atreva a dizer que não sabe quem é o Pessoa.
Ainda assim podia estudar bem Pessoa a partir de Paris?
Comecei a vir a Portugal em 1969, depois de o Salazar cair da cadeira. E a primeira coisa que eu fiz foi ir para o baú, em 69. E de 69 a 75 mexi no espólio diretamente.
Recorda-se da primeira vez que foi ao baú?
Para consultar o que estava na casa da irmã tinha de ter uma autorização e fui ao ministério para a pedir. O senhor que lá estava não ma deu e eu estava a ver aquilo muito mal parado. O Veiga Simão, quando soube do que se tratava, mandou-me chamar e disse que sim. Comprei uma máquina de fotocópias muito complicada e comecei a ir para a casa da irmã, que me recebia muito bem.
Era a única pessoa lá?
Na altura aquilo estava a ser arrolado por umas senhoras da BN que nem sei donde vinham, mas tiveram um excelente papel, porque numeraram aquilo tudo. Aqui há tempos fiz para o SOL um texto sobre a segunda arca do Pessoa. Na altura descobriu-se que a família tinha ficado com dois mil e tal documentos que não vendeu à BN e que estava a vender em leilões. Isso é grave porque refazer a obra do Pessoa não é como refazer um puzzle. É refazer vários puzzles. Quando faltam peças é uma chatice.
É quase como uma escavação arqueológica?
Refazer a obra do Pessoa exige de nós gosto e o talento para a arqueologia, porque é reunir as pedras dispersas daqui e dali. As senhoras da BN davam-me os envelopes, e eu ficava ao pé delas a ver aquilo tudo, a fotocopiar e a assistir às conversas. O Pessoa, prevendo que ia morrer, deixou aquilo arrumado. Só que a irmã era uma senhora muito simpática e deixava toda a gente mexericar naquilo. Quando as arroladoras lá chegaram, aquilo já estava tudo misturado. Elas pegavam num papel, uma lia alto e a outra dizia assim: ‘O homem era mesmo maluco’.
A irmã partilhou memórias consigo?
A irmã disse-me uma coisa de que já desconfiava: que o Pessoa era extremamente pudico da sua obra e da sua vida particular. Falava pouco de si. A irmã dizia-me: ‘Ai, nós não fazíamos a mínima ideia de que o Fernando viesse a ser tão importante’. [risos] Eles não davam nada por ele.
Pessoa trabalhou até morrer?
Sim. O que vem na certidão de óbito é que morreu com uma cólica hepática. Agora estão a fazer diagnósticos depois de morto – em que eu não acredito muito – um médico até escreveu um livro sobre isso.
Temos dados suficientes para reconstituir um dia na vida dele?
Mais ou menos. Ele viveu toda a vida com apertos de dinheiro, apesar de ter recebido cinco contos de réis do prémio da Mensagem. Tinha de ganhar o pão com o suor do rosto. Simplesmente exigia não ter horários fixos. Era a sua liberdade. Como era muito conceituado pelos patrões – escrevia cartas comerciais em francês e inglês – além do mais tinha feito um curso comercial no último ano em que esteve em Durban, 1904.
Era um bom funcionário?
Os patrões prezavam-no imenso, davam-lhe muito valor. Mas ele queria ganhar à peça, não ganhava ao mês nem à semana, para ter a liberdade de ir lá quando lhe apetecia. Passava pelos escritórios – tinha mais do que um – para fazer as cartas que deixavam para ele. Mas tinha crises do que ele chamava neurastenia – uma vez escreveu a um amigo: ‘Tive uma crise de neurastenia que me atou o cérebro’ – havia períodos em que não podia trabalhar. Ele foi um homem muito infeliz, de certa maneira.
Mas também deve ter tido momentos de grande exaltação criativa e satisfação.
A gente percebe pelos manuscritos que ele escrevia num frenesi, numa exaltação. A sua mão não acompanhava a vertigem do seu pensamento. Devia ser aquilo que chamam um ciclotímico [alguém que alterna períodos de euforia com períodos de depressão].
Como é que consegue isto nas horas livres? Roubava ao sono?
Ele normalmente ia à tarde. Provavelmente escrevia à noite. E tinha insónias. Por isso é que não durou muito tempo. Além do mais curtia as suas bebedeiras.
Em casa?
Em casa. Aliás ninguém o via bêbedo. Conheciam-no por isso. Às vezes levantava-se do escritório e ia beber um bagaço durante as horas de trabalho. Mas isso deixava-o imperturbável.
José Cabrita Saraiva, jornal SOL, 2016-02-17


Wook.pt - Livro(s) do Desassossego

Livro(s) do Desassossego
SINOPSE
É o livro da vida de Fernando Pessoa, finalmente editado como o autor queria, respeitando todos os semi-heterónimos que fazem parte dele, devidamente assinados - Vicente Guedes, Barão de Teive e Bernardo Soares. Vale explicar que a expressão "semi-heterónimo"é do próprio Pessoa, que considerava como heterónimos apenas três: Alberto Caeiro, Álvaro de Campos e Ricardo Reis. Ainda assim, são vozes muito próprias, que partem de biografias inventadas como personagens de teatro. Não estarem misturados ou até preteridos como em publicações passadas é a grande novidade dessa edição, preparada por uma das mais respeitadas especialistas na obra de Fernando Pessoa, Teresa Rita Lopes. Por isso a sugestão do plural do nome: Livro(s) do Desassossego. Assim como o autor foi vários, o livro também é. A primeira parte é O livro de Vicente Guedes. Os textos nessa época ainda são muito influenciados pela corrente literária simbolista. A segunda parte, O livro do Barão de Teive, já assume um tom mais seco, de um personagem que definiu por si o fim da própria vida. A terceira parte, O livro de Bernardo Soares, é notoriamente parte do que conhecemos como Modernismo. Todos têm introduções que iluminam suas leituras, escritas por Teresa Rita Lopes, em linguagem descomplicada, ainda que contendo profundo conhecimento de causa. Ler essa obra é como espiar as décadas de dedicação aos textos, tanto da parte de Fernando Pessoa quanto dos pesquisadores de seu espólio. Teresa Rita Lopes conta que frequentemente a caligrafia do poeta é indecifrável. Somente a convivência com as leituras por anos e anos de seus poemas, muitos deles escritos à mão, ou mesmo datilografados e corrigidos à mão, é que torna possível a publicação.

https://www.wook.pt/livro/livro-s-do-desassossego-fernando-pessoa/16954370

domingo, 19 de fevereiro de 2017

Rómulo de Carvalho - António Gedeão

Rómulo de Carvalho no seu armário feito por medida, meticulosamente arrumado e onde escrevia sempre de pé.
Foto cortesia Cristina Carvalho para http://observador.pt


Chamava-se Rómulo como o mítico fundador de Roma, foi um homem do Renascimento mas viveu no século XX. Cientista, professor, poeta, homem livre nas margens da ditadura e da revolução morreu há 20 anos.
Dizia que tinha vindo de uma terra assombrada, que não acreditava na bondade humana, nem no mistério da poesia, escrevia sempre de pé, bebia as manhãs a café com leite sempre na mesma caneca, percorreu anos e anos as mesmas ruas, meteu a chave na fechadura de casa à hora em que o esperavam, não usava gravata, não se sentava à mesa do poder nem do povo, não pertenceu à ditadura nem à revolução, não foi em grupos, não teve amigos, não meteu cunhas, não foi boémio, alcoólico, fanfarrão. Falava mais com os olhos que com as palavras, tinha muitos admiradores, não tinha intimidades. Respirava melhor o amplexo do mundo fechado num laboratório do que na orla do grande mar.
Sabia muito bem que só sendo ferozmente banal poderia ser radicalmente livre. Por isso, a pior coisa que podem fazer a Rómulo de Carvalho/António Gedeão é continuarem a aprisioná-lo num “sonho comanda a vida”. Porque tudo o que ele foi desmente essa leitura superficial do poema: a pedra filosofal de Gedeão não é o sonho. É sim o trabalho, a dúvida, a reflexão, o pensamento que engendra nas mãos a escultura, a máscara, a catedral, a máquina. O único ouro possível de obter pelo alquimista é a sabedoria (como a poesia e a Liberdade) só se alcança pela dúvida, pela experiência, pela humildade de se saber nada perante a infinitude de um universo em perpétuo movimento.
“Devia pedir desculpa por ter escrito esse poema [Pedra Filosofal]”, confessou um dia à filha Cristina Carvalho. Porque afinal fora um poema “escrito a assobiar para o lado” e que “agora serve para tudo desde anúncios de prostitutas a publicidade a colchões”. O poema, musicado por Manuel Freire, tornou-se uma balada pueril para saudosistas da revolução porque se for lido com atenção, afirma a filha do poeta em entrevista ao Observador, “vemos que ele fala daquilo que o homem construiu quando, saindo das imobilidade onírica, deitou mãos ao trabalho e fez acontecer. A Pedra Filosofal não é um poema sobre estarmos deitados a sonhar. É antes sobre a urgência do fazer pois, é pelo fazer que se tece a grande epopeia humana de que fala o poema, desde a pedra em sobressalto até ao foguetão. É mais uma história de construtores do que de alquimistas”.
Com o passar dos anos Rómulo de Carvalho ostentava um rosto antigo como o mundo. Aqui a ler o seu poema para Galileu, já com quase 90 anos. Foto: Cortesia de Cristina Carvalho
Agora, quando passam 20 anos sobre a morte de uma das mais marcantes figuras que atravessaram a cultura do século XX português, vale a pena lembrar que Rómulo de Carvalho, mais do que um homem de palavra foi um homem de trabalho: das ciências exatas às ciências sociais, do desenho, à poesia e à fotografia, da construção de objetos de madeira, à feitura de livros manufaturados, de professor de adolescentes a pedagogo, de ensaísta a divulgador de ciência e escritor de manuais escolares.
Porém, e tendo em conta, a sua mística mãe Rosa de Oliveira, Rómulo/António foi também um enfeitiçador de almas, um guardião dos mistérios, como um verdadeiro homem do Renascimento, como Camões, como Montaigne, como Da Vinci, ele sabia que cada explicação não abre caminho para uma verdade, um determinismo mas é tão só a primeira porta para uma nova estrada de dúvidas, interrogações, experimentações, pois tudo está precariamente equilibrado sobre a tectónica do caos. E Deus? Deus ele nunca soube se existia ou não. Era agnóstico e poupava-se a grandes conversas sobre o assunto.
Aliás Rómulo também não gostava muito de conversas, como ele próprio afirmava “precisava de muito tempo para estar consigo próprio, para os seus pensamentos”. A solidão, esse mal que parece atingir fatalmente tantos homens e mulheres, e são bom pasto para tanta poesia e tanta literatura do século XXI, não eram problema para o poeta que, como o estóico Séneca, sabia que “só quem vive bem consigo mesmo vive bem com os outros”.

“Abaixo os mistérios da poesia”

Era uma vez um menino
que não era nada feio
O que tinha de extraordinário
era um feitiço no meio”
(Rómulo de Carvalho, com 5/6 anos)
Aprendeu a escrever precocemente, numa casa onde viviam duas irmãs mais velhas, uma mãe leitora compulsiva e um pai cantor coral (além de funcionário dos Telégrafos e Correios de Portugal). Na Graça, num terceiro andar com vista para o Tejo, escreveu os primeiros versos por volta dos 5/6 anos. Ainda se chamava apenas Rómulo Vasco da Gama Carvalho, mas já usava palavras complexas e, sem saber, elaborava metáforas dividindo o mundo entre o sagrado e o profano, entre o visível mundo da carne e o invisível mundo dos feitiços.
Aos 10 anos, já tinha completado a escola primária, atreveu-se a continuar os Lusíadas. Leu a épica obra e se Camões parou no reinado de D. Sebastião ele havia de prosseguir até ao reinado de D. Manuel I. O que veio a ser o “XI Canto dos Lusíadas” foi publicado no Diário de Lisboa, com direito a fotografia do poeta vestido de marujo mais para gáudio da família que do próprio, que só haveria de voltar a publicar poemas seus quarenta anos mais tarde.
Rómulo de Carvalho, com 10 anos, quando escreve e publica o XI Canto de Os Lusíadas no Diário da República. Foto cortesia de Cristina Carvalho
Nasceu em 1906 no estertor da monarquia, foi criança durante a 1ª República, fez-se adulto durante a ascenção do salazarismo. Tinha 68 anos no 25 de Abril de 1974. Recusou cargos na Universidade, no Ministério da Educação, na reitoria dos liceus. Desprezava que a ditadura usasse o poder obscurantista para dominar os outros e desprezava que as democracias usassem a ilusão da liberdade para dominar os outros. Sim, sim, é este o homem, o poeta que escreveu a Pedra Filosofal e que neste documentário de Diana Andringa, de 1996, um ano antes da sua morte, declara: “Não acredito nos seres humanos, não acredito na capacidade de os homens fazerem qualquer coisa socialmente boa, a não ser se isso beneficiar os seus interesses pessoais”.
“Era uma pessoa totalmente desencantada”, lembra a filha, também escritora, Cristina Carvalho. “Porém, não era amargurado. A sua descrença notava-se apenas na ironia subjacente a quase tudo o que dizia. Nunca o ouvi dar uma gargalhada. Apenas sorria e o seu sorriso era sempre pontuado por uma mais clara ou mais disfarçada ironia”.
Essa ironia, que a crítica literária e ensaísta Maria Lúcia Lepecky há-de afirmar ser “em exemplo da sua superior inteligência e uma das características da sua poesia” parece ser hoje em dia cada vez menos legível e a sua poesia arrumada no dossier dos anos do PREC. Talvez porque a sua ironia trabalhada na fímbria de linguagem complexa, multireferencial, erudita, onde a ciência se funde com a filosofia e com o quotidiano dos homens, seja hoje difícil de entender, tal como as formas tradicionais e antigas que escolheu (a rima, a redondilha, o vilancete) façam confusão aos ouvidos desabituados das coisas longínquas.
E no entanto, se houve poeta a cultivar o registo coloquial, antes dele estar na moda como hoje está, foi António Gedeão. Se houve poeta que trouxe o quotidiano dos homens comuns, dos deserdados para dentro da poesia foi Gedeão. Basta ler-se os célebres Calçada de Carriche ou Lágrima de Preta (no tempo em que os poetas podiam dizer preta sem serem chamados de racistas). Como bastaria ler com alguma atenção Poema a Galileu, para ver o que é a capacidade de usar a palavra não apenas na sua simplória função designativa, mas para fazer uma duríssima crítica à ditadura ao mesmo tempo que celebra a Ciência, o livre pensamento, explica a teoria de Galileu e entabula com ele um dialogo que é, também, um dialogo consigo mesmo enquanto cientista e enquanto poeta:
Por isso estoicamente, mansamente,
resististe a todas as torturas,
a todas as angustias, a todos os contratempos,
enquanto eles, no alto inacessível das suas alturas,
foram caindo
caindo,
caindo,
caindo,
caindo sempre,
ininterruptamente
na razão direta dos quadrados dos tempos”
Como lembra Cristina Carvalho, “António Gedeão é hoje considerado um poeta menor pela nossa intelligentsia. Isto foi-me dito assim tal e qual por uma poeta que recebeu o prémio António Gedeão. E eu pergunto: menor porquê? menor para quem?”.
Contrariando os desígnios da infância, Rómulo de Carvalho não seguiu um curso de literatura. Formou-se em Ciências Fisico-Quimicas. Tornou-se professor de liceu. E o nosso espanto plutocrático não pára de crescer. Mas apenas isso? Um professor de liceu? “Ele queria era que o deixassem em paz”, diz Cristina Carvalho. Quando era professor no Liceu Camões foi pressionado pelo reitor a inflacionar a nota de um aluno para que este entrasse na Universidade. Pediu a transferência para outra escola. Depois do 25 de Abril, quando um aluno que tomava conta da porta do Liceu Pedro Nunes lhe bateu com uma vara de madeira no braço e declarou à boa maneira ditatorial do novo regime “este pode entrar”, Rómulo de Carvalho meteu os papéis para a reforma.
Pelo meio tinha construido quase sozinho o laboratório experimental daquela escola que tantos cientistas formou. Tinha escrito dezenas de livros de divulgação cientifica destinados mesmo a ensinar ciência num pais quase analfabeto. Elaborou currículos e manuais escolares, ensinou professores. Entre os seus alunos diletos estavam Mariano Gago, António Mega-Ferreira, Marcelo Rebelo de Sousa, Nuno Crato. É Mariano Gago que, em 1996, vai instituir o 24 de Novembro, dia em que nasceu Rómulo de Carvalho, como Dia Nacional da Cultura Científica. Ele que nunca recebeu prémios, nem foi um poeta do establishment tem, desde 2012, um prémio de poesia com o seu nome, instituído pela Federação Nacional de Professores (FENPROF) e a SECRE-Corretores de Seguros. Até agora foram distinguidos com o galardão Ana Luísa Amaral e Nuno Júdice.
Escrevia sempre de pé num armário feito por medida e rodeado de pequenos objetos cheios de significados íntimos. Foto cedida por Cristina Carvalho
Tal como o cientista Rómulo, também o poeta António falava mais para o futuro do que para o seu tempo, que falava mais aos vindouros do que aos seus coetâneos e sobretudo rejeitava a postura do poeta separado assepticamente do mundo de que fala. Por isso ele dignificou como poucos o homem comum. Não lhe glorificou as misérias mas restituiu-lhe o lugar nos mistérios filogenéticos. Neste insondável universo, sem salvação e sem Deus somos todos igualmente irrelevantes. E, como muito bem lembra Urbano Tavares Rodrigues, quem escutar bem a poesia de Gedeão encontra nela ecos desse outro genial inadaptado que foi Raul Brandão.
Enquanto houver um homem caído de bruços no passeio
e um sargento que lhe volta o corpo com a ponta do pé
para ver como é;
enquanto o sangue gorgolejar das artérias abertas
e correr pelos interstícios das pedras,
pressuroso e vivo como vermelhas minhocas despertas;
enquanto as crianças de olhos lívidos e redondos como luas,
órfãs de pais e de mães,
andarem acossadas pelas ruas
como matilhas de cães;
enquanto as aves tiverem de interromper o seu canto
com o coraçãozinho débil a saltar-lhes do peito fremente,
num silêncio de espanto
rasgado pelo grito da sereia estridente;
enquanto o grande pássaro de fogo e alumínio
cobrir o mundo com a sombra escaldante das suas asas
amassando na mesma lama de extermínio
os ossos dos homens e as traves das suas casas;
enquanto tudo isto acontecer, e o mais que se não diz por ser
verdade,
enquanto for preciso lutar até ao desespero da agonia,
o poeta escreverá com alcatrão nos muros da cidade:
ABAIXO O MISTÉRIO DA POESIA

Rómulo de Carvalho e a máquina do mundo

Filho de uma mãe que aos domingos lia nas cartas destinos gloriosos ou funestos, que durante a vida a adulta não saiu de casa mais do que umas poucas dezenas de vezes, Rómulo, foi também ele tocado pelos mistérios que a ciência não explica e pelas regiões de sombra que só as palavras superficiais e sentimentais parecem resolver. “Era aristocraticamente distante, a sua autoridade vinha do seu exemplo, da sua auto-exigência. Era delicado mas poderosamente frontal. Detestava e desconfiava seriamente dos sentimentalismos”, recorda a filha do poeta.
Talvez por uma auto-exigência, mas também por timidez ou insegurança, só vai atrever-se a publicar a sua poesia perto dos 50 anos, depois de muito rasgar. No livro de memórias Rómulo de Carvalho/António Gedeão, o Príncipe Perfeito (ed. Estampa), Cristina Carvalho conta que ele nunca deixou de escrever poesia, mas que rasgava tudo não temendo “deitar a perder todo aquele sofrimento (…) Rasgava todos os poemas que tinha e os que ia escrevendo, protegia-se de toda a dor e de todos os entendimentos.”

A utilização de um pseudónimo simples sobre o seu nome cheio de ressonâncias arquétipicas (Rómulo foi um dos fundadores míticos de Roma, juntamente com o irmão gémeo Remo, ambos filhos da loba), foi ainda uma forma de se proteger dessa sua persona mais frágil, mais exposta. No entanto o nome simples, com um certo gosto neorrealista, não foi nunca sinónimo de um poeta simples. Nunca se enquadrou em qualquer grupo ou movimento literário, embora a sua lírica fosse claramente de pendor órphico e modernista. Foi elogiado por Gaspar Simões, prefaciado por Jorge de Sena, com quem de resto mantém uma correspondência ao longo de muitos anos.
Talvez porque o que eu escrevia fosse a expressão do meu sofrimento pessoal, um sofrimento sem literatura…” (Rómulo de Carvalho, “Memórias”)
Como Camões, lido aos 10 anos, Rómulo cria uma poesia profética, onde a ciência é mostrada como conquista e como desastre, certamente como desconhecido a avançar dentro de outro desconhecido a Vida. O mundo é uma máquina nas mãos de um hesitante experimentador, que avança e recua, que cria e destrói. Perante essa máquina nunca o olhar do poeta deixa de ser desalentado, descrente. Cada vez mais crítico e combativo à medida que se sucedem os livros: Movimento Perpétuo (1956), Teatro Do Mundo (1958), Máquina de Fogo (1961), Linhas de Força (1967), ao qual volta a seguir-se um hiato de 16 anos até aparecerem os dois volumes com os irónicos títulos de Poemas Póstumos e Novos Poemas Póstumos. Rómulo de Carvalho matou António Gedeão, não obstante a fama que este conquistara, em especial depois de ter sido musicado e cantado por Manuel Freire, Adriano Correia de Oliveira, José Nisa ou Carlos do Carmo.
As “Memórias” de Rómulo de Carvalho, publicadas pela Fundação Gulbenkian, são um testemunho que atravessa todo o século XX português
Como ele próprio há-de declarar, com o seu habitual desassombro, no documentário de Diana Andringa, “não tinha mais nada a dizer como poeta”. E se é verdade que a sua poesia pôde, através dos cantautores, chegar a um público mais vasto que a elite que habitualmente lê poesia, “o que muito lhe agradou”, também é verdade que Gedeão acabou por ficar acantonado no tempo da revolução “o que tem prejudicado a sua leitura e descoberta pelas novas gerações”, admite Cristina Carvalho.
O Universo é feito essencialmente de coisa nenhuma.
Intervalos, distâncias, buracos, porosidade etérea.
Espaço vazio, em suma.
O resto, é a matéria.
Daí, que este arrepio,
este chamá-lo e tê- lo, erguê -lo e defrontá- lo,
esta fresta de nada aberta no vazio,
deve ser um intervalo
(Máquina do Mundo, António Gedeão)
O “intervalo”, o “entre”, lugar arrepiante onde não há tempo, nem espaço, onde nenhuma geometria é possível logo só nos resta cair, cair infinitamente. E o poeta-cientista olhou esse intervalo, curioso e aterrado porque ele sabia o poder da interrogação. “Era no caos de todas as ordens que ele se encontrava e explicava, explicava e transmitia o que conseguia aperceber-se, desde a aleatoriedade e formação das nuvens aos desorganizado voo das moscas”, escreve Cristina Carvalho.
Por isso a sua vida foi um demanda, uma viagem em busca dos mistérios onde um claro desejo futurante se cruza com a memória, a rememoração, o gosto pelo antigo, pelo arquivo. Cantou a luz mas vivia consciente da omnipresente escuridão. Por isso escreveu ensaios absolutamente inovadores na área da História, entre eles o já clássico História do Ensino em Portugal desde a Fundação da Nacionalidade até ao fim do Regime Salazar-Caetano. Escreveu dezenas de livros de divulgação cientifica, artigos científicos sobre física, química, educação, filosofia, astronomia. Estudou homens vanguardistas como Pascal, Descartes, Einstein, Dürer. E em 1995, com perto de 90 anos, surge com um volume insólito O texto Poético como Documento Social. Entre, muitas, muitas outras coisas que podem ser estudadas no seu espólio depositado na Biblioteca Nacional.
A escritora Natália Nunes foi um amor tardio de Rómulo de Carvalho. Ela tinha 22 anos ele quase 40. Foto: Cortesia de Cristina Carvalho
Enquanto foi cientista, escritor, poeta, professor Rómulo de Carvalho também teve dois casamentos, dois filhos (Frederico Carvalho, físico-nuclear, e Cristina Carvalho, escritora), cosia os seus próprios botões, criou sozinho uma filha bebé quando a mulher, a escritora Natália Nunes, passou mais de um ano em Paris a estudar, ia religiosamente ao cinema todos os sábados à noite.
Aos 25 anos foi dado como inapto para o serviço militar por ter, nas palavras do médico, “um coração de velho”. Talvez este médico tenha percebido que o coração de Rómulo vinha de longe, “do fundo do tempo”, assombrado. A verdade é que só aos 90 anos o coração lhe falharia em consequência de uma isquémia cardíaca. Morreu uma semana depois de ser operado. Era o dia 19 de fevereiro de 1996.
Numa qualquer manhã, um qualquer ser,
vindo de qualquer pai,
acorda e vai.
Vai.
Como se cumprisse um dever.
Nas incógnitas mãos transporta os nossos gestos;
nas inquietas pupilas fermenta o nosso olhar.
E em seu impessoal desejo latejam todos os restos
de quantos desejos ficaram antes por desejar.
Abre os olhos e vai.
Vai descobrir as velas dos moinhos
e as rodas que os eixos movem,
o tear que tece o linho,
a espuma roxa dos vinhos,
incêndio na face jovem.
Cego, vê, de olhos abertos.
Sozinho, a multidão vai com ele.
Bagas de instintos despertos
ressuma-lhe à flor da pele.
Vai, belo monstro.
Arranca
as florestas com os teus dentes.
Imprime na areia branca
teus voluntariosos pés incandescentes.
Vai
Segue o teu meridiano, esse,
o que divide ao meio teus hemisférios cerebrais;
o plano de barro que nunca endurece,
onde a memória da espécie
grava os sonos imortais.
Vai
Lábios húmidos do amor da manhã,
polpas de cereja.
Desdobra-te e beija
em ti mesmo a carne sã.
Vai
À tua cega passagem
a convulsão da folhagem
diz aos ecos
“tem que ser”.
O mar que rola e se agita,
toda a música infinita,
tudo grita
“tem que ser”.
Cerra os dentes, alma aflita.
Tudo grita
“Tem que ser .”
(“Estrela da Manhã”, António Gedeão) 



 "António Gedeão, o poeta que veio do fundo dos tempos morreu há 20 anos", por Joana Emídio Marques. Observador, 2017-02-19


quarta-feira, 15 de fevereiro de 2017

O mais importante na vida, por António Botto


António Botto


O mais importante na vida
É ser-se criador - criar beleza.

Para isso,
É necessário pressenti-la
Aonde os nossos olhos não a virem.

Eu creio que sonhar o impossível
É como que ouvir a voz de alguma coisa
Que pede existência e que nos chama de longe.

Sim, o mais importante na vida
É ser-se criador.

E para o impossível
Só devemos caminhar de olhos fechados
Como a fé e como o amor.



António Botto (1897-1959), "O mais importante" in Canções (1920)


Manuela de Freitas in «Poemas de Bibe» [em parceria com Mário Viegas] (1990)
Tradução para inglês de Fernando Pessoa em: «Songs» (1930) / Translation by Fernando Pessoa
Música: Bernardo Sassetti (1970-2012), "Inocência - Movimento I"







segunda-feira, 13 de fevereiro de 2017

Manuel António Pina


     LUZ

Talvez que noutro mundo, noutro livro,
tu não tenhas morrido
e talvez nesse livro não escrito
nem tu nem eu tenhamos existido

e tenham sido outros dois aqueles
que a morte separou e um deles
escreva agora isto como se
acordasse de um sonho que

um outro sonhasse (talvez eu).
e talvez então tu, eu, esta impressão
de estranhidão, de que tudo perdeu
de súbito existência e dimensão,

e peso, e se ausentou,
seja um sonho suspenso que sonhou
alguém que despertou e paira agora
como uma luz algures do lado de fora.

Manuel António Pina

                                          *

TALVEZ DE NOITE

Não abras a porta,
se for o sublime diz que não estou,
já temos palavras de mais, sentimentos de mais.

A glicínia não floriu este ano,
antes floria à volta de tudo
o que resta de azul à nossa volta,
envelheceu, anima-a só o desejo de voltar a casa, de ser uma casa.


Manuel António Pina, Como se desenha uma casa

segunda-feira, 30 de janeiro de 2017

Adelaide da Facada, madame Blanche e madame Calado

"O Fado", José Malhoa, 1910

FADO MALHOA

Alguém que Deus já lá tem, pintor consagrado
Que foi bem grande e nos dói já ser do passado,
Pintou numa tela com arte e com vida
A trova mais bela da terra mais querida.

Subiu a um quarto que viu, à luz do petróleo,
E fez o mais português dos quadros a óleo:
Um Zé de samarra, com a amante a seu lado,
Com os dedos agarra, percorre a guitarra
E ali vê-se o fado.

Faz rir a ideia de ouvir com os olhos, senhores.
Fará, mas não p’ra quem já o viu, mas em cores.
Há vozes de Alfama naquela pintura
E a banza derrama canções de amargura.
Dali vos digo que ouvi a voz que se esmera,
Boçal dum faia banal, cantando a Severa.
Aquilo é bairrista, aquilo é Lisboa;
Boémia e fadista, aquilo é de artista,
Aquilo é Malhoa.  



Letra: José Galhardo. Música: Frederico Valério


ADELAIDE DA FACADA
É a personagem que José Malhoa mais trabalhou (conhecem-se seis estudos individuais do pintor). Era vendedora de cautelas. O nome ‘artístico’ tem a ver com uma grande cicatriz que lhe corria no lado esquerdo da cara e, para esconder esse traço, a posição dos dois modelos foi trocada na pintura. Malhoa desejou representá-la despida, ou quase, da cintura para cima e ela posou para o pintor várias vezes descoberta, o que causou ciúmes a Amâncio.
Nos estudos preparatórios do quadro vê-se uma Adelaide com o peito descoberto, um saiote branco e quase deitada, numa pose mais provocadora. Acabaria por ser pintada com ambas as alças da camisa para cima e com uma pesada saia vermelha em vez do saiote branco.

Foi na Mouraria que José Malhoa encontrou as personagens para a sua obra. Conheceu Amâncio Augusto Esteves, “rufia, fadista e tocador de guitarra” que lhe apresentou a vendedora de cautelas e do corpo Adelaide da Facada. Ao longo de mais de um mês, José Malhoa deslocou-se à casa de Adelaide, na Rua do Capelão, para retratar o mais fielmente possível o ambiente que observava. Na Mouraria, não passava despercebido: ficou com a alcunha de ‘pintor fino’ entre prostitutas e moradores; por diversas vezes, teve de se explicar à polícia sobre as razões de estar ali; e passou a frequentar o Governo Civil, para ir buscar os detidos Adelaide e Amâncio e poder continuar a pintura.
Na altura em que Malhoa pintou o quadro, o fado, como expressão musical, começava a popularizar-se entre burgueses, intelectuais e aristocratas; estava a abandonar o meio restrito e marginal de onde provinha e a tornar-se uma indústria do entretenimento. Ora, Malhoa procurou encontrar essas raízes mais antigas da marginalidade da vida fadista.
O pintor sabia bem o que procurava: uma espécie de ‘verdade’ (os especialistas dirão um certo ‘realismo’) que mostrasse um meio pobre e violento, vivendo da economia paralela do roubo, contrabando, jogo e prostituição. Uma parte da vida urbana que, por certo, dividia Malhoa, porque havia nela simultaneamente um fascínio e um ‘fado’, como se àquelas pessoas estivesse traçado o destino. E um certo desdém por um outro género de violência, de que Malhoa se queixava em Lisboa: intrigas, invejas e má vontade, um lado urbano que detestava.
A representação das duas figuras, no quadro, era comum na pintura e nada tem de ‘portugalidade’ – há influências da pintura espanhola e latino-americana – nem de fado propriamente dito, a não ser no sentido que lhe damos de ‘destino’. A transformação da pintura numa imagem que representa a essência de um país é, portanto, uma invenção. A pintura tem influências europeias marcadas e beneficiou de uma popularidade muito grande ao longo do século XX.
Ana Luísa Rodrigues e António Henriques, “O Fado nasceu na Mouraria”, in Rosa Maria n.º 0. Lisboa, Associação Renovar a Mouraria, junho de 2010.


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“Não é verdade rapaz? E amanhã há bola
antes de haver cinema madame blanche e parola”

Mário de Cerariny de Vasconcelos, “Pastelaria

* 

A madame Calado,
que a Estalagem construiu
foi uma casa de meninas
alguma esbeltas e divinas
e onde muito rico se divertiu.





A dona do bordel dos ministros que deixou a fortuna à Misericórdia
A incrível história da madame Calado, proprietária da casa de prostituição mais exclusiva de Lisboa. E o testamento escrito por José Hermano Saraiva.

"Esta senhora, Maria da Piedade Calado, caiu na prostituição por força das circunstâncias. Mas se não soube viver, soube morrer", diz Joaquim Nunes das Neves, antigo funcionário da Santa Casa da Misericórdia do Fundão, que guardou uma cópia do testamento da madame Calado, a dona da casa de passe mais exclusiva de Lisboa nos anos 50 e princípio de 60, frequentada por ministros e directores-gerais. 
Nasceu às 3 da manhã de 25 de Novembro de 1894 na freguesia de Boidobra (Fundão), filha de um jornaleiro e de uma doméstica, e foi baptizada na véspera de Natal, tendo adoptado os nomes da madrinha, Piedade Calado, que não assinou o assento de baptismo por não saber escrever. 
Fez depois fortuna como meretriz em Lisboa, até a prostituição ser ilegalizada por Salazar em 1963. A partir do dinheiro que acumulava com os negócios do sexo na sua "Pensão" Calado, num primeiro andar da Calçada do Carmo, 25, frente à estação do Rossio, acumulou capital suficiente, por exemplo, para emprestar 550 contos a um comerciante em 1943 (o equivalente a 272 mil euros a preços de hoje). Ele passou-lhe um cheque sem cobertura e ela pôs-lhe um processo, consultado pela SÁBADO na Torre do Tombo.

Analfabeta, mas rica
Mais impressionante ainda, em 1948 era proprietária da Quinta das Águas Livres, que vendeu por 1.800 contos (757 mil euros a preços actuais) a Manuel Santos Sobrinho. O caso deu origem a um novo processo, desta vez porque ela recusou pagar a comissão de 54 contos ao mediador que tratou da venda. Este pôs-lhe um processo a exigir a comissão, onde referia que Maria da Piedade Calado não sabia ler nem escrever, só assinar o nome. Apesar de analfabeta, tinha ainda um prédio na Calçada do Poço dos Mouros, na Penha de França, que arrendava a inquilinos – encarregava um procurador de cobrar as rendas por ela. E vivia num apartamento na Rua Castilho.
A 29 de Abril de 1951, quando tinha 55 anos, casou-se no Santuário de Fátima, com Fernando Filipe Pereira da Silva, do Seixal. Já não tiveram filhos. E separaram-se pouco depois. 


No Fundão, Maria da Piedade Calado era proprietária da Casa do Bico, um palacete com um torreão, um elevador interior para a alimentação, um jardim de inverno no quarto e uma casa de banho toda em louça preta. "Tinha um gosto extraordinário e era de um arrojo tremendo, naquela época", recorda Carlos Couto, que viria a alugar o edifício para gerir a Estalagem da Neve. "Tinha um chauffer, que a conduzia num carro preto muito grande, enquanto ela acenava às pessoas. Na altura havia dez ou 15 carros no Fundão, mas o dela era o mais espampanante".

Massagens a meio da noite
Um jardineiro contratado pela Madame Calado no Fundão despediu-se ao fim de um mês. "É maluca. Acorda-me a meio da noite, pede-me massagens e anda nua pela casa", desabafou na altura a outros patrões da terra, conta uma ex-professora da Misericórdia. Outra residente no Fundão descreve-a como uma mulher "alta, loura, forte, de pele branca e rosadinha e que andava sempre bem apresentada, extravagante até".


Em redor da moradia principal, a madame Calado mandou fazer vários pequenos apartamentos que seriam alegadamente usados pelas prostitutas que trabalhavam para ela. Fernando Nogueira Gonçalves, autor do livro Ilustres e desconhecidos, meio século de memórias do Fundão, dedicou-lhe estas rimas: "A madame Calado, // que a Estalagem construiu // foi uma casa de meninas // algumas esbeltas e divinas // e onde muito rico se divertiu".
Mas ao mesmo tempo que explorava as raparigas, ia praticar caridade a 12 km do Fundão, na Boidobra, a terra onde nasceu e onde era proprietária da Quinta Branca. Um familiar afastado contou à SÁBADO: "Chamavam-lhe a rainha das putas, mas foi uma boa senhora para a malta. Tinha uma cozinha, onde mandava fazer sopa, e toda a gente, trabalhadores e crianças pobres da Boidobra, ia ali almoçar de graça". 
Na adega desta sua quinta, mandou construir um cofre, enterrado na terra, e que foi descoberto depois da sua morte: estava cheio de jóias. 

Viciada em jogo, generosa na missa
Tinha o vício do jogo – organizava jogos a dinheiro em casa – mas era generosa na missa: "No ofertório notava-se logo, dava uma nota", recorda outra familiar. A conversão total de Maria da Piedade Calado sobressaiu quando fez o testamento. "A dada altura no fim da vida arrependeu-se. Pensou que ia morrer e teve medo de ir para o Inferno. Já tinha feito mal a tantas raparigas levadas para a prostituição, passou a querer livrá-las da prostituição", conta uma ex-professora do Fundão. 
Morreu às oito da noite de 9 de Junho de 1964, com um enfarte de miocárdio, no Hospital da Misericórdia do Fundão. Tinha 69 anos. No campo destinado à profissão no assento de óbito, a que a SÁBADO teve acesso, foi identificada como "doméstica". 

"Peço perdão por todos os meus pecados"


Dias depois, foi aberto o testamento, escrito por José Hermano Saraiva, advogado com ligações ao Fundão e que viria a ser ministro da Educação com Salazar, embaixador no Brasil com Marcello Caetano, e apresentador de programas de História na RTP depois da revolução. 
É um texto dactilografado em sete folhas, extraordinário pelo arrependimento e pelo destino dado à fortuna. Arranca assim: "Sou católica e na hora da minha morte o meu pensamento eleva-se para Deus, a quem peço perdão por todos os meus pecados. Àqueles que ofendi e também a todos aqueles a quem fiz mal ou deixei de fazer bem, peço que perdoem todas as minhas faltas (…) Desejo que todos os meus bens possam contribuir para minorar a pobreza e a dureza da vida das crianças pobres da minha região".
E assim destinou a Casa do Bico à Misericórdia do Fundão, para aí instalar a Casa-mãe de Nossa Senhora da Piedade, um lar para 20 raparigas, com idades entre os dez e os 20 anos, escolhidas entre as crianças mais pobres com maior vocação para o estudo – que assim poderiam evitar cair nas malhas da prostituição. 
"Desejo que a casa-mãe não se transforme num asilo. Mas num verdadeiro lar, onde as raparigas possam encontrar o carinho, o respeito e a alegria a que todas as crianças têm direito, mas que infelizmente tantas nunca chegam a conhecer. Por isso não se usará farda, sendo ministrado ensino de costura de forma a que as alunas possam confeccionar o seu próprio vestuário segundo o seu gosto." A casa-mãe ofereceria ainda o vestido de noiva às educandas, uma por ano. Deixou à instituição mais 1.200 contos (416 mil euros a preços actuais) resultantes da venda do prédio em Lisboa, na Calçada do Poço dos Mouros. 

Testamento por cumprir
Havia um prazo de dois anos para a casa começar a funcionar, após o que o legado ficaria sem efeito. Nunca chegou a ser instalada, sob o pretexto de que já havia outras instituições para acolher raparigas nos arredores. O bispo da Guarda ainda terá chamado a atenção para o facto de o testamento não estar a ser cumprido. Mas o testamenteiro, José Hermano Saraiva, terá dado o seu acordo para que a herança fosse usada pela Misericórdia do Fundão para outros fins. 
      
Contudo, o testamento da Madame Calado não terminava ali. Deu instruções para que fossem entregues "uma esmola de cem escudos em dinheiro [34 euros] e um cobertor bem quente a todos os pobres da freguesia da Boidobra", escolhidos pelo padre da freguesia. Este receberia ainda 20 contos (6941 euros), para rezar dois trintanários gregorianos de santas missas pela alma da madame Calado, mais uma missa perpétua no aniversário da sua morte e ainda para lançar sobre a sua campa, em cada dia de finados, flores brancas. 250 contos (86.750 euros a preços actuais) seriam para a Igreja da sua terra, a Boidobra. E outros 250 contos seriam entregues ao Ministério da Educação, para construir uma cantina escolar na aldeia. 
Por fim, nomeava testamenteiros José Hermano Saraiva, o padre Alfredo Ferraz, do Fundão, e António Paulouro, director do Jornal do Fundão: "Confio em que todos os três, que toda a sua vida têm amado os humildes e os infelizes, me ajudem depois da minha morte a realizar esta obra, que em vida não pude realizar".
Joaquim Nunes das Neves, o ex-funcionário da Misericórdia que guardou este testamento e o facultou à SÁBADO, despediu-se assim no fim da conversa: "Se no seu texto puder dar a entender que ela foi mais do que uma puta, já valeu a pena." Foi. E valeu.
Pedro Jorge Castro, Revista Sábado, 2016-12-16

    


Como eram os bordéis de Lisboa antiga 
O lápis azul da censura tinha um vizinho que lhe fazia a vida negra. Luiz Pacheco. Um dos seus autores, Mário Cesariny, entregara-lhe o poema, ‘A Pastelaria’, que ainda chegava a horas para ser incluído num livro.

Uma palavra adivinhava a praxe de descer as escadas. “Veja lá! disse-me o gajo”. Para que constasse ‘Madame Blanche’ o artista teria de mudar o sentido da frase. “Ele não ligava a bordéis de matulonas”; Cesariny fez de conta que a tal madame era um cinema.
Os bordéis de outrora merecem um filme. João, fotógrafo aposentado, adianta que, talvez, tenha sido “ali” – no prédio vizinho do cabaré Ritz Club, traseiras com a Praça da Alegria – que nos anos 60 alegrou o ego a muita alma. Ali. No primeiro andar do número 63 da rua da Glória onde moram criaturas que não imaginam a reminiscência do local. Com a garantia da Cannon não disparar, afinal, por duas, ou quatro tardes foi cliente da ‘Madame Blanche’ – bordel perito em prazeres capazes de ressuscitar impotentes.
Em dias de frágil imunidade, também punha homens a caminho da farmácia para comprar frascos da descoberta de Alexander Fleming. Salazar, que não entendia de penicilina, obrigava as prostitutas a irem ao Governo Civil para testar a saúde. Em vão. Os antibióticos só matam os micróbios.
Pressionado pela Igreja, a 19 de Setembro de 1962, o decreto-lei 44579 proíbe a prostituição. “Nunca saiu do papel”. Teve efeito contrário: o fruto proibido ainda se tornou mais cobiçado. No fundo, o Antigo Regime considerava a depravação útil para escudar a moral. A bem da nação, um homem que ia às meninas não andava a desonrar donzelas e não desviava casadas para o travesseiro do alheio.
António Variações, muito superior à visão do beirão, simplifica as consequências dos banquetes carnais: quando a cabeça não tem juízo, o corpo é que paga. “Esquentamentos”. Cancros moles. Pediculose púbica. “Mas isso nunca matou ninguém!” Nem o conde de Vimioso morreu, em vez da coitada da Severa que, em 1846, partiu aos 26 anos de tuberculose, num prostíbulo na rua do Capelão.
Os olhos do João contemplaram algumas rameiras de peito avantajado e traseiro considerável. Contudo, sempre que queria ir às nuvens, na horizontal, vertical, dependia do ânimo, pagava cinquenta escudos. Esteve com uma muda, outra que falava pelos cotovelos, gordas, magras, coxas, menos com Madame Blanche. Nem sabe se ela existiu. “Quem deve saber é o Fernando” – um garanhão para quem, durante largos anos, a noite acabava às oito da manhã. Mas a andropausa mudou-lhe o horário. Além da próstata insuficiente, a companheira de bodas de platina bebe uma gasosa ao seu lado. “Volte outro dia”. Volto? Sem promessa.

FELICIDADE NO BAIRRO ALTO
Subindo a rua, duas viradas à direita, a rota prometida é o Bairro Alto, aliás, o “Bairro do Bife”, antigo epicentro do milho. O número 142 da Rua do Diário de Notícias, o 5 da Rua da Barroca ou o 8 da Travessa da Água da Flor, entre a década de 50 e finais dos anos 70, metamorfosearam tansos em potentes felizes. Dessa felicidade nem sobrou um tijolo.
O mesmo não se diz do famoso 100 da vetusta rua do Mundo, atual rua da Misericórdia. Um edifício em obras garante um empreendimento de luxo. No tempo do Sr. Manuel, dono de uma leitaria que, por ter vendido vinho, conseguiu comprar um terreno em Tomar, a fama do algarismo da centena até provocava água nas beiças dos moribundos. “Eu também lá fui”. Ao terceiro andar – a repartição mais barata, vinte e cinco escudos. O preço no segundo piso subia para o dobro. Quem pudesse despender cem paus só precisava de galgar um par de escadas.
“Tive que juntar dinheiro”, graceja Jorge, reformado do comércio. Perdeu a virgindade em 1961 com um “Monumento”. No cardápio, que era um molho de fotografias, elegeu uma sardenta fértil de peitos e de ancas. Exigir um engano entre a foto e o original estava fora de questão.
A mínima tentativa de impingir gato por lebre significava perder o cliente. Nos meses em que não conseguia amealhar, dobrava a esquina, e recorria ao prédio adjacente da Igreja de São Roque. Não ia rezar. “Ia à Eva”, um bordel baratucho que, apesar de não ter salamaleques, tinha o essencial: raparigas disponíveis. Mal o patrão o promoveu, “Fui à Madame Calado” – casa fina e cara onde iam ministros e diretores gerais.
Situada numa rampa de feição da estação do Rossio, um primeiro andar de um prédio, já demolido, era propriedade da Calado, madama do Norte, que após ter amealhado um pé-de-meia na prostituição, montou um bordel no Porto e outro em Lisboa. “Ela vivia na casa do Rossio”, mas nunca abria a porta. A criada dava as honras ao cliente, e se ele fosse visita rotineira, “Ui, ui!” parecia que tinha chegado o rei. Embora amplo de inovações, o menu não variava: “Tudo o que eu não fazia com a minha mulher, fazia com elas”.

TRUQUES PARA ENTRAR NUM BORDEL
Alfredo, 67 anos, que trabalhou meio século num cabaré perito no forrobodó, fazia com elas e com todas. Conheceu quilos de fruta madura e verde feminina, embora fosse um frequentador pontual do sexo a pagantes.
“Uma coisa era certinha”: A porta do prédio de um bordel só tinha uma disposição. Aberta. A da entrada só abria após o check feito, através do ralo, pequeno, mas de tamanho perfeito para tirar a prova dos nove. Se fosse persona nunca vista no sítio, havia o risco do sexo ficar com o regozijo adiado.
A melhor artimanha para passar a fronteira consistia em carregar no corpo o mostruário do saldo bancário: Anéis, pulseiras, qualquer objeto que brilhasse servia para enfatizar a credibilidade. “Nas primeiras vezes, coloquei tudo o que tinha”, no dedo anelar levava um cachucho, no mindinho outro, e os quatro botões desapertados da camisa favoreciam a vista de um fio de ouro.
Quando o cliente era habitual, a tranca do ádito corria depressa. A responsável recebia-o de sorriso na face. Dava-lhe as boas tardes, as boas noites, ou, em horas de maior otimismo orgânico, os bons dias. Depois, encaminhavam-no para uma sala de tons acastanhados, de ar asseado. As cadeiras serviam para esperar. Às vezes, calhava estarem outros espertos. Entretinham a espera a mastigar pastilhas elásticas, a limar unhas, a puxar a franja do cabelo para trás. O que importava era o baque que vinha das mãos e da voz da patroa.
O bater das palmas e a frase “Meninas à sala” anunciava o momento imperial: O desfile. E lá vinham elas. Coxas livres de celulite, peles cuidadas com óleo de amêndoas, seios firmes de vários tamanhos, lábios com bâton candente. Enquanto as fêmeas faziam poses para empolgar a freguesia, a matrona das palmas elogiava os dotes das afilhadas. Finda a passarela, o mulherio recolhia em fila indiana e aguardava pela opção. “Escolhi-as pelas pernas e pela roupa”. No quarto, as pernas faziam mais falta do que a roupa, “Mas havia respeito”.
Nunca lá foi, mas ouviu falar da mansão da madame Azacovt, na rua Carlos Mardel, numa porta que nunca descobriu. O preço único de 500 escudos afastava muitos e atraía outros. “Era assim”.

JOSÉ VILHENA E AS MADAMES
Chama à prostituição “exploração do amor”. José Vilhena, autor da revista ‘Gaiola Aberta’, antigo dono da boîte Nigth and Day foi frequentador de bordéis. “Com gosto”. Bastante.
Na altura em que estudou na Escola de Belas Artes do Porto, à noite edificava outra arte. Sexo. É na cidade Invicta que conhece a Madame Calado, que ao contrário do nome, adorava falar. Quando vem para Lisboa, a coincidência persegue-o: “O meu atelier no Bairro Alto já tinha sido um bordel”. A avidez pelo sexo tinha pressa, mas não tanta. Passou tardes a ler o jornal à espera que aparecesse a rapariga que queria.
“Passaram dez anos, desde a última vez que a vi”. Madame Blanche, francesa que, nos anos 30 trocou Paris pelo Fundão. Até ser quarentona exercia a profissão. De uma pousada fez uma pensão de águas correntes. Faz sucesso.
“Abre uma sucursal na capital. Ela escolhia muito bem o material”. Miúdas que vinham da província servir mas que às vezes serviam os patrões de outra maneira.
Outras, entravam na senda pelas mãos de um padrinho rico ou do namorado teso. A proibição de 1962 em nada alterou na borga libidinosa. A Polícia sabia que em bordéis não se rezava. Mesmo se estivessem fardados, a autoridade não tinha autoridade. O séquito salazarista adorava a corte prostituta.
Ministros, secretários, conselheiros, eram senhores de comer sopa ao pequeno-almoço para irem fazer a digestão à Madame Calado. “Vi muitas vezes o Dr. Correio de Oliveira, secretário de Estado das Finanças”.
O regabofe finda com o 25 de Abril de 1974. As casas fecham. Muitas transformaram-se em pensões de sexo rápido, onde as meninas já não vão à sala e ninguém bate palmas por elas.

MEMÓRIA PERDIDA OU PRATICAMENTE DEGRADADA
Os bordéis do antigamente fecharam as portas em finais dos anos setenta. À parte da memória daqueles que eram frequentadores dessas casas de sexo pago, pouco ou nada sobrou para contar a história. Alguns edifícios foram demolidos, outros encontram-se em franco estado de degradação, a esmagadora maioria dos prédios na capital, que fizeram muito homem feliz da vida, tornou-se ruína. Rua da Glória, rua do Mundo, Travessa da Água da Flor, rua da Barroca, todas tinham uma segunda vida, para lá da noite.

ESCALÕES SOCIAIS REUNIDOS
Doutores, operários, ministros, mangas de alpaca, todos se cruzavam na mesma noite. Entravam nos mesmos prédios. Deleitavam-se com as mesmas mulheres. Desde 25 escudos a 500, os prazeres do sexo tinham sempre um custo.
Correio da Manhã, 2007-08-26



Carreira 1960 "Que vida boa era a de Lisboa" (Capítulo III )

Bordel de luxo Madame Blanche 
(Continuação)
Depois da tempestade a bonança,Lisboa fervilha de novas emoções, a Feira Popular abre portas em 1962,  para contentamento das suas gentes,serão os concursos de mini-saia, as rainhas da rádio, os combates de boxe , onde Belarmino seria o rei, iriam ser o tema de todas as conversas dos alfacinhas . Também a outra Lisboa boémia marginal e escondida, continuava em ascensão. Carreira 1960 destino a Lisboa do pecado !!
Esquinas becos e ruelas 

Não , não eram praxes , à época ,o ritual de iniciação na vida adulta, passava pelo baptismo, a que a rapaziada, mais nova era sujeita pelos amigos , familiares mais velhos, numa só frase a ida" ás meninas "..Assim um dos destinos era o primeiro andar do número 63 da Rua da Glória, onde moram criaturas que nem imaginam a reminiscência do local.O bordel da Madame Blanche com fama de ser perito em prazeres capazes de ressuscitar impotentes. Todavia, em dias de frágil imunidade, também punha homens a caminho da farmácia para comprar frascos da descoberta de Fleming, que vida boa era de Lisboa .
Salazar que não entendia de penicilina, obrigava as "meninas"a ir ao governo civil para testar a saúde .
Pressionado, pela igreja pelos brandos costumes,a 19 de Dezembro de 1962 o decreto de lei nº 44579 proíbe a prostituição .escusado será dizer que "Nunca saiu do papel ", pelo contrário teve o efeito inverso, pois como diz o aforismo "fruto proibido é mais apetecido".
No fundo o Antigo Regime, considerava a depravação útil para escudar a moral . Sempre a bem da Nação, um homem que ia às "meninas" não andava a desonrar donzelas, e não desviava casada para o travesseiro alheio. Sempre assim foi, quando a cabeça não tem juízo o corpo é que paga,"esquentamentos", cancros moles, pediculose pública, sífilis, mas para a frente," é que é Lisboa" e isso nunca matou ninguém .

A bem da moral

Felicidade no Bairro Alto, um destino, a rota prometida, o chamado na gíria "Bairro do Bife " antigo epicentro da depravação e prazer.O nª 142 da Rua do Diário de Noticias, e o nª 5 da rua da Barroca ou o 8 da Travessa Água Flor, entre a década de 60 e finais do anos 70, metamorfosearam  tansos em potentes felizes, que vida boa era a de Lisboa. Dessa felicidade não sobrou um tijolo,já o mesmo não se poderá dizer do famoso 100 da vetusta rua do Mundo , hoje Rua da Misericórdia.
O séquito Salazarista adorava a corte prostituta.Ministros , secretários conselheiros de estado, eram personagens assíduas, no bordel mais afamado da capital "Madame Calado", casa fina e afamada , situada numa rampa ao lado da estação do Rossio, oferecia moçoilas da província (Beiras e Norte) sem vícios e com muito amor para dar, apregoava a madrinha Calado,como cabeça de cartaz pela primeira vez em Portugal, Bia uma açoreana de cara redonda, cabelo ruivo, peitos cheios, pernas torneadas e traseiro avantajado, um sucesso , um Monumento!!!
Mas enganem-se os mais cépticos, o mercado era diversificado, para os de menos posses , havia sempre a possibilidade de uma visita à casa da Ilda, bordel baratucho que apesar de não ter grandes monumentos , tinha mulheres disponíveis, também ele de bom acesso , paredes meias com a Igreja de São Roque, que vida boa era de Lisboa . Para aquelas que já tinham atingido a emancipação, as esquinas, ruelas e becos eram o cenário, desde a parte sul da Avenida da Liberdade, Cais Sodré , Técnico , Intendente ,Rua da Betesga etc,,,  eram mercados em ascensão .

Bordel Madame Calado 

Desde doutores, ministros, operários, mangas de alpaca, todos se cruzavam na mesma noite , nos mesmos lugares,deleitavam-se com as mesmas mulheres,e todos estavam conscientes, que os prazeres do sexo tinham um custo , que poderiam ir dos vinte cinco escudos aos quinhentos escudos .
Pastelaria Suiça-Rossio
No que à homossexualidade dizia respeito,oficialmente não se podia ser . No discurso nem existia .Mas na prática era comum. Quer para o povo,assíduo nos urinóis, estações e docas, preso e humilhado pela policia : quer para as elites sociais e culturais que viviam a sua sexualidade numa tolerância envergonhada.
Além do mundo dos salões da classe alta, os intelectuais, no inicio dos anos 60,começam a viver a sua homossexualidade com mais naturalidade. São pontos de encontro, a cervejaria Reimar na  Rua do Telhal onde se misturava a elite e o povo homossexual .Também cafés como o Monte Carlo , Monumental,o Tony dos Bifes a Pastelaria Paraíso, na Avenida Alexandre Herculano, a Suiça , Brasileira no Chiado são locais de encontro.
Príncipe Real -Lisboa 
Quanto a lugares mais recatados, e de encontro nocturno,mais frequentados são o Bar Z no Príncipe Real onde hoje é o Harry`s, O Barbarella na Rua da Atalaia , o Insólito o Antiquário, e as célebres matinés para lésbicas do Gato Preto Gato verde, hoje Memorial , um pouco mais tarde abria o Bric a Brac, a catedral dos homossexuais, que rica vida era a de Lisboa .
É da época o denominado pelas gentes do norte, o Passarinho do Rio, a Bernardete para os alfacinhas , aristocrata com lugar seguro na Avenida da Liberdade, com fama de ter dormido com o maior numero de homens que havia memória, personagem frequente nos urinóis do Rossio.
Cais Sodré -Lisboa 1960
    
Carlos Fernandes, http://skywaterland.blogspot.pt/2014/03/carreira-1960-que-vida-boa-era-de_29.html